A experiência de um inusitado vôo numa aeronave T-33

Tema:Esportes aéreos
Autor: Paulo Pinto - paulopinto@360graus.com.br
Data: 30/4/2003

Devia ser perto de meia-noite e eu estava ferrado no sono. Foi quando alguém me acordou, dizendo que o Oficial de Dia queria falar comigo. Já me levantei com a consciência pesada e aquele sentimento de culpa que sempre acompanha a gente na juventude. Afinal, sempre se fez alguma coisa de errado. Qual dos meus últimos pecados disciplinares teria sido descoberto agora? E por que me acordavam a essa hora?

Não conseguia lembrar de nenhuma besteira tão grave que justificasse esse rigor. Mas não tinha nada a ver. O Oficial de Dia era o meu Instrutor do Curso de Caça que, empolgado, me propunha, ainda naquela madrugada, fazer o meu cheque IFR (Instrument Flight Rules) em um vôo de T-33, de Fortaleza a Recife.

O T-33 era a versão biplace do F-80 Shooting Star no qual fazíamos o curso. Enquanto que este era um avião bem antigo, projetado ainda na II Guerra Mundial, cheio de soluções de engenharia improvisadas, desconfortável e de pilotagem bastante exigente, o T-33 havia sido desenvolvido tempos depois se beneficiando da tecnologia mais atual do após-guerra. Era um avião agradável de voar, mais moderno, bem iluminado à noite e excelentemente equipado para vôo IFR.

No entanto, embora nós o tenhamos improvisado como avião de combate anos mais tarde em substituição ao F-80, não podia ser levado muito a sério nesse rol. Ele era pobremente armado apenas com duas metralhadoras (o F-80 possuía seis), não possuía blindagem e sua autonomia de vôo era bem menor por ter menos capacidade de combustível. Isso tudo, o fazia mais leve e de pilotagem mais dócil. O F-80, ao contrário, pesadão, era uma jaca voadora. Na época em que fiz o curso, o T-33 era usado apenas na fase pré-solo e para instrução IFR. Todo o resto do curso era voado de F-80.

Mas, voltando à nossa estória, o fato é que a manutenção acabara de terminar a inspeção do avião e o meu Instrutor estava ansioso para que um aluno seu fosse o primeiro estagiário do curso a terminá-lo. Como ele teria de fazer o vôo de experiência de qualquer modo, a sua idéia era aproveitar a ocasião. E é claro, surpreender todo mundo no início do expediente do dia seguinte com o anúncio da novidade.

Paulo Pinto é Oficial da Força Aérea Brasileira, hoje na Reserva. Piloto e Instrutor de Parapente, já tendo formado cerca de duzentos e cinqüenta alunos nos últimos dez anos. É autor do MAPIL (Manual do Piloto de Parapente) e de uma série de artigos sobre Aviação e Vôo-livre publicados em jornais e revistas ligados à atividade.

Paulo Pinto: paulopinto@360graus.com.br

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