Gustavo Selbach - campeão brasileiro de Canoagem Slalom

Tema:Canoagem
Autor: Cristina Degani
Data: 13/11/2001

Canoagem - Medalha de bronze no Mundial Júnior da Noruega<br>Foto: Arquivo Pessoal

Medalha de bronze no Mundial Júnior da Noruega
Foto: Arquivo Pessoal



Canoagem - Gustavo Selbach<br>Foto: Victory Sport

Gustavo Selbach
Foto: Victory Sport



Canoagem - Campeonato Brasileiro<br>Foto: CBCa

Campeonato Brasileiro
Foto: CBCa



Canoagem - Na etapa do Mundial de 2000, na França<br>Foto: Victory Sport

Na etapa do Mundial de 2000, na França
Foto: Victory Sport



Canoagem - Nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996<br>Foto: Arquivo Pessoal

Nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996
Foto: Arquivo Pessoal



O gaúcho Gustavo Selbach é um atleta de vitórias. Não é muito diferente de outros esportistas neste país, que tem de treinar para vencer nas provas e lutar para obter recursos e assim continuar defendendo a bandeira verde-amarela. Neste final de semana, em Três Coroas (sua cidade), no Rio Grande do Sul, Selbach conquistou mais um vez o título de campeão da Copa Brasil da Canoagem Slalom, na categoria K1. Com 27 anos, ele, como muitos canoístas, luta para defender a modalidade nos muitos campeonatos nacionais e mundiais. Já participou de duas Olimpíadas (Barcelona e Atlanta), além de ser 13 vezes campeão Brasileiro, 6 títulos no Sulamericano, 2 no Panamericano, sétima colocação no Mundial Universitário (França, 98) e medalha de bronze aos 17 anos, no Mundial Júnior, na Noruega.

Suas conquistas não se limitam aos rios. Além das vitórias nos rios turbulentos, Selbach conseguiu este ano o patrocínio da FACCAT (Faculdades de Taquara), que lhe dá ajuda financeira e bolsa-estudo no curso de Administração de Empresas. Nesta entrevista exclusiva ao 360 Graus, Gustavo fala de sua trajetória, conquistas e dificuldades, da canoagem no Brasil como esporte de competição e como turismo ecológico, de como é sua vida pessoal, sua rotina de treinamentos, a canoagem Slalom no Exterior e o que deseja ao país que defende a bandeira.


360 - O que é a canoagem para você?

Gustavo Selbach - Bem, hoje em dia vivo exclusivamente da canoagem. Por este ponto de vista, seria o meu trabalho, mas na realidade representa mais do que isto. Além de ser um trabalho é uma diversão, uma atividade agradável e relaxante. Acho que aprendi muitas coisas praticando canoagem, conheci 30 países, muitas culturas e estas coisas me fizeram crescer bastante como pessoa.

360 - Você foi sócio-fundador da ASTECA (Associação Trescoroense de Canoagem). Quando você começou a remar?

Selbach - Eu comecei a praticar canoagem a convite de meu irmão, Leonardo, em março de 1986, no rio Paranhana, aqui em Três Coroas. Foi ele quem me inspirou a fazer canoagem e vale lembrar que eu e ele participamos dos Jogos Olímpicos de Barcelona e Atlanta. Quando começamos na canoagem só existiam caiaques, nem imaginávamos que existissem as canoas. Então, as minhas primeiras remadas foram com um caiaque de que todos chamavam de “surfinho”, porque era um caiaque para pegar ondas.

360 - Você já remou em canoa? Qual a diferença?

Selbach - Quando viajamos para a Europa pela primeira vez, meu irmão trouxe de lá uma canoa. Tentei remar com ela, mas achei muito difícil, e como ele já havia optado pela C1, achei melhor ficar no K1 para evitar uma rivalidade muito grande. Na canoa (C1), o atleta fica ajoelhado e usa um remo de uma pá só, além de ter, como característica, a grande opção de manobras. Já no caiaque (K1), ele vai sentado com as pernas para frente e usa um remo de duas pás que o torna mais veloz que a C1, porem não é tão manobrável.

360 - Por que você escolheu a modalidade Slalom para competição?

Selbach - Antes experimentei até a canoagem de velocidade, mas como nosso rio tem pouca água parada, tive de escolher entre a Descida e o Slalom. Achei a segunda opção mais interessante e difícil. Quando você faz uma competição de Descida, o objetivo é descer o rio o mais rápido possível. Já no Slalom, é preciso saber usar a água para ter uma boa navegação e muita precisão.

360 - Qual foi sua primeira vitória?

Selbach - Comecei a treinar bastante em 1989. Naquele ano, venci o Campeonato Brasileiro na minha categoria e no geral. Treinei para aquela prova pensando em obter um bom resultado e foi exatamente o que aconteceu. Fiquei muito contente, mas para mim não foi surpresa. Todos os meus amigos, familiares e conhecidos ficaram felizes pela minha conquista, fato que me deu mais energia para tudo o que viria pela frente.

360 - Qual foi o momento que mais marcou você no esporte?

Selbach - Não sei, acho que todas as conquistas foram difíceis, todas têm grande importância, mas a que mais me marcou foi o 3º lugar no Mundial Júnior de 1992, na Noruega. Foi realmente uma prova muito difícil e eu não imaginava que poderia subir no pódium.

360 – O que foi mais difícil na sua carreira?

Selbach - Foi o Mundial de Três Coroas, em 1997. Trabalhei muito para ter um bom resultado, mas no dia da competição andei muito abaixo do que poderia, me senti muito cansado, acho que havia treinado muito.

Bastidores

360 - E o treinamento de um atleta, como fica?

Selbach - Hoje em dia, a rotina de treinamento é bastante pesada. São 10 a 13 sessões de treinamento por semana. Fazemos praticamente de tudo. São sessões de musculação, alongamento, corridas, mountain bike, natação, yôga, e lógico, muito treinamento de canoagem. Trabalhamos por ciclo: 3 semanas de treinamento forte e 1 semana leve para recuperar. Todo esse trabalho é planejado pelo Alain Jourdant, francês contratado pela Confederação como nosso técnico.

360 - Então você não se diverte? Há algum tempo para relaxamento?

Selbach - Não é bem assim. Quando você faz um trabalho de alto nível, eu diria que é necessário um dia de descontração, de diversão, mas dentro de um limite que não vai prejudicar o rendimento. Geralmente o dia de descanso é no domingo, então não há problema algum em sair sábado à noite. Gosto de brincar com o meu filho, escutar música, jogar futebol, ficar com minha família.

360 - Como está o lado estudante do atleta Selbach, depois que ganhou a bolsa na FACCAT?

Selbach - Realmente foi muito bom voltar a estudar, isso é fundamental para você ter outra perspectiva de vida no futuro, afinal a vida de atleta não dura para sempre. Estou retomando os estudos aos poucos, porque preciso conciliar a vida de atleta, de universitário e de pai de família, e isto exige algum tempo para se adaptar.

Natureza

360 - O esporte canoagem é uma forma de conhecer a natureza?

Selbach - Acho que de certa forma sim, mas as pessoas buscam mais os passeios de rafting e duck (tipo de embarcação que se assemelha a um caiaque inflável) que pode ser encontrado em diversos lugares do Brasil, principalmente em rios de corredeiras com grau de dificuldade médio.

360 - Por quê?

Selbach - Porque a canoagem em corredeiras exige certa experiência. Então as pessoas inexperientes fazem passeios em rios de águas calmas, lagos e barragens. As pessoas que preferem descer corredeiras e não possuem experiência na canoagem buscam mais o rafting, que não exige tanta preparação.

360 - Quais os lugares mais belos para você?

Selbach - Estive há pouco tempo atrás em Jaciara, no Mato Grosso, e achei muito bonito, um rio de água limpa e cristalina, poços de água quente que saem do solo, nunca tinha visto lugar igual. No exterior, achei a Noruega muito interessante. Muitos lagos, muitas florestas e o céu sempre claro, sem falar na beleza do rio de água transparente.

Futuro nos rios

360 - Três Coroas, sua cidade, é apontada como o berço dos canoístas de Slalom. Por quê?

Selbach - Porque a cidade teve representantes nas três últimas Olimpíadas, realizamos o Campeonato Mundial em 1997, temos uma boa estrutura para realizar treinamentos, e também temos uma associação muito forte e bastante respeitada. Estes são alguns bons motivos. Em 2001, conquistamos vários títulos nacionais: Cássio Petry, na C1, Tiago Linke, na K1 Júnior, e eu, na K1 Sênior, além de vencermos a prova por equipes. Acredito que, no futuro, teremos canoístas ainda melhores aqui em Três Coroas.

360 - Como é a canoagem no Exterior? Quais os melhores canoístas em sua opinião?

Selbach - Está muito forte. Na Europa, os canoístas participam de diversas competições, criando um intercâmbio muito grande e fazendo com que o nível cresça rapidamente. Para mim os melhores atletas no caiaque são Paul Ratcliffe (Inglaterra), Scott Shipley (Estados Unidos) e Tomas Schmidt (Alemanha). Os outros 20 primeiros do ranking mundial estão no mesmo nível. O que diferencia o resultado é a motivação e a concentração, a capacidade técnica é praticamente a mesma. Eu diria que temos capacidade de chegar entre os 20 melhores.

360 - E seus planos futuros na profissão?

Selbach - Vou seguir treinando visando os Jogos de Atenas, mas, lógico, vai depender das condições que terei até 2004. Tenho como objetivo de subir muitos degraus e vou fazer o máximo para chegar ao topo do ranking mundial.

360 - Gustavo, se você pudesse mudar alguma coisa no país, o que mudaria?

Selbach - Gostaria de menos desigualdade social, menos violência, políticos que trabalhem com transparência para o povo e que protejam nossas riquezas naturais, que são os rios, florestas e mares.



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