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"Se algum passageiro não tiver realmente
a intenção de ir a Ketchikan, Juneau ou Anchorage,
sugerimos que desembarque imediatamente." Com estas
palavras nem um pouco encorajadoras, a comissária de
bordo da Alaskan Airlines começou seu discurso de
boas-vindas ao vôo que tomamos em Seattle com destino
ao Alasca. Embora acreditando que a companhia aérea
não ia se responsabilizar pelas conseqüências de
nossa decisão, apertamos resolutamente nossos cintos de
segurança e partimos para Juneau, a capital daquele
estado norte-americano, confiantes na nossa
escolha.
Eu sempre imaginara que Anchorage fosse a capital do
estado, por ser a maior de todas as suas cidades (226.000 habitantes), mas desde 1906 o privilégio
pertence à provinciana Juneau (26,000 habitantes),
situada à beira do canal Gastineau, na parte sudeste do
Alasca.
Nossa curiosidade de conhecer região tão
inóspita era aguçada pelas inúmeras histórias,
principalmente uma que falava de dois garimpeiros, Joe
Juneau e Richard Harris, que ali chegaram em 1880 à
procura de ouro, seguindo dicas de um velho índio da
tribo Tlingit. Os dois amigos acabaram fundando um
povoado que em alguns anos se transformou num centro de
mineração. Indiscriminadamente, todas as montanhas ao
redor de cidade foram perfuradas, acabando por esgotar
completamente o precioso metal. Com o fim da febre de
mineração, muitas pessoas foram para outras
localidades, e a pequena Juneau permaneceu parada no
tempo. Hoje, sua principal atividade é o turismo, e no
verão, dezenas de barcos ali chegam trazendo visitantes
para a famosa Glacier Bay.
Nossa meta não era deslizar mansamente sobre
as águas plácidas dos inúmeros fiordes do local.
Por isso, partimos num vôo de quarenta minutos até
Yukatat (que na linguagem Tlingit significa 'onde a
canoa descansa'). Até a II Guerra Mundial, aquele era
um dos lugares mais isolados do Alasca, e até hoje não
está ligado à rede rodoviária. O acesso só é
possível de barco ou avião, pousando os pequenos
aparelhos numa pista da época da guerra, construída
num ponto superestratégico, devido à proximidade com o
território da antiga União Soviética.
Depois de Yukatat, nosso destino final era o
fiorde Russell, num dos recantos de vida selvagem mais
belos do planeta, formado por vários parques nacionais
contíguos, tanto no Alasca como no lado canadense da
fronteira. Na extremidade do fiorde Russell se encontra
a geleira Hubbard, que nasce nas montanhas St. Elias e
se estende por 115 km, até encontrar o mar na baía do
Desencanto (Disenchantment Bay). Esse conjunto faz parte
do maior campo de gelo subpolar da América do Norte. Um
fato estranho aconteceu ali em maio de 1986, quando a
geleira Valerie, uma tributária da Hubbard, começou a
se movimentar à velocidade de 40 metros por dia. Isso
fez com que ela pressionasse a geleira Hubbard,
fazendo-a avançar mais de 1.5 km e formar uma barragem
de gelo que fechou o acesso do fiorde Russell ao mar.
Abastecido pelas águas de muitos rios, o fiorde
represado começou a crescer, formando um lago enorme,
25 metros acima do nível do mar. No dia 8 de outubro,
o peso da água fez romper a barragem de gelo e a
gigantesca massa líquida jorrou para o mar a uma
velocidade 35 vezes maior do que a do fluxo das
cataratas de Niágara. Em 36 horas, o nível do lago
igualou-se com o do mar.
Uma equipe de televisão que acampara no topo
de uma das montanhas do fiorde, com a missão de filmar
o grandiosos espetáculo apresentado pela natureza, não
pôde gravar mais do que o barulho ensurdecedor
provocado pelo fenômeno. Uma neblina que faria inveja
ao fog de Londres encobriu toda a área do lago e da
geleira, durante todo o tempo do show. Mas
voltemos a 1994. Em quatro viagens num pequeno
monomotor, nosso grupo, de dez pessoas, levando cinco
barracas, cinco caiaques desmontáveis e alimentação
para seis dias, embarcou rumo a uma praia deserta
do fiorde Russell. Na nossa vez, o aviãozinho pousou na
praia pedregosa e descemos com a pilha de bagagem que
nos cabia.
Quando o barulho do motor do avião, que subia
de volta, sumiu no ar, ficamos finalmente a sós com a
imensidão silenciosa da natureza - mar, montanha, neve
e floresta. A vista era um pouco triste, pois o aumento
do nível da água que fizera o fiorde virar um grande
lago havia matado muitas árvores. Mas, em
compensação, não nos faltaria lenha para a fogueira.
O grupo foi reunido por Bernie Krause, um
dedicado ecologista e famoso cientista bioacústico (que
grava sons da natureza com equipamento especializado e
de alto poder de captação). Nós o tínhamos conhecido
no Parque Nacional de Selous, na Tanzânia, registrando
pela primeira vez, os sons de hipopótamos embaixo da
água. Descobriu que fazem sons agudos, parecidos com os
das baleias. Em trinta anos de gravações, Bernie
reuniu um acervo invejável, que inclui até sons de
muitas espécies animais já extintas. Na expedição
atual, ele queria gravar não só os ruídos de baleias
e golfinhos, como grupo era formado pela esposa de
Bernie, dois professores da Universidade da Califórnia
(um deles levando a esposa), a brasileira Leila Chamma,
Gérard e eu e os dois guias da expedição, Nate e
John, os responsáveis pela organização geral.
Em nosso primeiro acampamento fomos alertados sobre um
possível encontro com ursos, mas o máximo que
avistamos foi uma pequena colônia de andorinhas-do-mar
do Ártico que chocavam seus ovos. Ao menor sinal de
aproximação, elas partiam furiosas para um ataque
sobre nossas cabeças.
Desistimos de travar contato com as aves e começamos a
aprender com lidar com nosso equipamento de
sobrevivência. Nate e John nos ensinaram a montar os
caiaques, que seriam nossos únicos meios de transporte
até o reencontro, seis dias mais tarde, com o avião
que nos esperava ao lado da geleira Hubbard. Depois
disso, muitas regras foram ditadas, e todas elas visavam
proteger a natureza. Todo o lixo deveria ser queimado ou
levado de volta à civilização. Não deveríamos
deixar nenhum resíduo no nosso rastro.
Cientes de nossas obrigações, partimos em
pequenas excursões pela área. Sem achar baleias,
resolvemos então, percorrer nas embarcações um trecho
de 20 km num só dia, a fim de ganharmos mais tempo
quando chegássemos junto à geleira Hubbard.
Desmontamos as barracas e remamos até o ponto onde se
encontram os fiordes Russell e Nanathak. Então, tivemos
de parar, pois um vento forte e gelado começou a soprar
e a levantar ondas na superfície antes espelhada do
mar. Almoçamos numa praia e só às seis da tarde, com
o vento amainando, pudemos prosseguir.
Logo após, conseguimos ver, cerca de 15 km à
frente, a magnífica geleira. O sol fulgurava nos
inúmeros icebergs que desciam pelo fiorde. Era uma
vista espetacular, mas não tínhamos tempo de
apreciá-la. Precisávamos remar muito. "Só mais
uma hora," animava-nos Nate. Eram já nove da
noite, ou melhor, 21 horas - e do dia, porque, naquela
época do ano, o sol só some atrás das montanhas às
23 horas e nasce de novo às duas da madrugada. O vento
e a correnteza eram nossos inimigos.
A geleira continuava a nossa frente, mas sempre
distante. Quando o sol começou a descer, sentimos ainda
mais o frio glacial, cuja sensação era aumentada pelo
vento. As mãos molhadas na água onde boiavam dezenas
de icebergs começaram a congelar, mas não devíamos
parar, e remávamos como robôs, sonhando com o calor
dos sacos de dormir. "Só mais uma hora," Nate
dizia a cada 30 minutos. Não tínhamos foças para
brigar com ele. O único sinal de que estávamos mais
próximos de nosso destino era o rugido cada vez mais
forte da geleira. As últimas 3 horas da jornada nos
pareceram um inferno gelado. E dávamos graças a Deus
pelo fato de a noite não ficar escura.
"Chegamos!", Nate anunciou com
orgulho. Contemplamos a praia pedregosa e coberta de
pequenos icebergs que seria o local de acampamento. Eram
as duas da madrugada. Tínhamos remado oito horas sem
parar. Estávamos todos exaustos e tremendo de frio, com
as mãos molhadas e a ponto de congelar. Tivemos ainda
que descarregar os caiaques e achar o lugar para montar
as barracas. A praia estava fora de questão, por causa
da maré alta. Logo depois da praia, erguia-se a encosta
de uma montanha enorme, cuja base era um emaranhado de
troncos de árvores mortas.
Assim, a área de nosso acampamento foi
escolhida a cera de meio km de distância, sobre o leito
seco de um rio, de onde tivemos que retirar as pedras
para fazer espaço para cada barraca. A tarefa não foi
nada fácil, devido ao cansaço e aos nosso dedos
semi-congelados. Depois... direto para os sacos de
dormir. O sono só não foi completo porque de vez em
quando ouvíamos estrondos e sentíamos pequenos
tremores no solo. Era a geleira dando luz à seus
icebergs.
Quando acordamos, horas mais tarde, o sol já
estava alto, e o dia, lindo. Nossa praia era
completamente branca - não de areia, mas do gelo de
pequenos icebergs. Em frente a nós, e separada de nosso
grupo por 500 metros de água, estava a maravilhosa
geleira Hubbard, brilhando em seus tons de azul, branco
e cinza.
Esquentando as mãos em torno de uma caneca de
chocolate quente, nos agachamos ao lado da fogueira e
assistimos ao show da Hubbard. Pedaços enormes de gelo
desprendiam-se da geleira e caíam às vezes de 30
metros de altura, batendo na água com um trovão e
levantando ondas que vinham depois quebrar em nossa
praia.
Cada iceberg daqueles tinha milhares anos de
idade. Quando o bloco se separa da geleira, a nova face
exposta é de um intenso azul-turquesa. Esta tonalidade
se deve ao fato de que os cristais de gelo são ali tão
densamente comprimidos que absorvem todas as cores,
menos o azul. Logo, porém exposto ao sul e ao ar, o
gelo fica poroso e aos poucos se torna branco.
No dia seguinte, colocamos os caiaques de volta
na água, já bem calma, e atravessamos em zique-zague o
fiorde para chegar a uma morena. (Morena é uma
acumulação de rochas despedaçadas e transportadas
pelo movimento das geleiras.) Junta àquela formação
se erguia uma muralha de vinte metros de altura. O muro,
marrom, parecia granito, mas não era. Tratava-se de uma
mistura milenar de gelo e pó de pedra, que derretia ao
sol. Às vezes caíam pedaços grandes, advertindo-nos
de que escalar ali seria bastante perigoso.
Procuramos outro caminho, cruzando uma
planície coberta pela areia resultante da ação do
gelo moendo as rochas das montanhas. O pó fino deixava
ver pegadas frescas de ursos e alces... Nossa
expedição chegava ao fim. Mas ainda restava o que
fazer. Bernie escalou a encosta firme da geleira e fez
descer um microfone por dentro de uma fenda no gelo.
Pôde gravar então os rugidos, gemidos, estrondos,
estalidos e chiados da geleira, o show dos sons que
testemunham a força adquirida pelos pequenos flocos de
neve acumulados milhares de anos antes.
Publicado na Revista Geográfica Universal
Setembro de 1994 - Texto: Margi Moss - Fotos:
Gérard & Margi Moss |