Uma viagem de caminhão entre Londres, na Inglaterra, e Katmandu, capital do Nepal. É isto o que conta o aventureiro e jornalista brasileiro Marcelo Abreu no seu livro "De Londres a Katmandu - Aventura na Estrada do Oriente", publicado pela Editora Record dentro da coleção Viagens Radicais (198 páginas, com ilustrações, R$ 25,00). Abreu enfrentou o desafio de percorrer quase 20 mil quilômetros dentro de um caminhão seguindo o caminho das antigas caravanas e dos hippies do passado. 360 Graus conversou com o autor do livro sobre esta aventura:
360 - Como surgiu a idéia de participar dessa expedição de Londres até Katmandu?
Marcelo: Eu estava morando em Londres e, antes de voltar para o Brasil, resolvi colocar em prática um velho plano de seguir por terra da Europa até o Oriente. Essa trilha informal para o Oriente retraça alguns trechos da antiga Rota da Seda. Num certo sentido é a mais antiga de todas as estradas do mundo. Nos anos 60 e 70, os cabeludos da contracultura ocidental 'redescobriram' essa trilha na sua busca pelos exotismos do Oriente no que ficou conhecido como a trilha hippie. Agora no final da década de 90, tornou-se possível novamente fazer a viagem e eu decidi tentar.
360 - Por que Katmandu acabou sendo o destino?
Marcelo - Tradicionalmente, Katmandu foi durante muito tempo, por motivos geográficos, o fim da linha para quem viajava por terra da Europa até a Ásia. Ao norte da cidade fica o Himalaia e o Tibete, controlado pela China e até há pouco tempo inacessível a mochileiros. A leste, depois da Índia, encontra-se a Birmânia, hoje Myanma, e essa fronteira também está fechada para estrangeiros. Katmandu é, em certo sentido, o lugar até onde se pode ir. Então a localização aliada às atrações e à beleza da cidade criaram uma tradição da capital nepalesa ser um ponto de chegada de grandes viagens até a Ásia.
360 - Você viajou para escrever o livro ou escreveu para
viajar?
Marcelo - Bom, eu já tinha idéia de que, se a viagem se concretizasse, quer dizer, se eu conseguisse chegar no Nepal sem pegar nenhum avião, teria boas histórias para contar. Sendo jornalista, por força do hábito, fiz a viagem colhendo um grande número de informações, além de minhas observações pessoais. Quando cheguei a Katmandu, sabia que tinha um material interessante para colocar no papel.
360 - Por que você decidiu fazer a viagem de caminhão?
Marcelo - Nosso caminhão adaptado para passageiros - uma espécie de pau-de-arara moderno - foi a melhor opção porque era um veículo bastante resistente e auto-suficiente para enfrentar às estradas - algumas delas em péssimas condições - e superar a falta de rodovias em alguns trechos desérticos. Fazer a trilha num só veículo economizou também tempo. Mesmo assim, levamos três meses de Londres até Katmandu.
360 - Quais as maiores dificuldades para se fazer uma viagem como esta?
Marcelo - Além de tempo e dinheiro - problemas universais - havia uma série de empecilhos burocráticos a serem vencidos. Conseguir os vistos, sobretudo o da Síria e o do Irã , foi uma batalha das mais duras. Atravessar as fronteiras também. Só tive certeza de chegar ao Nepal, quando realmente cruzamos a última fronteira. Como são necessários muitos vistos - todos com data de validade delimitada - tive de calcular as datas de entrada e saída nos países, uma tentativa de prever o imprevisível.
360 - Houve momentos mais marcantes na viagem?
Marcelo - Eu diria que os lugares menos badalados foram mais marcantes pela oportunidade que me deram de interação com a população local sem a presença de outros estrangeiros. É o caso de certas regiões mais remotas do Irã e do Paquistão. Lembro-me também de uma caminhada noturna pelas ruínas de Palmira, no deserto da Síria, sozinho e sentindo todo o peso histórico daquela cidade onde floresceu uma civilização até o século XI.
360 - Os problemas políticos complicaram a viagem?
Marcelo - Havia uma tensão permanente em alguns trechos: o leste da Turquia, por exemplo, onde se trava a guerra civil entre o exército turco e os guerrilheiros curdos. Evitávamos viajar à noite e enfrentamos muitas barreiras do exército. No Irã a tensão é constante mas é compensada pela cordialidade da população civil. No Paquistão o problema é a presença excessiva de armas, fabricadas e usadas em conflitos entre clãs e tribos e pelos refugiados do Afeganistão. A viagem quase toda foi um bom exercício do que chamam de risco calculado.
360 - O que mais marcou na experiência como um todo?
Marcelo - A sensação de permanência, a não temporalidade da cultura do Oriente Médio, Paquistão e Índia foram coisas que me impressionaram muito. Essa história de que o mundo está padronizado, cheio de parabólicas e celulares, nem sempre é verdade. Estive em muitos lugares onde os valores culturais são genuinamente locais, onde o viajante pode realmente se deleitar com visões quase pré-industriais, onde as coisas são novas justamente por serem antigas. Afinal de contas, é pra ver coisas diferentes que a gente viaja.
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