Pesquisa apresenta natureza e esportes de aventura para deficientes visuais

Tema:canyoning
Autor: Redação 360 Graus
Data: 30/3/2005

Mochila nas costas, equipamentos checados e um grupo de cinco deficientes visuais partiu, no início de 2004, para descidas de cachoeiras através de rapel e caminhadas nas trilhas com obstáculos na Fazenda Pavuna, em Botucatu, no interior de São Paulo. A palavra superação define bem a “aventura dos sentidos” vivida pelo grupo de cegos na prática do canyoning – esporte que tem por objetivo a exploração dos leitos do rio. “Foi um encontro com a natureza. Difícil esquecer as sensações de liberdade”, lembra Devanir de Lima. Aos 33 anos de idade ele não se recorda de ter experimentado emoção semelhante e acredita que a experiência o levou, inclusive, a melhorar a sua locomoção no dia-a-dia.

A ousadia de apresentar o esporte aos deficientes partiu do professor de Educação Física, Artur de Carvalho, que expôs o tema em sua dissertação de mestrado “Esportes na Natureza: Estratégias de Ensino do Canionismo para Pessoas com Deficiência Visual”. No trabalho, apresentado em fevereiro, na Faculdade de Educação Física da Unicamp, Carvalho relata a metodologia desenvolvida para atender esse segmento da sociedade muitas vezes discriminado neste tipo de atividade. Apaixonado por esportes de aventura, o estudante de pós-graduação não mediu esforços para montar um grupo que permitisse comprovar a sua teoria de que é possível superar barreiras. No grupo havia senhora de 50 anos e garoto de 15, todos com o mesmo alvo: diversão e superação de limites.

Durante dois anos e meio de pesquisa com base em várias atividades de campo na estruturação do método, Carvalho realizou uma verdadeira rotina de exercícios físicos e treinamento em locais na região de Campinas, inicialmente com 18 deficientes. “Fizemos uma descida de rapel na Rodovia dos Bandeirantes em Campinas. Foi emocionante”, afirma o estudante. No treinamento, os voluntários puderam ter noções de segurança e utilizar os equipamentos de forma adequada. Também foi feita uma maquete do cânion da Pavuna – última atividade do grupo dentro da pesquisa onde foi realizada a prática completa do canyoning – para que, através do tato, os deficientes pudessem conhecer o local que seria percorrido em Botucatu. “Em cada fase do projeto eles tinham a oportunidade de uma vivência tática”, explica o monitor. Depois de realizado o período de treinos, Carvalho selecionou apenas cinco dos voluntários, a partir de critérios específicos, para a aventura “real”.

O percurso
Todo o trabalho que antecedeu o trajeto em Botucatu foi essencial para que a experiência fosse coroada de sucesso. No período de treinamento, também foi possível desenvolver um bastão guia de bambu com aproximadamente dois metros de comprimento que durante o percurso foi utilizado como uma espécie de corrimão. “Quando atravessamos o rio, por exemplo, foi importante o bastão para que os cegos pudessem se sentir mais seguros”, explica.

Outra preocupação do grupo de monitores que acompanhou os deficientes foi transportar o mínimo de equipamentos possível para que o peso não atrapalhasse o trajeto. Também era necessário que o equipamento fosse dispensado caso fosse impecilho para a travessia com segurança. Com todas essas precauções, a viagem foi bastante tranqüila. “Ao todo estávamos em aproximadamente 50 pessoas e não tivemos nenhum tipo de problema”, comemora Carvalho. Ele constatou que os deficientes não se sentem tão inseguros quanto uma pessoa com visão normal na prática desse tipo de aventura. Mas assegura que os cegos tiveram o mesmo tratamento dado às pessoas que praticam o esporte. “Não houve proteção exagerada para que eles não perdessem o sentido da aventura. Muitos caíam e depois levantavam”, garante.



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