Amyr Klink está pronto para outra

24/3/99 - Depois de 141 de viagem, Amyr Klink ancorou Domingo (21/3), 8h54, na praia de Jurimirim, em Paraty (RJ), mesmo lugar de onde partiu em 31/10/98, iniciando seu mais audacioso desafio: o projeto Antártica 360º - a primeira circunavegação em solitário do Continente Antártico, realizada em 79 dias. Após emocionado encontro com sua família e um breve café da manhã, Amyr seguiu com seu veleiro Paratii para o Casarão do Engenho da Boa Vista, para um encontro informal com a imprensa e amigos que o aguardavam.

Muito contente e esbanjando disposição, Amyr Klink afirmou estar pronto para outra. "Se tudo estivesse pronto, em 20 dias estaria disposto a viajar de novo. Talvez 15 dias fossem suficientes. Estou bem fisicamente e psicologicamente completamente recuperado. Vou gastar esta semana em Paraty para depois dar prosseguimento ao próximo projeto", disse. Mas Amyr Klink garante: viagens polares em solitário, não mais. "Não pretendo mais viajar para a Antártica sozinho. Gastei minha cota de sorte e anjos da guarda. A próxima vez será com tripulação. Pretendo continuar viajando em solitário, talvez fazer uma outra volta ao mundo sozinho, mas não em navegação polar". A seguir, alguns trechos da entrevista concedida por Amyr Klink:

O retorno

"A vinda para cá foi um pouco difícil. Sai da Georgia do Sul com 65 nós de vento. Já tinha pego vento ruim muitas vezes, mas esta volta aqui, talvez por causa da ansiedade e velocidade que imprimi no barco, deu alguns problemas. Tive até a âncora arrancada da proa. Mas ganhei tempo, vim em menos de 14 dias da Convergência Antártica para cá. Um tempo bastante rápido para um barco que não é de regata. E o Paratii fez um tempo que muito barco de regata não faz".

"Sempre fiquei intrigado para entender porque esses veleiros de volta ao mundo, maravilhosos, de milhões de dólares e patrocinadores exuberantes na Europa, que andam a 20/25 nós, na volta ao mundo fazem média de 6/7 nós. Mas hoje sei. Eles têm diversas razões para tirar o pé. O risco é brutal e não há como administrar essa cota de risco quando se navega em águas infestadas com pedaços de gelo. Estou contente por contar com patrocínio de um banco – Bradesco - e uma companhia de seguros – Bradesco Seguros Náuticos.

O Paratii fez média de 7,2 milhas, excelente média de volta ao mundo, equivalente a barcos puro-sangue de regata. E o Paratii é quase um caminhão !!! Esperava fazer o 360º em 95/97 dias e fiz em 88, incluindo 11 dias de parada na Antártica. Tirando essas escalas, daria 79 dias de navegação. Um tempo bastante bom para esse caminhão que é o Paratii."

Os riscos

" As condições de circunavegação dentro da Convergência Antártica são um fenômeno. As águas não se misturam no limite das águas geladas e isso forma um anel em torno da Antártica. Nessa região as tempestades são muito mais frequentes, as ondas muito maiores, e bastante gelo. Um lugar onde as situações de risco são muito grandes, constantemente. Não foi nenhuma proeza fazer essa viagem, só tomei um cuidado religioso."

" ..a gente tem de ficar administrando o perigo todo o tempo, não dá para relaxar. Não passei por situações dramáticas, mas não pretendo mais viajar para a Antártica sozinho. Gastei minha cota de sorte e anjos da guarda. A próxima vez será com tripulação. Pretendo continuar viajando em solitário, talvez fazer uma outra volta ao mundo sozinho, mas não em navegação polar, pois é uma coisa muito técnica. A tensão é brutal."

"No reveillon, fiquei 50 horas sem dormir durante as tempestades no sul da Austrália e algumas pessoas me perguntaram: como você agüentou ficar 50 horas no leme ? Praticamente não fiquei no leme, mas fiquei 50 horas pronto para intervir e a cada 30/40 minutos tinha que acudir o leme, quando descia onda de 20m de altura e o barco ameaçava perder o controle. Se perder o controle, acabou a festa."

O mastro

" Estou muito contente com o sucesso desse mastro. O Paratii é uma plataforma confiável. Um super barco, um super casco. Mas não sabia nada sobre essa mastreação e a idéia é genial. No Brasil percebo que ninguém acha nada de especial no Paratii, mas reparei quanto o Paratii chama a atenção do pessoal lá fora. Os gringos ficaram alucinados com esse sistema de mastro auto-portante , rotativo; ... o conceito é muito ousado só que ninguém tinha testado esse negócio. Estou contente porque ele funcionou redondo e essa opção foi um sucesso."

Navegação em solitário

" Gosto da navegação em solitário pelo lado técnico. As provas oceânicas são muito bonitas. Primeiro porque não são feitas por filhinhos de papai. Na França, quem tem competência para comandar um barco pelos oceanos do planeta, tem esse barco. As empresas têm o maior orgulho em financiar a construção desses barcos. E a vela passou a ser um esporte popular. As pessoas no metrô, os funcionários nas usinas, nas minas, acompanham essas provas. E por alguma razão os franceses se especializaram nas provas em solitário. Sempre fui fascinado por isso e fiz essa opção não porque não tenha encontrado parceiros para navegar ou tenha dificuldade de relacionamento."

Tecnologia

"Tive o privilégio de viver o fim de uma época com o celular global Iridium. As facilidades tecnológicas não tiram o risco, o perigo, não resolvem problema de solidão e saudade da família. Mas essa é uma revolução fantástica e inteligente. A nossa comunicação era meio burra. De repente estamos na era celular, e a comunicação de local vira global. É uma mudança muito forte. Tenho certeza que todos os barcos vão optar por esse tipo de comunicação. O Iridium ajudou muito porque é muito bacana conversar com os amigos. O que mais me impressionou foi o pager, por onde recebia diariamente os boletins meteorológicos da Marina."

" O mastro eliminou todas as ferragens do convés, o telefone Iridium e outros equipamentos eliminaram 1.100 quilos no Paratii. Esse mastro pertence a uma patente inglesa. O proprietário dessa patente, digamos que não é um homem de negócios muito dinâmico e está um pouco deslumbrado com a fama súbita. Nesse momento, está nas estrelas. Mas infelizmente ainda é um equipamento caro. O que conseguimos mostrar é que para um projeto orientado desde o início visando essa solução, embora esse mastro custe 10 vezes mais do que o convencional, elimina uma série de outros equipamentos no barco e o custo final em alguns casos chega a ser menor. No caso do Paratii, fizemos algumas mudanças e economicamente isso não é muito sensato para um barco que já existe. Mas para quem for construir, na medida em que a fibra de carbono se transformar num produto de série, sem dúvida vai ficar possível."

Cota de sorte

" Tinha prometido que não ia falar sobre isso enquanto não pusesse os pés no Brasil, mas esgotei minha cota de sorte nessa viagem. Um dia, não acordei com o despertador. Estava com o radar ligado, quando acordei assustado, tinha passado mais de 40 minutos do horário que deveria acordar. Pulei de turno. Pensei, não tem problema, não tem tanto gelo aqui. Até que olhei para trás e vi um iceberg enorme, exatamente na popa do Paratii, atrás do barco. Pela direção que vinha fazendo devo ter passado no meio dele. Era uma parede de 40 metros de altura por cerca de 1 km de comprimento e eu andava a 9 nós. Até hoje não sei se foi meu anjo da guarda que levantou o Paratii e desviou do gelo. Aquilo me deixou em pânico, fiquei uma semana sem comer de tão nervoso. Sabe quando você sente que foi escolhido pela roleta... Um pedaço de gelo do tamanho de um fogão afunda um veleiro."

"Durante todo o percurso, fiz duas paradas. Na Baía Dorian, que era meu objetivo, e outra parada muito complexa na Base Brasileira Comandante Ferraz. Não queria fazer essa escala, mas cedi por causa do carinho do pessoal de lá. Acabou sendo uma parada infernal, porque a Baía do Almirantado, onde está a base brasileira, não é feita para veleiros, pois é uma região mais exposta ao Drake. E aconteceu o que temia. Peguei 3 dias de ventos catabáticos e numa noite ancorei o Paratii 14 vezes."

Numa outra, o barco escapou da âncora e foi embora. Acho que foi o pior momento da viagem. Estava almoçando na Base, meio nervoso porque o vento estava forte e de repente alguém gritou: alerta, alerta, o Paratii está indo embora. O perfil deste mastro é perfil asa e com 50 nós de vento ele veleja. O barco estava indo para alto mar. Aí pude ver a qualidade do pessoal que trabalha na Base Brasileira. Eles têm sangue na veia. Uma calma e auto controle, que eu não teria. Pegamos o Paratii longe e numa situação muito crítica, porque estávamos todos molhados, com risco de hipotermia,, e o bote inflável avariado.

Meg Cotrim é jornalista e assessora de imprensa do projeto Antártica 360.


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