19 de março - Partida
Às 11 horas da manhã foram feitos os trâmites de praxe da imigração para a saída da Argentina e às 11:30 horas foi a vez da equipe da praticagem de Ushuaia vir a bordo do barco.
Com toda a tripulação já embarcada, soltei as amarras do veleiro: O PARATII2 partiu de Ushuaia com destino à Georgia do Sul, numa 6a.feira de muito sol, ao meio-dia. O veleiro seguiu deslizando pelo Canal Beagle. O vento estava tão tranqüilo, que às vezes nem chegava a ter forças para encher as suas velas. Todos à bordo estavam entusiasmados.
Tripulação:
Amyr Klink: Comandante
Flávio Fontes: Tripulante residente
Fabio Tozzi: Tripulante Médico
Renato Castanho: Cinegrafista Vídeo/Sub
Haroldo Palo Jr: Cinegrafista/Fotógrafo
Fabian Silbert: Cinegrafista Película
Navio Silencioso
Quando partiu de Ushuaia, o PARATII2 seguiu pelo Canal Beagle e encontrou ali, praticamente em situação de abandono, o navio porta-containeres brasileiro Neptunia Mediterrâneo. Segundo informou a equipe de Praticagem do local e a Agência Marítima TAMIC, 24 tripulantes aportaram no dia 12 de novembro, descarregaram a carga no porto e 11 pessoas permaneceram embarcadas por questões de segurança.
Para não deixar o navio desguarnecido, a marinha local obriga a permanência de umas 11 pessoas embarcadas que aguardam decisões do escritório no Brasil em situação precária: motor quebrado, sem combustível, sem comida e já sem água para beber.
18 de março – Abastecimento
Dia bastante cansativo.
O maior desgaste foi conseguir obter toda a documentação necessária para o abastecimento do barco com o óleo diesel especial PETROBRAS, vindo do Brasil.
Quando o caminhão da Dalçóquio finalmente estacionou na entrada do Porto de Ushuaia, começou a correria: Foram necessários muitos carimbos, assinaturas e comprovantes de pagamentos de taxas, o que levou o dia inteiro.
Entender como funcionam as autorizações e o correto fluxo dos documentos exige uma certa experiência e para nós, estrangeiros na Argentina, foi uma tarefa complicada: TAMIC/ Despachante Ricardo Monin/Prefeitura/ Duana/TAMIC/ DUANA...
Procuramos acelerar o máximo cada uma das etapas, nos colocando a disposição para o trânsito dos papéis: Emílio Dalçóquio, Juan Ferrone e eu. Eu até diria que certamente conseguimos em um único dia o que normalmente seria impossível.
Já estava escurecendo e chovia quando finalmente acompanhamos o abastecimento. O Emílio, pessoalmente, acompanhava a manobra.
Ao vermos um diesel tão especial completando os tanques do Paratii2, sentimos que tudo valeu a pena.
Mais tarde conseguimos ainda a autorização para que o “Gualdesi & Hermanos” descarregassem as compras de frutas, verduras e laticínios, num horário bastante fora do comum; mas com a “Duana” dentro do barco, acompanhando o embarque do combustível até o final, ficou bem mais fácil “transitarmos” as autorizações necessárias para entrada da carga no porto.
13 de março – Desembarque
Eram 11:00h de uma excepcional manhã de sol.
Conforme combinamos, estava no cais do porto de Ushuaia.
Sentei-me na ponta do cais, observando a entrada do Canal de Beagle. Vi um pequeno ponto no horizonte que aos poucos tomava forma de uma escuna de 2 mastros... inconfindível: Era o Paratii2.
Pensar no merecido curriculum conquistado por esse barco que acompanhei desde seus primeiros desenhos em 94, me trouxe uma emoção tão forte que transbordou pelos meus olhos.
- Amyr!
Estranho. Apesar de não estar embarcada, a viagem e toda a experiência de 4 meses vivendo no mar, passou pelo meu pensamento em segundos. Um oficial do porto parou ao meu lado e perguntou:
- Quien está llegando?
E eu respondi que era meu marido.
Ele seguiu:
- De donde viene?
Foi uma pergunta de difícil resposta. Não sabia o que responder. O Amyr brinca dizendo “de lugar nenhum”. Mas pensando com calma, secretamente eu acho que o Amyr vem é de “um outro planeta”.
Era meio-dia quando o Amyr me jogou o cabo de amarra e o tomei com uma imensa alegria. Pronto: Terra Firme! E muitas histórias para escutar...
Num veleiro sempre existe o desafio da rota escolhida. Principalmente num percurso de maior respeito no mundo náutico.
Durante o trajeto descobrem-se outros desafios como a distância da família e os diferentes medos de cada um.
Apesar do singular conforto do Paratii2, a violência do mar, o convívio com o mau tempo e com o constante risco de colisão com o gelo, exige sempre muita atenção para se conduzir o barco.
É mesmo difícil passar meses no mar, com temperaturas sempre negativas no rigor do clima austral. Alguns tripulantes não agüentam a intensidade do trabalho exigido no barco e desistem. Desembarcaram em Ushuaia e voltaram para o Brasil de avião o Junior, de Paraty e o Alex, de São Sebastião.
O Flávio está feliz, sempre rindo quando conta detalhes pitorescos do percurso que conheceu. Ele se apegou tanto ao barco que fala nele como uma pessoa da sua família. Disse que a melhor experiência foi ter a oportunidade de conviver com o Amyr como companheiro, compartilhar das decisões difíceis, dividir o café, e aprender tantas coisas com um grande professor.
Com muita vontade de continuar no barco, o cinegrafista Toco Lenzi e o mergulhador Lawrence Wahba retornaram a São Paulo no dia seguinte, para organizar a próxima parte da viagem que será registrada pelo Renato Castanho, também do Canal Azul. Ele será o cinegrafista que vai documentar a etapa Geórgia do Sul.
12 de março - No Cabo Horn
As condições das ondas deveriam piorar devido à entrada na plataforma continental. A profundidade no oceano varia subitamente de 3.650 metros para 106 metros.
Esta manhã conversei com o Thierry sobre a meteorologia que indicava uma mancha de bom tempo na aproximação do Cabo Horn - A previsão estava certa !
Na comunicação de hoje, a tripulação disse ter vivido um momento único:
Depois de 3 dias muita chuva e pancadaria no Drake, o sol voltou a brilhar, justamente no momento em que o barco navegava a 2 milhas do Cabo Horn. "- É impressionante a mudança de cor das águas quando se passa do Oceano Pacífico para o Atlântico" - disse o Amyr enquanto descrevia a cena. E continuou:
"- É uma imagem inesquecível... ainda temos a luz do dia. O sol está iluminando as pedras... e agora estamos com uma profundidade de 89 metros".
"- A cena está linda lá fora. Vou desligar porque quero acompanhar com os outros fora do barco. Todos estão bem. Não se esqueça de mandar abraços para os nossos amigos!"
10 de março - Águas de Março
A chuva que cai aqui no Brasil, cai lá também!
Hoje o Paratii2 navegou o dia inteiro com ventos fortes de través a chuva não deu trégua. Depois de 2 dias de Drake, parece que todos já se adaptaram ao "mais famoso balanço do mar do planeta" e passam bem.
Agora faltam 200 milhas para o Cabo Horn. Estão na 'porta do inferno', como chamavam os antigos navegadores no século passado.
No tempo previsto, o cronograma da navegação continua sendo mantido.
09 de março - A caminho do Cabo Horn
A partir de agora não existe mais o risco de gelo no mar.
O Paratii2 está a 350 milhas ao sul do Cabo Horn e nesse ritmo, ao amanhecer, já estará deixando a Convergência Antártica.
Navegando rumo ao Horn, tendo uma depressão meteorológica a oeste, o veleiro encontra vento de través com força de 50 nós e resulta numa velocidade constante de 8 nós.
Como manda a tradição, alguns integrantes da tripulação provavelmente sentirão um pouco de enjôo nesta "Travessia do Drake"- que é característico naquela posição geográfica-mas segundo as informações, até agora todos estão passando bem.
08 de março - Levantando a âncora
Apesar do mau tempo e da nevasca, com a diminuição do forte vento contrário, o Paratii2 soltou as correntes e partiu de Plennau com cautela, às 14:00horas de hoje. Com a visibilidade ruim, a saída foi tecnicamente difícil.
A tripulação conseguiu localizar e mapear na saída, 3 pedras submersas que não constavam nas cartas náuticas.
Agora, em alto-mar, o Paratii2 coberto de neve navega motorando com destino a América do Sul, numa velocidade de 7,5nós em ventos SW de 15nós.
Temperatura local: 1,5*C.
Posição atual: Latitude: 64*50S - Longitude: 64*57W
07 de março - No compasso da espera
Com a visibilidade bastante prejudicada, principalmente pela forte chuva e pela nevasca que começou na noite de ontem e continuou ao longo de todo o dia, tendo ainda fortes ventos vindos do quadrante norte, girando para leste, a decisão foi manter o Paratii2 por mais um dia na Península. Melhor aguardar o tempo melhorar. Enquanto isso, o "carneiro fueguino" assado foi o prato principal.
Em São Paulo, em compensação, o sol voltou a brilhar depois de muitos dias.
06 de março - Fazendo as malas
A comunicação estava bastante entrecortada, mas deu para entender que o dia hoje foi de arrumação a bordo.
O equipamento de mergulho foi guardado, todo o material solto foi amarrado, a ancora foi suspensa e já está presa na proa do veleiro. O Paratii2 partirá com destino a Puerto Toro amanhã no amanhecer. A saída de Plennau requer muita atenção por ser uma área com muitas pedras. Assim, é prudente navegar com cautela e na luz do dia.
Nesta época do ano, com a mudança de estação, a alvorada na Antártica começa as 3:30hs e às 5:00hs é dia claro.
O anoitecer já começa às 20:15hs, sendo que até 22:00hs ainda se tem a luz do sol. O verão já se despede. - Bom prosseguimento, Paratii2 !
05 de março - Baleias Curiosas
Novamente a América foi a responsável pelo estabelecimento do contato com o Paratii2. Através de contato via rádio, soubemos que os mergulhos diários na Península estão sendo espetaculares, o que enriquecerá o acervo de imagens desta viagem.
Hoje o cenário em Plennau Island ganhou um brilho especial com a visita de um grupo de baleias, bastante curiosas, que se aproximaram do veleiro. O Lawrence, entusiasmado, se preparou às pressas para um mergulho inédito com com elas, mas constatou o medo que elas têm de mergulhadores não permitindo sua aproximação debaixo d'água. Em compensação o registro de acasalamento das focas-leopardo ao lado do barco foi a recompensa . Este é um sinal da natureza: a temporada de verão se despede.
Amanhã o Paratii2 começará a seguir rumo à América do Sul. Não pretendendo fazer novas escalas na Península, a tripulação aguardará uma janela meteorológica favorável para cruzar o Drake.
03 de março - Mergulhos espetaculares
"Uma das maiores lições de quem fica é aprender a conviver com a ausência, e a se contentar com uma única palavra. Quem vai, respira nos oceanos a aventura da descoberta. Quem fica, aprende a emocionar com o simples."
O contato rádio de hoje foi perfeito. A América também se surpreendeu. Melhor que a qualidade da comunicação, foi saber que temporada de mergulhos em temperaturas glaciais
está espetacular. Hoje ventou bastante na Península e o bom tempo proporcionou a luz necessária para uma boa captação de imagens.
Surgiu um novo pedido, importantíssimo: cola plástica FLEXBOAT. Como o Amyr sempre diz: - "Focas-Leopardo adoram morder botes de borracha." Pelo pedido, ficou claro que elas andaram exercitando seus instintos...
Outra curiosidade: O Ernani Paciornik e a Denise Godoy, de férias Patagônia, conseguiram falar com o Paratii2. Melhor ainda, estão planejando a alteração no seu roteiro de férias para um encontro com a tripulação, quando estiverem chegando na Terra do Fogo (O que o Ernani não é capaz de fazer por um "furo" de reportagem ?!)
Um presente: No momento do desembarque do Lawrence, quando chegou à Península, o Amyr entregou no navio ORLOVA um CD com algumas fotografias que havia acabado de tirar. Ainda bastante surpresa, vendo com cuidado as imagens que acabaram de chegar, sinto intensamente que aquele lugar é mesmo "mágico" e que sentir toda essa saudade está mesmo valendo a pena.
02 de março
Com muita interferência no contato rádio, mas com a colaboração da América, o Amyr deu notícias.
Aprendemos com o tempo a nos contentar com pouco, desde que este pouco nos traga alegria.
Pelo tom de voz otimista, respondendo em ritmo bem-humorado, nosso diálogo se manteve com a boa recepção pelo Paratii2, mas aqui, sem qualidade de comunicação, chegavam somente ruídos. Com isso nos condicionamos a respostas resumidas a duas palavras: "positivo"e "negativo".
Duas palavras às vezes são suficientes para se manter a tranquilidade necessária àqueles que ficaram em terra firme.
- Estão todos bem à bordo? -"Positivo, positivo!"
- Está mantida a previsão do cronograma e haverá uma escala técnica na Argentina? - "Positivo".
No coração de quem fica, instala-se instantaneamente a sensação de conforto. Daí para frente, não importa o que se pergunte ou se responda, o que vem, é lucro.
Tarefa-automática: Telefonar para a casa de cada um dos tripulantes para dar boas notícias e em seguida, colocar estas poucas linhas no site, para aqueles que, de alguma forma, estão sonhando o nosso mesmo sonho.
25 de fevereiro - 4a. feira de cinzas
8:45h
Lat: 63'06.59,19 S
Long: 64'49.24,65 W
Acompanhando pelo rastreador de posição instalado no Paratii2, observamos esta manhã que ele se deslocou pelo Estreito de Lemaire, rumando para a Baía Dorian.
A Baía Dorian ou " O ninho do Amyr", como o meteorologista Villela costuma brincar, é um lugar de ancoragem segura -característica difícil nas regiões polares -. Dorian é bastante conhecida por Amyr que, a bordo do veleiro Paratii realizou a primeira invernagem solitária na Antártica, permanecendo ali ancorado por todo o inverno de 1990, propositalmente aprisionado no gelo.
A tripulação aguardará, no próximo dia 27, a chegada do navio ORLOVA tendo a bordo Lawrence Wahba, para mergulhos nas Ilhas Plennau.
Parte 1: A caminho da Antártica
Parte 2: A Circunavegação
Parte 3: Circunavegação concluída
Parte 4: Rumo à Geórgia do Sul