Amyr Klink contou tudo sobre a primeira grande viagem do Paratii2

Tema:Amyr Klink
Autor: Redação 360 Graus
Data: 7/4/2002

Entrevista realizada com Amyr Klink e equipe na Marina da Glória - Rio de Janeiro - 7/04/2002

A VIAGEM:

Foi meu sexto verão na Antártica e, olhando de fora, parece que é fácil. Mas não é. Encontramos muitas dificuldades, o que fez da viagem um teste especial. Para começar, saímos do Brasil em fevereiro, quando todo mundo já está voltando da Antártica. Foi a primeira vez em muito tempo que não houve verão por lá e as condições climáticas e de mar foram rigorosíssimas, o que proporcionou um excelente teste para o Paratii 2.

Tinha muito gelo, muito vento. Chegamos a velejar a 12 nós com visibilidade zero. Se alguma coisa falhasse perderia não só o barco e dez anos de trabalho, mas também os amigos. Entramos em áreas não cartografadas. Atracamos o barco em pedaços de gelo e descemeos como se estivéssemos na Marina da Glória. O Paratii 2 é perigoso: ele é um barco tão bom que parece que tudo é fácil. Talvez por isso a tripulação não tenha consciência das dificuldades que passamos. Mas sou cuidadoso, sei controlar até onde devo ir.

RIO DE JANEIRO:

Esta foi a primeira vez que cheguei de viagem no Rio de Janeiro. Nós, paulistas, sempre pegamos no pé dos cariocas mas uma coisa admito: foi um prazer entrar no Brasil pelo Rio. É a cidade mais espetacular do planeta.

TENSÃO:

Depois de tanto tempo no mar, a gente quer descarregar. Não sou de beber, mas ontem (sábado) queria ter tomado um porre. Só não enchi a cara porque a Marina e as crianças estavam aqui.

VIAGEM À CHINA:

Em outubro pretendo iniciar a segunda etapa da Viagem à China, que é fazer um novo contorno da Antártica dentro da convergência antártica. O único barco que fez isso até hoje foi o Paratizinho, há três anos. Mas durante três dias não consegui me manter dentro da convergência antártica e acho que, hoje, o único barco no mundo pronto para fazer isso sem transformar a viagem numa aventura é o Paratii 2. É uma região de ondas gigantes, de 25, 30 metros. Não existem imagens dessas ondulações monumentais e quero registrá-las. Esta segunda fase deverá durar 60 dias. Depois, em maio, deveremos começar a subida rumo ao Ártico para chegar à China.

VOLTA PARA CASA:

Há oito dias estávamos na convergência Antártica. Chegávamos a pegar 10 horas de escuridão total durante o dia, com visibilidade zero, ventos, ondas fortes. Mudar o ambiente radicalmente em uma semana é um privilégio e devemos isso ao Paratii 2. Ele tem uma velocidade impressionante.

PARATII 2:

É uma máquina bonita. Não sou ufanista, mas dá um orgulho tremendo dizer que o projeto do Paratii é 100% brasileiro. Estive em contato com grandes barcos polares na Antártica, com grandes personalidades do mundo náutico, e todos ficaram impressionados em ver um barco como o Paratii 2 e saber que ele é brasileiro.

Há um certo desdém em relação ao que vem da América do Sul. Pretendo usá-lo para charters científicos, pois ele vai tão longe quanto os grandes quebra-gelos e tem custo baixo. É um barco ousado e me senti orgulhoso do reconhecimento dos navegadores que operam na Antártica neste verão. Minha tias acham que perdi um parafuso, que tenho relações sexuais com pinguins e focas. Mas não é nada disso. Gosto do desafio de encontrar soluções simples para as coisas.

CONSTRUÇÃO DO BARCO:

Com a experiência que tenho, podia ficar fazendo o feijão com arroz e botar dinheiro no bolso. Podia usar as palestras para engordar minha conta. Mas enterrei todos os centavos que ganhei com as palestras no Paratii 2 e não me arrependo nada. Dei quase 1200 palestras e 70% do barco foi pago com dinheiro delas. Foi um projeto de quase dez anos e agora dá para mostrar o resultado. Se, no começo, tivesse aparecido um Cristo para financiar o Paratii 2, com certeza ele seria uma porcaria. As dificuldades me permitiram fazer bom uso dos recursos.

PARCEIROS:

Briguei para ter alguns parceiros juntos comigo, como a Petrobras. Não pelo dinheiro, mas porque acredito no que eles fazem. As pessoas querem ver os problemas da Petrobras como petroleira e não olham para o mérito da empresa, com alta tecnologia toda nacional. Não busquei apenas patrocinadores, procurei envolver as empresas de corpo e alma. Como foi o caso também da cordoaria São Leopoldo, que faz cabos espetaculares e a Embraco, que desenvolveu uma geladeira super econômica para o Paratii 2 (mas que consome 6 ampéres e quero que ela consuma apenas 2,5 ampéres).

TRIPULAÇÃO:

Eles sofreram mais do que eu. Talvez o Paratii 2 tenha levado à Antártica a menor tripulação este ano. Mas foi uma equipe excepcional. Às vezes chamam o Fabio de médico, o Zezinho de cozinheiro e o Marcão de mecânico. Mas o Fabio é um comandante que é médico, o Zezinho é um comandante que cozinha e o Marcão é um comandante que é mecânico. São excepcionais. Pretendo que eles continuem comigo nas demais etapas da Viagem à China.

SOLITÁRIO:

Gosto de navegar em solitário e vou continuar velejando sozinho. É um exercício bonito, que requer mais planejamento. Mas também gosto de estar acompanhado. Marina, minha mulher, veleja melhor do que eu. Sempre saímos juntos.

O PRINCÍPIO:

Comecei a velejar aos 30 anos (hoje Amyr tem 47), por intermédio dos livros. Tinha medo do mar. Marina, minha mulher, é mais nova que eu e veleja a mais tempo. Entrei velho nessa história.

TECNOLOGIAS:

O Paratii 2 foi inspirado no Antartica, do Peter Blake. Mas o veleiro dele é complicado. Já o Paratii 2 não tem chumbo, não tem lastro. Tem uma quilha retrátil que nos permite ir aonde nenhum outro veleiro chega. Há cinco dias perdi o leme principal. 99% dos barcos teriam ligado o rádio na freqüencia de socorro para pedir reboque. Pois voltamos para casa com os dois lemes seundários maravilhosamente bem.

ANTÁRTICA:

A Antártica virou um foco de atenção de todo o mundo. Embora pareça distante, o que acontece lá afeta diretamente o Hemisfério Sul. Há discussões ambientais importantíssimas. O problema do buraco na camada de ozônio existe e deve ser considerado. Esse verão, em especial, foi ruim para a fauna de lá, sobretudo para as aves. Todos os filhotes de pinguins morrerão por causa do frio e, por conta disso, haverá um decréscimo na população de pinguins. São coisas da natureza.

VOLVO OCEAN RACE:

Fiquei feliz em ver a Volvo voltando ao Brasil este ano. Sei que muitos não vão concordar com o que eu vou dizer, mas o Brasil foi banido das regatas mundiais de oceano por sua própria culpa. Nos anos 70/80, a Volvo ainda era chamada de Withbread e chegou ao Iate Clube do Rio. Com a hospitalidade característica do brasileiro, foi organizada uma festa. O Iate é um clube muito bonito para seus sócios, mas não é o lugar ideal para receber uma regata. Os franceses, descontraídos, andavam de chinelos e camiseta no meio daquela gente arrumada na festa. Um dos velejadores, para descontrair depois de tanto tempo no mar, jogou um senhor na piscina durante a recepção: era o Comodoro do Iate. Nunca mais a Withbread veio para cá.

Fiquei contente com a volta, embora ache que Salvador está mais bem preparada do que o Rio de Janeiro. O Brasil tem excelentes velejadores para participar da Volvo, tem tecnologia sobrando para projetar barcos. Mas não vejo no pais nenhuma empresa disposta a gastar US$ 15 milhões em uma porcaria de plástico, um barco para usar uma vez e jogar fora. Os barcos da Volvo são brinquedos de menino rico, assim como a Formula 1. O bom de uma regata e de uma corrida como a F1 no Brasil é que, atrás deles, vem todo um circo, o que é bom para a economia e para o turismo. A Volvo Ocean Race é um mega evento e, na verdade, não se pode nunca fazer o que estou fazendo: falar mal dela.



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