Pablo Bucciarelli da Equipe Trópicos fala sobre o Desafio Los Volcanes

Tema:Adventure Race
Autor: Marisa Abel
Data: 24/1/2006

Entre os dias 26 de janeiro e 5 de fevereiro a Equipe Trópicos participará da 6.ª edição de uma das maiores e mais complicadas provas de corridas de aventura da América Latina, o Desafio de Los Volcanes 2006. Serão 500 km a percorrer entre a cidade de Valdivia, litoral Chileno, com largada no Oceano Pacífico, e a cidade de San Martin de los Andes, na Patagônia Argentina.

Os atletas terão que enfrentar as modalidades mais exigentes das Corridas de Expedição: orientação, trekking, canoagem em caiaques oceânicos, mountain biking, técnicas verticais com mais de 3 km de cordas fixas, travessia de glaciar e neve, natação, costeira e logística. Além das modalidades, em 2006 está previsto um desnível de mais de 15 mil metros de altitude.

Os brasileiros estarão em peso este ano para a 6ª edição do Desafio de Los Volcanes, e a Equipe Trópicos também estará participando desta grande aventura. Pablo Bucciarelli, 30 anos, Engenheiro de Riscos e Co-capitão da equipe nos relata como a equipe tem se preparado e quais serão as maiores dificuldades dessa aventura. Confira a entrevista exclusiva que fizemos com Pablo Bucciarelli, Co-capitão da Equipe:


360 Graus - Cruzar a Cordilheira dos Andes, na Patagônia sempre foi um grande desafio para o homem, como a equipe tem se preparado para enfrentar o frio, a neve e os obstáculos do percurso?

Pablo Bucciarelli Nossa preparação passa por várias etapas, desde os treinamentos físicos, incluindo mountain biking, canoagem, corrida, natação e musculação, mantendo uma dieta adequada para o ganho de massa muscular de acordo com os nossos objetivos, sem excessos, pois trata-se de uma modalidade que prima pela resistência. Temos ainda que nos concentrar no quesito uniformes e equipamentos, pois serão eles que nos proverão segurança e conforto num ambiente inóspito e diferente do que estamos habituados, como a Patagônia. A Kailash e a Timberland estão nos dando total suporte para enfrentar os dias de prova. E a questão psicológica é trabalhada no dia-a-dia, com leituras específicas, as nossas conversas, detalhes de logísticas que podem nos dar alguma vantagem em relação aos nossos adversários, tudo visando um conforto espiritual e psicológico. Assim, podemos chegar no dia da largada com a sensação de que está tudo pronto e temos pela frente apenas mais uma Corrida de Aventura.

360 Graus - Qual o maior dificuldade da "Rota dos Vulcões"?

Pablo- O desnível, a variação térmica que pode oscilar entre 35ºC e -10ºC com ventos de até 100 km/h, levando a sensação térmica a terríveis -30ºC, e a vegetação, que em certos trechos possui florestas de bambus. Ano passado, na edição de 2005, um bambu tocou no meu olho aberto, e tive que aguentar 20 horas até uma área com assistência médica. O colírio me salvou, e a sorte também, pois não houve rompimento da retina.

360 Graus - Essa é a sexta edição desta corrida de aventura, que conta com aproximadamente 50 equipes participando, qual é a expectativa da Trópicos?

Pablo- Nossa expectativa é positiva. Sabemos do nosso potencial, e vamos em busca do melhor resultado para o Brasil. Costumamos dizer que terminar o Desafio já é uma vitória. Ficar entre os melhores seria uma glória. Mas, vencer o Desafio é como tocar o céu com as mãos. Em 2001, o Luiz Antônio, nosso navegador conquistou o 4.º lugar. Esse ano vamos no limite, buscar o melhor que pudermos.

360 Graus - Serão onze dias de disputas, como funciona o preparo físico e mental?

Pablo- Na verdade, de prova, serão entre 4 e 6 dias. Temos antes de cada competição a parte de conferência de equipamentos, documentação e habilidades. Somos atletas vividos e experientes, então a emoção fica muito mais no íntimo de cada um, e focamos na logística, no preparo das mochilas e alimentos, e principalmente dos mapas. Durante a prova, sabemos admirar a natureza sem perder a concentração na corrida, já que não se trata de turismo e sim de uma disputa dura, onde não há margem para erros. Sua vida está em jogo, temos muita coisa para controlar: alimentação, hidratação, sono, orientação, estratégia, performance, peso, intempéries, etc.

A mente fica tão ocupada que os dias passam como se fosse horas, e na verdade serão horas, cerca de 80 a 100 horas de corrida ininterruptas.

Costumo falar que nos preparamos a vida inteira para isso, pois numa corrida desse gênero usamos muito da nossa personalidade, formação, religião, caráter, e somos testados no extremo e no íntimo. Se você não é capaz de lidar com as emoções e viver em grupo, não será capaz de chegar ao fim de uma prova dessa grandeza.

360 Graus - De todas a modalidades que farão parte do percurso, entre trekking, mountain biking, canoagem, técnicas verticais, orientação dentre outras, qual a equipe julga ser as que terão maiores dificuldades e facilidades?

Pablo- Penso que a dificuldade está sempre presente, pois é uma prova para "gente grande". Serão 500 km, e esperamos enfrentar nesse percurso cerca de 230 km de bike, 160 km de canoagem, 110 de trekking e uma orientação baseadas em cartas topográficas desatualizadas, onde a experiência da equipe em orientação contará muito.

Realmente, vamos pensar a prova de PC a PC, tendo a visão do todo, mas concentrando as ações para a busca de cada PC. Assim, teremos mais chance de sair bem sucedidos.

Fisicamente, estamos preparados para todo o tipo de situação, dada nossa experiência física passada, e os treinamentos focados ministrados pelo preparador físico André Zacharias da Move Assessoria Esportiva.

360 Graus - Essa é a quinta viajem para uma competição internacional da equipe. Como o relacionamento anterior ajuda na hora das disputas?

Pablo- Na verdade, essa é uma formação singular, especialmente formada para a 6.ª edição do Desafio. Porém, existe entre os atletas respeito e admiração mútua. Todos possuem um histórico de anos no esporte, além dos resultados. Mas, o que mais estabelece o equilíbrio natural nesse grupo é o padrão de personalidade dos atletas e assistentes. Um amigo da equipe, também atleta, disse "só tem sangue bom na equipe". E acho que esse é o caminho para que realizemos nossa missão em 2006 na Patagônia.

O futuro será fruto do que fizermos agora somado às nossas biografias pessoais.

360 Graus - A experiência conta muito, com mais de 50 participações em corridas de aventura, especializado em trekking, natação, pólo-aquático, canoagem, mountain biking e orientação, na sua opinião, qual é o fator mais relevante para que a equipe consiga bons resultados?

Pablo- O fator "amor". Quando há amor no que se faz e união, tudo sai natural. De nada adianta ter preparo físico, dinheiro, equipamentos e roupas arrojadas, se não existe sinergia. Você pode até vencer, chegar ao topo num grupo desunido, onde o interesse material ou a glória é o maior foco. Mas, esse tipo de sucesso é construído em base frágil e dura pouco.

Na verdade, a ética esportiva ajuda a manter o atleta no topo. Assim, ele e sua equipe conquistam o carisma das pessoas e o sucesso fica a meio caminho de ser alcançado.

360 Graus - Outro membro da equipe, com vasta experiência é o Róbson Garcia de Góes, 36 anos, Oficial do Corpo de Bombeiros de São Paulo, que participou de mais de 50 corridas de aventura. Ele trabalha constantemente o corpo devido à sua profissão de bombeiro, esse conhecimento e prática ajuda de que forma a equipe?

Pablo- Na verdade sua ajuda vai muito além do corpo, ele é um líder nato. E aplica isso a cada dia salvando vidas. Imagina o grau de comprometimento de uma personalidade dessas na sua equipe. Lidar com riscos também faz parte de sua rotina e isso nos ajuda pois sabe como passar confiança. É um atleta determinado.

360 Graus - Gabriela Carvalho possui, aproximadamente, 7 anos de experiência em corridas de aventura e foi a vencedora da Expedição Mata Atlântica em 1999. Com paisagens tão diferentes é possível ter aproveitamento das experiências anteriores?

Pablo- Sem dúvida ajuda, pois os detalhes da natureza, as pequenas características, sempre estão presentes. E quando você passa por um local úmido e frio, pode ser na Serra do Mar, pode ser no Vale do Ribeira, pode ser no Vietnã ou na Patagônia, para o corpo, é quase sempre a mesma coisa. Temos nossas maneiras de nos defender das situações, visando a sobrevivência. Esse é o ponto alto da equipe, que já viveu, na pele de cada atleta, muitas situações sinistras, emoções fortes e dores inexplicáveis. A soma de tudo isso nos dá suporte para enfrentar, nos dias de hoje, qualquer adversidade.

A Gabriela é muito experiente e focada, por isso é co-capitã da equipe. Ela vive as Corridas de Aventura no seu dia-a-dia.

360 Graus - Pela quarta vez no evento, Luiz Antônio Barbosa, 37 anos, acumula experiências em corridas de aventura. O que ele pode agregar para a equipe nesta temporada?

Pablo- O Luiz Antônio é a marca da precisão. É forte, concentrado e preciso nas decisões. Os resultados respondem por ele. Sua presença no grupo está elevando a equipe ao mais alto nível no quesito orientação. Tanto o Luiz, o Góes, a Gabi e eu somos navegadores, e a equipe acaba navegando de forma mais eficiente. Apesar que teremos um navegador concentrado, todos estarão sintonizados na prova, e isso é importante numa região totalmente desconhecida.

360 Graus - Como é participar de um evento dessa magnitude?

Pablo- Estar no Desafio é como realizar um sonho, e a cada ano, sentimos uma emoção diferente, mas nunca perdemos a sensação de medo, aquele frio na barriga, pois não é uma simples corrida. Estamos partindo dia 26, quinta-feira, para a mais importante, difícil e emblemática Corrida de expedição da América Latina, uma das 5 maiores do mundo. Cruzaremos a Cordilheira dos Andes, na Patagônia, através da Rota dos Vulcões, e passaremos pela fronteira entre dois países: Chile e Argentina, em meio à selva Valdiviana, os campos da Patagônia, as montanhas de neve eterna e os cumes dos vulcões, praticando diversas modalidades, por 500 km, representando o Brasil, nossa pátria, e sabemos que esse ano, podemos mudar o rumo de nossas vidas.

Vamos na fé e que venham os vulcões.

360 Graus - Faça uma avaliação da equipe.

Pablo- A Equipe Kailash Trópicos está disposta e preparada a ganhar a prova. Sabemos das dificuldades, e que estamos sujeitos aos problemas de uma prova de aventura, mas o espírito de equipe está forte, preparado sempre para o pior e concentrado na estratégia e na performance que almejamos ter. "Nossos corpos estão fechados", e com isso vamos tentar isolar qualquer problema do nosso caminho e buscar o melhor resultado para o Brasil no evento.

Contatos

Mensagens poderão ser enviadas a equipe através do site da organização: www.desafiovolcanes.com



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