Entrevista com Betinho Schmitz, oito vezes campeão brasileiro de asa-delta

Tema:Asa-delta
Autor: Chris Bueno
Data: 16/5/2005

Ele tem 39 anos, voa desde os 15 e acumula oito títulos nacionais de asa-delta. Não é à toa que Betinho Schmitz é considerado o maior campeão brasileiro de vôo livre. Sua paixão por voar começou cedo, com apenas 11 anos, quando acompanhava seu pai quando este ia voar, e fez muitos vôos duplos até ganhar sua primeira asa-delta, aos 15 anos. Desde lá, ninguém mais segurou a fera. Hoje, o piloto gaúcho passa cerca de 350 horas por ano com sua asa-delta no ar. Tanta paixão e dedicação levaram Betinho a declarar: “já tenho asas crescendo nos meus braços!”. Nem de longe a afirmação é exagerada. Afinal, além dos títulos brasileiros, o piloto acumula vários títulos gaúchos do esporte, um título nacional de parapente (em 1997 ele se sagrou campeão brasileiro de asa-delta e de parapente), venceu uma etapa do Pré-Mundial de Parapente em 2000 e estabeleceu o recorde mundial de vôo em distância em 2001, voando 503km durante 9 horas e 45 minutos. Confira entrevista exclusiva com esse superatleta do vôo livre!

360 Graus - Para começar, conte como foi seu envolvimento com o vôo-livre e sua profissionalização como piloto de asa-delta.
Betinho Schmitz - Iniciei no vôo livre com meu pai que era piloto de asa delta desde 1977. Eu acompanhava meu pai todas as vezes que ele ir voar, eu tinha 11 anos nesta época. Você pode imaginar como foi para um menino de 11 a 14 anos acompanhar e ver seu pai voar - fiquei fissurado! Nesta época eu fazia alguns vôos de carona, vôos duplos para ir matando a vontade. Isso até os meus 15 anos, quando ganhei uma asa de presente. Daí pra frente foi só alegria: eu voava todos os finais de semana e, quando podia, voava durante a semana também. Em 1998 achei que deveria mudar o rumo da minha vida e tentar algo a mais no esporte. Então mudei para a França por dois anos, trabalhei em uma fábrica de asas-delta, e viajei muito conquistando vários títulos importantes.

360 Graus -Como é sua rotina de treinos?
Betinho Schmitz - Procuro manter um condicionamento físico aumentando o treinamento dependendo do tipo de necessidade. Minha rotina reúne trabalhos de musculação, condicionamento aeróbico e alongamento. Na parte técnica, normalmente viajo vários dias antes para o local das competições, objetivando uma “aclimatação”.

360 Graus -E no período entre competições, você continua treinando ou consegue um tempinho para descansar? O que gosta de fazer em seu tempo livre?
Betinho Schmitz - Logo após uma competição fico sem voar alguns dias mantendo somente a parte física. No verão normalmente fico mais tempo sem voar. Ultimamente estou curtindo meu filho, o Carlos Alberto (Betinho), que está com oito meses e me faz muito feliz. Procuro estar o maior tempo possível com ele e minha mulher Carolina.

360 Graus -Você pratica outros esportes além de vôo livre? Quais?
Betinho Schmitz - Já voei de parapente, já fiz mountain bike e surf, mas ultimamente estou fissurado no kitesurf.

360 Graus -Este ano você luta pelo nono título nacional de asa-delta. Como você está se preparando para enfrentar esse desafio?
Betinho Schmitz - Iniciei o circuito brasileiro ficando em segundo lugar na etapa de Governador Valadares em março. Acho que subestimei meus adversários... Pretendo estar mais bem preparado para as próximas competições.

360 Graus -Quando você começou no esporte, você imaginou que chegaria tão longe? Aliás, como foi que você conseguiu chegar tão longe, acumulando tantas conquistas, recordes e vitórias?
Betinho Schmitz - Quando eu era pequeno, sempre sonhava em ser campeão em algum esporte. Eu colecionava fotos de pranchas de surf, capte, motos e carros de corrida. Estava sempre imaginando com qual deles eu iria ser campeão. Quando conquistei meus primeiros títulos no vôo livre sabia que havia alguma coisa especial naquilo que estava fazendo, então continuei sonhando alto. Conquistei nove vezes o titulo gaúcho, algumas vezes o titulo brasileiro e achei que deveria continuar buscando mais. Em 1997 conheci a PNL (Programação Neuro Lingüística) iniciando um processo para concretização dos meus sonhos. Eu abri mão de muitas coisas e coloquei em pratica um plano para alcançar metas que eu desejava. Acho que vocês já escutaram a expressão: “você é do tamanho dos seus sonhos”.

360 Graus -Além do Campeonato Brasileiro, você também participa de muitas competições no exterior. Quais são as principais diferenças entre eventos no Brasil e no exterior?
Betinho Schmitz - Não existem muitas diferenças. As etapas do campeonato brasileiro são muito concorridas e sempre contamos com a participação de pilotos estrangeiros. Na verdade, o Brasil é muito bom para voar e o clima é excelente. O importante é competir em eventos que reúnam boas condições climáticas e alto nível técnico. Não tem graça ganhar um campeonato onde só tem piloto ruim.

360 Graus -Você já pensou em participar de competições de acrobacia aérea, como o evento italiano Acroaria?
Betinho Schmitz - Quando eu tinha uns 17 anos só queria fazer acrobacia aérea. Mas aí constatei que o vôo livre já é muito arriscado e fazer acrobacias aumentava muito mais o nível de risco. Com o passar dos anos, constatei que muitos amigos que faziam acrobacia acabavam morrendo, então resolvi ficar fora desta modalidade.

360 Graus -Você participou do projeto Hang Gliding World Record Expedition, e inclusive conseguiu estabelecer um recorde. Conte como foi o evento.
Betinho Schmitz - Na verdade eu organizei o projeto e apresentei para a Red Bull, que comprou a idéia. Preparei tudo com este objetivo, viajei para o Texas e bati o recorde mundial. Escutamos falar que o Texas era excelente para vôos de longa distância. No ano de 2000 alguns pilotos haviam efetuado vôos bem longos com excelentes médias de velocidade. Para 2001, um grupo de pilotos decidiu conferir as condições, fiquei sabendo e montei um projeto para custear as despesas para tentar bater o recorde. Então coloquei o nome do projeto de “Hang Gliding Word Recorde Expedition”. Preparei tudo, levei equipamento fotográfico, vídeo, cameraman, motorista para resgate, aluguei um ultraleve para fazer tomadas aéreas, carro etc... Trabalhei no projeto durante um ano. A parte física teve muita importância, fiz um trabalho de oito meses com um personal trainer e uma nutricionista só pra agüentar 9h45 de vôo e alcançar marca de 503 km.

360 Graus -Qual você considera sua maior conquista? Conte como foi e explique por quê.
Betinho Schmitz - Acho que a maior conquista foi aquela que reuniu o maior número de pilotos com o maior nível técnico do momento, que foi o Pre-Mundial em 2000, realizado na Espanha, quando fiquei campeão, realizando um antigo sonho.

360 Graus -Como foi sua experiência com o parapente?
Betinho Schmitz - Iniciei o parapente e gostei muito. Eu utilizava o conhecimento que tinha na asa delta e funcionava muito no parapente. Fiquei campeão gaúcho, aí achei que deveria tentar o Brasileiro, e em 1997 fui campeão Brasileiro de Asa-Delta e Parapente. Em 1998, quando fui trabalhar com asa-delta na Europa, parei de competir de parapente. Mas hoje ainda arrisco alguns “voinhos”.

360 Graus -O que você considera ser o aspecto mais difícil no vôo livre?
Betinho Schmitz - Acredito que o mais difícil no vôo livre é você evoluir no esporte respeitando os limites. Pra mim, a expressão "pushing the limits" é muito cruel.

360 Graus -Qual o seu local preferido para voar?
Betinho Schmitz - Na verdade o local ideal para voar é aquele que reúne boas condições climáticas, boa infraestrutura de hospedagem, restaurantes e os amigos. Assim, acredito que voar em Brasília, Governador Valadares, Orlando (Florida), entre outros, representa mais ou menos isso pra mim.

360 Graus -Quais são seus planos e objetivos para 2005?
Betinho Schmitz - Estou tentando o titulo nacional novamente, quero chegar a 10 - acho um bom número. Além de trabalhar no projeto de bater o recorde mundial de distância no Brasil.



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