Mochila nas costas, equipamentos checados e um grupo de cinco
deficientes visuais partiu, no início de 2004, para descidas de cachoeiras
através de rapel e caminhadas nas trilhas com obstáculos na Fazenda Pavuna,
em Botucatu, no interior de São Paulo. A palavra superação define bem a
“aventura dos sentidos” vivida pelo grupo de cegos na prática do canyoning –
esporte que tem por objetivo a exploração dos leitos do rio. “Foi um
encontro com a natureza. Difícil esquecer as sensações de liberdade”, lembra
Devanir de Lima. Aos 33 anos de idade ele não se recorda de ter
experimentado emoção semelhante e acredita que a experiência o levou,
inclusive, a melhorar a sua locomoção no dia-a-dia.
A ousadia de apresentar o esporte aos deficientes partiu do professor de
Educação Física, Artur de Carvalho, que expôs o tema em sua dissertação de
mestrado “Esportes na Natureza: Estratégias de Ensino do Canionismo para
Pessoas com Deficiência Visual”. No trabalho, apresentado em fevereiro, na
Faculdade de Educação Física da Unicamp, Carvalho relata a metodologia
desenvolvida para atender esse segmento da sociedade muitas vezes
discriminado neste tipo de atividade. Apaixonado por esportes de aventura, o
estudante de pós-graduação não mediu esforços para montar um grupo que
permitisse comprovar a sua teoria de que é possível superar barreiras. No
grupo havia senhora de 50 anos e garoto de 15, todos com o mesmo alvo:
diversão e superação de limites.
Durante dois anos e meio de pesquisa com base em várias atividades de campo
na estruturação do método, Carvalho realizou uma verdadeira rotina de
exercícios físicos e treinamento em locais na região de Campinas,
inicialmente com 18 deficientes. “Fizemos uma descida de rapel na Rodovia
dos Bandeirantes em Campinas. Foi emocionante”, afirma o estudante. No
treinamento, os voluntários puderam ter noções de segurança e utilizar os
equipamentos de forma adequada. Também foi feita uma maquete do cânion da
Pavuna – última atividade do grupo dentro da pesquisa onde foi realizada a
prática completa do canyoning – para que, através do tato, os deficientes
pudessem conhecer o local que seria percorrido em Botucatu. “Em cada fase do
projeto eles tinham a oportunidade de uma vivência tática”, explica o
monitor. Depois de realizado o período de treinos, Carvalho selecionou
apenas cinco dos voluntários, a partir de critérios específicos, para a
aventura “real”.
O percurso
Todo o trabalho que antecedeu o trajeto em Botucatu foi
essencial para que a experiência fosse coroada de sucesso. No período de
treinamento, também foi possível desenvolver um bastão guia de bambu com
aproximadamente dois metros de comprimento que durante o percurso foi
utilizado como uma espécie de corrimão. “Quando atravessamos o rio, por
exemplo, foi importante o bastão para que os cegos pudessem se sentir mais
seguros”, explica.
Outra preocupação do grupo de monitores que acompanhou os deficientes foi
transportar o mínimo de equipamentos possível para que o peso não
atrapalhasse o trajeto. Também era necessário que o equipamento fosse
dispensado caso fosse impecilho para a travessia com segurança. Com todas
essas precauções, a viagem foi bastante tranqüila. “Ao todo estávamos em
aproximadamente 50 pessoas e não tivemos nenhum tipo de problema”, comemora
Carvalho. Ele constatou que os deficientes não se sentem tão inseguros
quanto uma pessoa com visão normal na prática desse tipo de aventura. Mas
assegura que os cegos tiveram o mesmo tratamento dado às pessoas que
praticam o esporte. “Não houve proteção exagerada para que eles não
perdessem o sentido da aventura. Muitos caíam e depois levantavam”, garante.





