Qual a anatomia emocional da ansiedade dos nossos atletas

Autor: Vanessa Cabral

Data: 23/9/2008

As Olimpíadas de Pequim serviram de pano de fundo para o levantamento de importantes questões acerca da evolução e do desempenho dos atletas de alto nível. Tivemos a oportunidade de nos encantar com os momentos de superação e quebra de recordes; mas também sofremos com o desempenho abaixo do esperado de atletas e equipes brasileiras considerados favoritos em suas modalidades.

Muitos se perguntam: O que será que aconteceu? Por que na hora “H” deixamos ir por água abaixo o tão sonhado ouro olímpico? O que faltou para os nossos atletas? Salvo em alguns tristes casos onde realmente houve falta de sorte (como no último jogo da seleção feminina de futebol); parece que o grande vilão nas decisões em que o Brasil estava sendo representado, foi justamente a falta de domínio dos atletas sobre os seus sentimentos e emoções, ou seja, a capacidade de manter o equilíbrio emocional sob a enorme pressão que um evento olímpico por si só gera nos participantes.

Em um cenário no qual a medicina do esporte, os recursos tecnológicos, os avanços e pesquisas nos segmentos de nutrição, suplementação e capacitação física dos atletas atingiram um nível de desenvolvimento e disseminação tão elevados que o ponto crucial de diferenciação entre os competidores profissionais passa a remeter a questões emocionais, ou seja: a sua capacidade de gerenciar a ansiedade.

Este auto-controle emocional tem como principal objetivo canalizar o pulso energético para a obtenção de resultados e superação dos limites; evitando que ele se disperse ou congele as formas corporais e emocionais do atletas. Esta dispersão / paralisação pode ser percebida através da própria performance do competidor: a dificuldade de concentração; a lentidão em reagir; o desânimo e a dificuldade de criar alternativas estratégicas para virar o jogo; o surgimento de lesões são algumas conseqüências desta falta de auto-gerenciamento.

A Clínica Formativa procura entender o funcionamento somático-emocional dos atletas em diferentes situações cotidianas (durante os treinos, na sua vida pessoal, nas competições, etc). A estrutura corporal de cada indivíduo traz; em suas células, tecidos, órgãos; um funcionamento fisiológico e emocional que reflete a sua história de vida – quais formas/estruturas corporais ele apreendeu e utiliza no seu dia-a-dia para conseguir se adaptar aos desafios impostos pelo ambiente. Sabe-se que neste vasto repertório de “corpos” que desenvolvemos, existem as formas “saudáveis” – que nos permitem continuar criando, inovando, desbravando novos horizontes – e existem formas que precisamos “desaprender”, pois estas nos paralisam, impedem a nossa adaptação aos diferentes obstáculos que surgem no caminho.

Mas qual é a forma corporal da ansiedade em atletas brasileiros? Nossa cultura latina tende a gerar vínculos de dependência entre pais (cuidadores) e filhos do que nas culturas européia, norte-americana ou asiática. Esta dependência, que se arrasta pela fase adulta, muitas vezes impede o amadurecimento emocional destes jovens, afetando diretamente a sua auto-estima e a capacidade de enfrentar sozinhos os desafios inerentes ao esporte profissional.

Conseqüentemente, não somos ensinados a enfrentar e controlar a ansiedade, o medo, a frustração, a angústia – na maioria das vezes, buscamos saídas paliativas para não termos que enfrentar de frente sentimentos e emoções incômodas e desagradáveis, porém necessárias para o nosso desenvolvimento e amadurecimento. Em pesquisas recentes com atletas brasileiros, observou-se a existência de um padrão somático-emocional correlacionado às formas da ansiedade.

A figura ilustra a Anatomia Emocional da Ansiedade destes competidores em períodos pré-prova:

Observa-se que os aparelhos respiratório e digestivo são os mais afetados nestes estados de ansiedade. Por um lado, o congelamento da respiração afeta duramente a nossa capacidade de voltar ao equilíbrio, uma vez que nos impede de praticar respirações profundas, que transmitam ao corpo um novo pulsar que seja capaz de devolver o fluxo de energia às regiões congeladas. Como conseqüência, tendemos a puxar os ombros para cima (travando as costas) e encurtar a respiração, trazendo-a para a parte superior do peito (travando maxilar e jogando o queixo para frente).

Com o aumento do ciclo respiratório, a garganta tende a ficar seca e as dores de cabeça podem surgir em função da concentração do fluxo sanguíneo na parte superior do corpo. Por outro, a sensação de “buraco no estômago”, o aumento da atividade digestiva, e problemas relacionados a intestinos “soltos” remetem à sensação de vazio, desamparo e falta de controle sobre o próprio corpo. O indivíduo consciente ou inconscientemente sabe que está sem à mercê da situação, deixando abalar a sua auto-confiança. Em função da história de vida do atleta e da sua maturidade emocional, a ansiedade pode afetar duramente a sua performance.

O Terapeuta Formativo terá como missão auxiliar o atleta no processo de auto-descobrimento e reconhecimento dos estados e formas ansiosas que o prejudicam. Como essas formas e padrões aparecem e funcionam no seu corpo? Que mecanismos fisiológicos são afetados? Como esse estado somático-emocional afeta a sua capacidade de se relacionar com o time, equipe técnica, etc?

A partir desta “cartografia”, é preciso então trabalhar corporal e emocionalmente na construção de novas formas que permitam o retorno do pulso formativo para as regiões afetadas (congeladas, densificadas, infladas ou colapsadas).

Formas que potencializem força através da flexibilidade deverão ser priorizadas (o trabalho funcional é imprescindível para este público), pois estas permitem a reorganização da estrutura corporal baseada em formas e sentimentos de segurança, equilíbrio e auto-estima. Este “realinhamento” somático-emocional também terá como conseqüência direta a redução do número de lesões do atleta, uma vez que o aprofundamento do auto-conhecimento do indivíduo o leva a ser mais assertivo e consciente dos seus limites.

Ao estimular o amadurecimento dos nossos atletas, estes desenvolverão estruturas corporais e emocionais com maior grau de independência e segurança. Estes novos corpos serão capazes de suportar as pressões dos ambientes competitivos internacionais, e os atletas habitantes destas novas formas terão desenvolvido mecanismos que permitirão a transformação dos estados ansiosos em capacidade de concentração, realização, superação e resultados.

Vanessa Cabral é Psicóloga e Terapeuta Corporal
Atendimentos em São Paulo (Vila Madalena) e São José dos Campos (Vila Ema)
Contato: anamitra@anamitra.com.br
(CRP 06/89659)

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