Esportes e meio-ambiente

Autor: Carlos Vageler

Data: 20/9/2004

Esporte, aventura e meio ambiente. Esta é a combinação perfeita para os que procuram emoções extremas sem ter que apelar para as formas mais perigosas e artificiais que existem em todos os cantos. Neste caminho encontram-se os Esportes de Aventura, que nada mais são do que uma redescoberta de esportes, técnicas e atividades praticadas por um pequeno número de pessoas até então no Brasil.

Com o aumento da oferta de equipamentos devido à abertura to­tal às importações, esportes como o montanhismo, o vôo-livre, e o mergulho, en­tre várias outras atividades, tiveram um crescimento surpreendente nos últimos dez anos. Alavancados pelo aumento na oferta dos roteiros turísticos ambientais, que ganharam força nos anos 80, muita gente começou a ter contato com atividades an­tes restritas a pequenos grupos. Os clu­bes tradicionais de montanhismo e ca­minhadas, existentes desde o início do século XX no Brasil, são bons exemplos disto.

O turismo de aventura é um setor que ainda carece de números, mas alguns sinais indicam que a atividade está crescendo. Um indicativo é o setor de equipamentos, vestuário e calçados para aventura ao ar livre. A Adventure Fair de 2004, maior feira do setor na América Latina, teve 260 ex­positores e gerou negócios da ordem de R$ 65 milhões em sua última edição – um crescimento de 18% em relação ao ano anterior, superando a expectativa dos promotores.

O Ecoturismo e o Turismo de aven­tura são os segmentos que mais crescem dentro da indústria do Turismo - cerca de 20% ao ano. Dados do World Travel & Tourism Council (WTTC), que or­ganiza estatísticas do turismo no mundo inteiro, apontam que o turismo ecológico representa hoje entre 5% a 8% do negócio turismo, devendo atingir 15% do movimento total em 2005. No Brasil, o Ecoturismo foi responsável pela movimentação de R$ 2,2 bilhões no ano de 1994, passando para R$ 3 bilhões no ano seguinte - um salto de 36%. De acordo com estimativa do Instituto de Ecoturismo do Brasil (IEB), o Ecoturismo deverá movimentar 10,8 bilhões de dólares no país em 2005.

Preservação

Mas e a questão ambiental em toda esta história? O fato é que esportes de aventura e ecologia andam de mãos dadas, pois o meio ambiente é o grande astro, palco e cenário dessas modalidades. Nessa onda de aventuras, a segurança e o impacto ambiental que essas atividades envolvem preocupam órgãos oficiais, ONGs e empresas, e há movimentos em busca do estabelecimento de regras e padrões de qualidade dos serviços. É preciso questionar o impacto que os esportes de aventura podem ter nos ambientes onde são praticados, ou mesmo analisar o tão famoso jargão das propagandas em favor do ecoturismo, “conhecer para preservar”.

No aspecto mais amplo da preservação ambiental, o caminhar, escalar, descer e subir em cordas, nadar e praticar canoagem em um rio, saltar de um avião em queda livre, decolar de asa ou parapente, e muitas outras atividades, oferecem um impacto insignificante perto do que realmente faz a qualidade de vida diminuir a cada dia, ou seja, os desmatamentos, o tráfico de animais silvestres, a poluição dos rios e mares, a diminuição dos mananciais de água doce além do pouco caso com o compromisso de tratamento de esgoto e efluentes industriais.

Turismo e desenvolvimento

Qualquer afluxo de pessoas para uma determinada região pode trazer benefícios financeiros para o seu desenvolvimento. No turismo de aventura não é diferente, mas é exatamente neste ponto que se deve ter um critério e uma organização rígida e organizada, para conter abusos, especulações e principalmente problemas ambientais e sociais que geralmente este afluxo causa. É possível perceber que em muitas regiões onde houve de­senvolvimento turístico não houve desen­volvimento social ou econômico – ou seja, a pobreza continua a mesma.

O que ocorreu nos anos 80 e 90 foi o fato de que muitas áreas visitadas por turistas ocasionais e descobertas por grupos de esportistas de aventura, de estudos e exploração - como, por exemplo, grupos e pessoas filiadas a SBE (Sociedade Brasileira de Espeleologia) - foram de fundamental importância para a criação de Parques Nacionais, Estaduais e reservas naturais, como o Parque Nacional do Vale do Peruaçu (MG), entre outros.

Outro fato importante neste mesmo caminho é o fortalecimento da idéia de preservação e cuidados com Parques e Reservas já constituídos e que, em muitos casos, passavam por uma fase de “esquecimento” há algumas décadas atrás. É importante perceber que este esquecimento é terreno fértil para o aumento das invasões, des­matamentos e caças. O grande número de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) criadas nos últimos anos também surgiu por conta da crescente procura por atividades recreativas e es­por­tivas em ambientes naturais, sendo um bom exemplo disso as diversas RPPN’s criadas na região de Bonito (MS).

Boas idéias

Hoje em dia os administradores dos Parques e demais localidades onde o número de visitantes aumentou consi­deravelmente, procuram soluções para organizar este afluxo crescente. Não é fácil fazê-lo, pois de um lado há o indivíduo que viajou uma grande distância, gastou dinheiro e tempo e quer ter liberdade no seu destino; e, do outro, há o dever de oferecer um bom serviço, orientação e principalmente de preservar o patrimônio natural. Várias soluções para este impasse estão sendo testadas, que vão desde o mais fácil - a proibição da entrada no parque - indo à controversa obrigatoriedade de guia até a “solução mágica” da privatização.

De qualquer forma é preciso lembrar que, além da função de oferecer lazer, um parque deve zelar principalmente pela sua preservação, podendo de fato e direito fazer tudo para que isso ocorra. Existem boas idéias já implementadas no mundo inteiro que podem contentar os dois la­dos e pedem esforços e cooperação de to­dos envolvidos, sem ter que apelar para o corporativismo ou ideais restritivos.

Algumas experiências apontam que o melhor caminho é a criação de um sistema que envolva uma maior fiscalização através da contratação de Guardas Parques, de preferência moradores da região depois de treinados, e um estudo para definição das cotas diárias máximas de visitantes – sendo o Parque Nacional de Fernando de Noronha um bom exemplo disto. Mapeamento de trilhas livres e definição criteriosa e fiscalizada de áreas para cam­ping se fazem necessários também. Em épocas de estiagem e grande número de visitantes, o trabalho de conscientização é fundamental e indispensável. Neste último item, o IBAMA tem feito um bom trabalho nos Parques mais visitados de todo o Brasil.

Tudo isso tem que passar por uma reforma no sistema de gestão dos Parques, principalmente em relação aos recursos financeiros. Parques mais visitados de­vem ter prioridade e repasse integral do dinheiro que é recolhido em sua bilheteria, bem como a revisão do valor cobrado, po­dendo ser diferenciado conforme o que é oferecido ao visitante. O turismo, o es­porte e o meio ambiente só têm a ganhar com a força em conjunto. E os turistas e esportistas também. Conhecer para preservar vai depender totalmente de quem leva pra conhecer e se quem vai, quer preservar. Uma solução unicamente cultural e de fiscalização.

Mande uma mensagem para o autor: Carlos Vageler

Todas as colunas

 

Nota do editor: o texto desta coluna não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.





© Copyright 1998 - 2012 - 360 GRAUS MULTIMÍDIA
Proibida a reprodução integral ou parcial, para uso comercial, editorial ou republicação na Internet, sem autorização mesmo que citada a fonte.

Compartilhe:


Livros:

Equipamentos:

  • Chile: um destino que promete surpreender por suas infinitas belezas
    Lugares
    Chile: um destino que promete surpreender por suas infinitas belezas
  • Chapada Diamantina revela sua maior preciosidade: a aventura
    Ecoturismo
    Chapada Diamantina revela sua maior preciosidade: a aventura
  • Mergulho em naufrágios: desvende este mistério!
    Mergulho
    Mergulho em naufrágios: desvende este mistério!
  • Vídeo: Aventura de balão na Capadócia, Turquia
    Balonismo
    Vídeo: Aventura de balão na Capadócia, Turquia
  • Amazônia tem 'oceano subterrâneo'
    Ecologia
    Amazônia tem 'oceano subterrâneo'
  • Ciclovia do Danúbio atravessa 10 países num cenário encantador
    Bike
    Ciclovia do Danúbio atravessa 10 países num cenário encantador