Quem afinal vai mostrar ao mundo quem foi Alberto Santos Dumont?

Autora: Margi Moss
Data: 31/8/2006

Há três anos, converso por email com um simpático senhor de 92 anos que mora na Nova Zelândia, Sr. Geoff Rodliffe. Engenheiro aeronáutico e entusiasta da aviação, ele dedicou os últimos 20 anos de sua vida a esclarecer e divulgar informações sobre o primeiro homem a voar numa máquina mais pesado que o ar. Não estamos falando do nosso Pai da Aviação, mas sim do neozelandês Richard Pearse. Um fazendeiro meio-caipira, que criava ovelhas em Waitohi, na longínqua South Island, Pearce era um ‘recluso’, autodidata, que inventou, construiu e voou seu avião várias vezes entre 1901 e 1904, sendo que o vôo maior, reconhecido como o “primeiro” foi realizado por ele no dia 31 de março, 1903. Um surpreendente número de pessoas que testemunhou seus vôos (alguns eram meros pulos, outros decolagens) deu depoimentos. O meticuloso desenho de sua aeronave – parece um ultraleve da nossa época – não foi perdido e facilita a construção de réplicas.

Porque, então, o Pearse não é conhecido mundialmente? Porque, em 2003, o governo neozelandês não se esforçou para reescrever a história da aviação, em vez de deixar os “Irmãos” seguir propagando um mito?

Poderíamos fazer a mesma pergunta sobre Santos-Dumont. Porque ele não é reconhecido mundialmente? Porque o governo brasileiro não tenta acertar uma posição digna para ele na história da aviação, inclusive mostrando que os Wright foram a Paris e voltaram aos EUA levando o motor usado por Santos-Dumont? Porque eles fariam isso se o motor que eles usavam dava conta do recado?

Bom, seja como for, será que os governos neozelandês e brasileiro têm medo de pisar no pé dos EUA? O mesmo ‘medo’ que os Wright usaram para impor seu Flyer no topo do ranking? Só recentemente fiquei sabendo da “Conspiração Smithsonian”. Esta instituição tão respeitada abusou de todos os princípios morais que deveriam ser mantidos por um pilar de ensino ao concordar com uma cláusula imposta pelos Wright para permitir a exibição do Flyer no museu. Que o Instituto e todos seus sucessores obrigatoriamente teriam que constatar que eles foram os primeiros a voar numa máquina mais pesado do que o ar! Imagine só se o governo americano iria cair em contradição com o próprio Smithsonian. Um povo que se mostrou, no decorrer dos anos, incapaz de admitir qualquer erro – seja em guerra ou em paz – nunca daria uma brecha para algum maldito estrangeiro levar o troféu.

Não é agora que vou escrever sobre Pearse (ele merece um artigo só sobre ele). Ao contrário do Santos-Dumont, ele não goza do carinho de seu povo – algo que alguns poucos, com o Geoff Rodliffe está tentando mudar. Ele, e mais um pequeno punhado de pessoas, são vozes solitários nadando contra a maré.

Existe uma situação parecida aqui no Brasil. Eu não estou conseguindo ver um esforço eficaz da parte do governo ou do empresariado para mostrar ao mundo quem era Alberto Santos-Dumont. Sim, existem exposições e eventos aqui no Brasil, onde já sabemos quem era ele, o admiramos e amamos. Com respeito ao centenário, vejo a mesquinhez e os mesmos ciúmes que tornaram a festa dos 500 anos da falsa descoberta do Brasil (que descoberta foi essa se já havia gente morando aqui há 10.000 anos?) em um vexame com a construção de uma nau inavegável.

Agora não estamos falando de um falso centenário. Sr. Rodliffe, lá no seu refúgio do outro lado do mundo, está preocupado com a falta de divulgação sobre o Santos-Dumont. E olhe, ele é do ramo e procura avidamente. Sei que ele escreveu para a Comissão do Centenário. Ninguém teve a elegância de lhe responder.

Felizmente, uma pessoa anda batalhando para abrilhantar a imagem do Santos-Dumont lá fora. Há quatro anos, o goiano Alan Calassa trabalha na construção de replicas do 14-Bis, não apenas para fazer bonito em museus ou exposições, mas para VOAR mesmo. Ao contrário do Pearse, Santos-Dumont não deixou desenhos do avião. Alan teve que pesquisar e desenhar as peças com base em fotografias, e testar, testar, testar. Ele gastou uma grana preta, pegou empréstimo e levou muitos tombos. Não faltam os que querem lucrar agora das longas horas que ele dedicou, no anonimato, à construção minuciosa que rendeu hoje um belíssimo 14-Bis que voa.

E, detalhe, é um avião extremamente difícil de voar. Mesmo Santos-Dumont voou nele apenas três vezes. Já o Alan e sua linda filha Aline voam o 14-Bis às vezes juntos, às vezes sozinhos. Ambos caíram e quebraram muitas vezes. Mas a cada tombada, sacodem a poeira, voltam ao hangar, reparam os danos e logo mais, lá estão eles de novo, no final da tarde na pista de Caldas Novas, levantando vôo, seguindo o rumo da pista, 5 metros...10 metros... 20 metros de altura. Cinqüenta metros...100 metros...200....500 de distância.

No Broa Fly-in, no final de maio, um punhado de aviadores teve a paciência de esperar o vento parar completamente, no final do dia, para ver uma cena extraordinária. O vôo tinha sido programado e anunciado cedo demais: a multidão correu para a barreira ao lado da pista, câmeras prontas, mas o vento fraco naquela hora era demais para o 14-Bis. Entrando na curva no final do táxi, a frágil bequilha arrebentou. Após meia hora sem ver nada do 14-Bis voar, a maioria da platéia desistiu, foi pro hotel, pra casa ou pro bar. Perderam feio.

Faltando pouco para as 18h, presenciamos uma cena inesquecível, de arrepiar. Com os últimos raios do sol despencando horizonte abaixo, o 14-Bis, pilotado pelo Alan, veio deslizando pelo ar, shwisssshhhhh, uma estranha ave pré-histórica, branca, voando em marcha à ré. Cavalgando acima da máquina arredia, o Alan, sereno, cabelos alisados pelo vento, concentração total, sorriso de satisfação por mais uma vez levantar essa incrível máquina do solo, pensando novamente no talento do seu herói, Alberto Santos-Dumont.

O sonho do Alan é repetir a façanha do Santos-Dumont no Campo de Bagatelle, Paris, no dia 23 de outubro. E, diferente do tão badalada (porém inútil) recriação do vôo do Flyer em 2003, o 14-Bis já voa muito bem, obrigado.

Porém, onde está o apoio das empresas brasileiras – estatais ou privadas – a esta façanha? A Embraer entrou com o patrocínio de parte da construção e das exposições itinerantes da réplica – Campo Grande, Recife, Salvador, Fortaleza, Natal, Brasília e a cidade mineira de Santos Dumont. Estranha decisão da Comissão do Centenário: cadê RJ, SP, BH etc etc.? Outro detalhe – exposições nas bases aéreas, bastante fora de mão para o público. A boa é que também Embraer patrocinou a ida de uma réplica a Oshkosh, nos EUA, a maior feira de aviação do mundo. Mas detalhe... exposição estática, sem poder voar (claro, assim é o acordo dos Wright...). No Brasil, a empresa Figwal fornece o transporte da réplica até as cidades onde há exposições. Mas quero saber onde estão os outros “viabilizadores”? Num país onde os bancos lucram mais do que em qualquer outro lugar do mundo, onde temos 17 bilionários na lista Forbes (juntos, possuem 30 bilhões de dólares), onde o governo gastou, sem pestanejar, 10 milhões de dólares para um vôo sideral turístico, diga-me onde está a fila de empresários querendo patrocinar a recriação do vôo que mudou a história? Um vôo no Campo de Bagatelle seria uma bagatela para qualquer um deles.

Mesmo se Richard Pearse voou antes, ele, coitado, nunca teria lançado a aviação mundial por motivos geográficos, por ser extremamente tímido e por ser ridicularizado por seus compatriotas conterrâneos. Mas Santos-Dumont, diferente de Pearse e dos Wright, fez seu primeiro vôo desinibido, confiante, na frente de centenas de pessoas atônitas.

É agora que o Brasil vai perder a oportunidade de mostrar aos fracassados americanos que, ao contrário do Flyer, o 14-Bis decola sozinho e voa? Vamos aproveitar da sorte do vôo do 14-Bis ter acontecido em Paris, diante de um grande público com presença da Comitê Internacional da Aviação e do Aeroclube da França, e não no anonimato de uma ilha perdida no Pacífico Sul, ou numa praia deserta da costa leste americana. Pelo menos os franceses podem divulgar o centenário do vôo sem medo de represálias tiosamistas (se é isso que o Brasil teme).

E se não der certo, se os esforços do Alan não recebessem o devido reconhecimento e apoio, vou começar a torcer pelo reconhecimento oficial do Richard Pearse como “O Primeiro”. No Brasil, vamos esquecer tudo isso de algum gênio-inventor e ficar só com historinhas para criancinhas sobre um cara legal que usava um chapéu engraçado e dava voltas à Torre Eiffel num balão.

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