Um papo com Said Aiach Neto, atleta e organizador da corrida Ecomotion

Tema:Adventure Race
Autor: Cristina Degani
Data: 10/1/2001

Adventure Race -



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Ele voou de asa-delta por sete anos, já surfou, fez windsurf e sempre pedalou, além de participar de organizações de campeonatos, sejam eles quais forem. Fora isso, é empresário de produtos para nutrição de atletas e patrocinado pela Reebok como esportista. Para terminar, conheceu uma nova modalidade e dois anos depois lançou-se organizador da mesma.

Muito esporte para uma pessoa só? Não no raciocínio de Said Aiach Neto, 38 anos, personagem do parágrafo acima e que tem sua permanência nos vários segmentos resumidos em um só idéia: a paixão e respeito pela interação do intercâmbio esportivo, físico, cultural e emocional.

No seu histórico de provas de aventura estão o Elf Authentique Aventure (realizada em abr/2000 no NE) e terminou em quinto lugar no geral e primeira brasileira. Fez as três etapas do Circuito EcoAventura, do saudoso Mário Lopes, além de outras provas multiesportivas. Em out/2000, ficou em quarto lugar na EMA com a equipe Quasar Reebok Coolmax, tendo desempenho excelente mesmo sofrendo com penalizações.

Organizador do circuito multiesportivo Reebok Swatch Ecomotion, em três etapas, Said parte para a segunda prova, em Paraty, 20 e 21 de janeiro. Nessa entrevista, ele conta um pouco da criação do circuito, de sua experiência como competidor e da paixão pelas corridas de aventura. Confira:


360 – Como surgiu o circuito Ecomotion?
Said – Eu decidi montar por várias razões. A primeira delas é que eu achava que deveria ter um envolvimento maior com o esporte, porque sempre fiz parte de organizações de campeonatos e participei de federações, como no vôo livre. Uma afinidade que tenho em gostar de fazer e de participar.

O casamento perfeito se deu quando soube que a Reebok, minha patrocinadora, queria montar algo na linha das provas de aventura. Eles sabem que é um mercado em crescimento e precisavam de um produto. Foi aí que eu formatei um circuito com três etapas e eles acharam um bom momento para investir na idéia.

360 – Há corridas de um dia, como as do Ecomotion, e de 12 dias, como a internacional EcoChallenge; lugares de mais fácil acesso e mais inóspitos. Existe um formato perfeito?
Said – Não, depende do que o competidor quer. Para mim o desafio depende da estratégia e velocidade com que você corre a prova, por isso uma competição de um dia pode ser tão difícil de ganhar quanto uma de 10 dias. Nas etapas do Ecomotion, procurei misturar todos os obstáculos e paisagens naturais, existe single trek, down hill, mata fechada, pasto, rafting em água parada (floating), canoas de nativos, orientação complicada, em trechos de mar e montanha. Mas, com certeza, as provas de um dia são facilitadoras para quem está começando, pois a pessoa consegue ao menos terminar. É essa a idéia.

360 – Como você começou nas corridas de aventura?
Said – Foi o Alexandre Freitas, que organiza há dois anos a EMA (Expedição Mata Atlântica, maior e mais esperada corrida brasileira), que levou todo mundo para as provas de vários esportes em uma só competição. É demais. Ele foi explicando para cada um, abrindo esse segredo que para a gente era bem diferente e absolutamente fascinante.

360 – Você correu em quantas EMAs?
Said – Todas, desde 98. Um detalhe curioso é saber que na primeira edição da corrida ninguém sabia o que ia acontecer. Eu fui assistir a uma palestra do Alexandre, gostei pra caramba, mas não tinha vaga e tal. Aí fiquei esperando alguém desistir, o que acabou acontecendo, só que na mesma semana da prova. Tudo bem, a prova não foi tão punk, e peguei a terceira colocação das equipes brasileiras, quinta na geral. Mas a gente tinha pouca noção de estratégia de prova, que tinha de dormir pouco. Fomos aprendendo.

Com todo o mérito do mundo que eles merecem, mas a Pedal Power, uma equipe super coesa, era a única que sabia mais ou menos o que estava por vir, porque já tinham sido apoio na Southern Traverse (corrida neo-zelandesa). Já no ano passado, a corrida foi mais difícil e brigamos pela liderança. Mas por um problema de desgaste nos pés atrasamos e fomos cortados por 20 minutos de atraso da categoria principal.

360 – Você fala com muito entusiasmo das corridas; por que é tão fascinante?
Said – É que você tem de lidar com todas as perninhas desse polvo. Aprender a se relacionar intimamente com sua equipe, administrar os pontos fracos e não as virtudes dos colegas. Isso é bárbaro! Você traz todo esse aprendizado para a vida pessoal. Por isso que tem tanta empresa agora vendo nas provas multiesportivas uma oportunidade de propor desafios a seus executivos e funcionários. É uma ação que tem muito resultado, o pessoal sai bastante empolgado e visualiza outras metas para seu trabalho.

Às vezes tenho até medo de falar porque explico mais com emoção do que com a razão, mas o que tento passar para quem me questiona sobre isso é que é uma atividade multiesportiva que não envolve só força física, mas sim planejamento, estratégia, raciocínio, relação humana, solidariedade, respeito pelo meio ambiente, e tantos outros fatores que são importantes na construção e desenvolvimento do caráter de pessoas. Isso que é apaixonante.

360 – E provas as internacionais, você gostaria de fazer?
Said – Sim, mas quero fazer direitinho, com uma preparação física e emocional mais condicionada e, principalmente, com equipe bem treinada, que tivesse uma sinergia maior. Não quero fazer por fazer, me encaixando em qualquer equipe só pelo prazer de participar. Quero ter bons resultados e fazer uma coisa bem planejada.

360 – Normalmente, as corridas são realizadas em lugares belíssimos. Como organizador, você se preocupa com isso?
Said – São regiões de mata preservada, de paisagens naturais sem igual. Sim, como organizador a gente procura levar os atletas a pontos de mar e montanha que sejam de encher os olhos. Na primeira etapa do Ecomotion, na Bocaina, desviei uma parte do percurso de mountain biking só para passar perto do Pico Tira o Chapéu, que tem em sua volta morros idênticos ao da Nova Zelândia, com aquela vegetação tipo barba-de-bode, onde só faltava as ovelhas (risos). É de babar. No rapel, uma descida de 150m, era num ponto super especial, uma vista maravilhosa.

360 – Mas os competidores conseguem admirar isso?
Said – Olha, aí é outro ponto. Para aquelas equipes que estão indo pela primeira vez é até mais legal nesse aspecto, porque eles vêem tudo mesmo, tiram até fotografia. Mas é complicado para a faixa das equipes mais competitivas. Tem gente que passa e fala "pô, a prova tá muito bonita" e tal, mas é pauleira.

Digo isso pela própria experiência do Elf, em que passamos pelos Lençóis Maranhenses e nem me dei conta disso. Era muito cansativo, quase 80 quilômetros andando no areião. Eu apreciava de leve, porque não dava para parar a equipe e comentar "hei, vejam o pôr do sol" ou "olha aquela duna". Para quem quer chegar na frente, o que move é a determinação. Então abaixa a cabeça, sai socando a bota, naquele estresse, sem descansar. É assim mesmo.

360 – Corrida de aventura é para mega atletas?
Said – Veja bem, você corre, entre pedal, a pé, remando ou seja lá o que for, uns 120 quilômetros sem parar para dormir. Óbvio que tem de ter um certo condicionamento físico, treinar para a prova e ter a sensibilidade e humanidade suficientes para trabalhar em equipe. Mas tem de ficar claro que não é um esporte para super atletas, que não tem de saber todas as modalidades.

Sem esse papo de esporte para malucos, que muita gente fica sabendo por alto e às vezes por uma informação mal passada não consegue entender. Tem muitas peças que ajudam a montar esse quebra cabeça de como sair-se bem e ajudam a conseguir um bom resultado. Mas tem de começar.

360 – Por que vocês definiram bônus em produtos no ato da inscrição para competição?
Said – Essas provas, que envolvem um percurso outdoor que tem de ser estudado bem antes, com muitos profissionais especializados e estrutura bem montada, não são baratas. Por isso, o competidor paga muitas vezes alto pela prova, pela planilha que ele compra e pela segurança que ele espera ter. Então, tentamos amenizar fazendo com que o patrocinador bancasse os principais custos. E revertendo o dinheiro que a equipe investe em produtos do patrocinador. Assim, fazemos uma via de duas mãos: amenizamos o bolso do atleta, que gasta muito em equipamento esportivo, alimentação, transporte, etc., e damos mais fôlego à viabilização do esporte. De outro lado, aproximamos os esportistas dos produtos que a Reebok e Swatch desenvolvem, pois são eles o público alvo das marcas patrocinadoras.

360 – O esporte está crescendo?
Said – É um crescimento lento ainda, de boca a boca, porque é uma modalidade nova também. A pessoa que foi apoio em uma corrida torna-se o competidor da próxima e o interessado no esporte vai ser apoio. O esporte ainda cresce em progressões aritméticas e não geométricas.

Nosso grande retorno está sendo a assimilação da corrida pelo público que acompanha através da mídia, em que a TV é ainda nossa maior vitrine. Mas os sites especializados, como o 360 Graus, estão se tornando nossos grandes aliados na divulgação correta das informações. É, está crescendo, mas tem um tempo para isso.

Fotos Pisco del Gaiso/ Agência Fotosite/ EMA 2000



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