| Já
conhecíamos, de forma diferente, este canto da
África durante nosso vôo ao redor do mundo de
monomotor. Agora resolvemos explorá-lo melhor por
terra. Moçambique, por exemplo, era um país em
guerra quando passamos por ele em 1990. E só
chegamos a sobrevoar Malawi, devido a um problema
com o Controle, que negou permissão de pouso e
ameaçou jogar-nos na cadeia se nos atrevêssemos
a tocar o solo.
Para
evitar problemas nas estradas africanas, é
indispensável um veículo com tração a quatro.
Equipamos um Land Rover Defender com tanque
suplementar de combustível, uma geladeira e duas
camas desmontáveis. Tudo pronto para a partida. |
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Chegando
em Johannesburgo, logo fomos percebendo o clima de medo
que paira sobre a cidade. Rádios, canais de televisão,
outdoors e todo o mundo advertem contra o mesmo inimigo:
hijacking, isto é, seqüestro. Não podíamos acreditar,
contudo, que estaríamos entre os seqüestráveis da
África do Sul.
- Não
são vocês que eles querem, - explicaram-nos - é o
carro!
Em Johannesburgo, os ladrões armados 'seqüestram' os
carros parados no sinal. Porém, estávamos com a vantagem
de ter um carro com o volante do lado esquerdo numa
região de colonização britânica. Assim, nosso carro
seria fácil de vender.
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| Uma
cobra "descascada" para comer. |
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No
caminho para a Suazilândia, passamos alguns dias
no Parque Nacional Kruger, para que nossa amiga
Marina Bandeira, no continente pela primeira vez,
pudesse entrar no espírito da África. Logo na
primeira noite, antes de dormir, caminhamos até a
cerca do acampamento. Acendemos a lanterna para
procurar animais noturnos e levamos um susto - do
outro lado, a um metro de nós, estava uma hiena.
Ofuscada pela luz, ela olhou na nossa direção,
cheirou o ar e deve ter pensado em jantar. |
Mais
tarde, quando já dormíamos, uma ululação quebrou o
silêncio da noite.
- O que é isso? - perguntou Marina, acordando assustada.
- É a hiena - respondi.
- Que lindo! - ela vibrou. - Parece uma mulher louca
cantando!
E realmente, parecia. Um som alto, angustiado.
Era
quase crepúsculo quando passamos a fronteira do Reino de
Suazilândia. Antigamente, o reino era bem maior que seus
atuais 17.364 km quadrados. Hoje, com uma população que
divide a mesma cultura e idioma, o país não sofre com os
conflitos tribais que afligem outros países africanos. A
maioria dos turistas são sulafricanos que querem apenas
jogar nos cassinos porque o jogo é proibido na África do
Sul.
É um
país de contrastes: montanhas, savanas, platôs. A
capital Mbabane, toda moderna, é do tamanho de Búzios! O
charme está nas pequenas aldeias, suas cabanas de adobe e
tetos de palha, onde crianças seminuas nos contemplaram
com a curiosidade dos inocentes e o pavor de quem ouve
histórias sobre homens brancos, compradores de
escravos...
| Queríamos
entrar em Moçambique pelo extremo sul, uma
região de beleza deslumbrante (quilômetros de
praias desertas, águas translúcidas) que foi
destacada por sua bio-diversidade durante a Eco
92. Uma poderosa empresa sul-africana de celulose
cogitava convertê-la em plantação de eucalipto,
uma árvore que resseca o solo. |
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| Casa
tradicional, Suazilândia |
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De
repente, apareceu um milionário texano que propõe um
projeto dito 'ecoturistico' para a região mas que inclui
cassinos flutuantes e loteamentos. Queríamos conhecer a
área antes da destruição que pode estar por vir.
Sabíamos
que a estrada, fechada durante a guerra, era muito
difícil mesmo para veículos 4x4. Não conseguimos
descobrir se a fronteira já estava aberta. As opiniões
eram contraditórias. Resolvemos arriscar sabendo que, se
o caminho estivesse fechado, teríamos que dar uma volta
de mais de 600 km até a fronteira em Komatipoort.
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Acampados,
Hlane National Park |
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Sorte
nossa! A fronteira havia sido reaberta poucos
meses antes. O posto de imigração é apenas um
velho contêiner dividido ao meio entre os
sulafricanos e os moçambicanos. O oficial
sulafricano, um jovem branco de bermuda apertado,
cabelo rente, era muito alegre. Um forte cheiro de
cerveja pairava no ar. Eram 10 horas da manha. |
Na
outra metade do contêiner, o oficial moçambicano,
nervoso e nada sorridente, pediu $10 por pessoa de taxa de
fronteira. Ao entregarmos os 30 dólares, ele começou a
preencher o recibo. Marina reparou que ele furtivamente
virou o papel carbono. Fingimos não ter visto nada. O
salário mínimo em Moçambique era o equivalente de 20
dólares.
Passando
a fronteira, a estrada é de areia pura entre clareiras de
savana e mata. Não há sinal de habitação humana, e
apesar da riqueza da paisagem, não se vêem animais
selvagens. Devido à guerra e à pobreza, todos já
viraram refeição. Durante a colonização portuguesa,
Ponta do Ouro era um balneário, com quilômetros de
praias virgens banhadas pelo cálido oceano Índico. Hoje
é decadente, mas as pousadas e hotéis estão sendo
reconstruídos. Não há dúvida de que, dentro de poucos
anos, a costa moçambicana (2.000 km de praias) será a
grande atração mundial.
| Pelas
leis de trânsito moçambicanas, um veículo tem
de estar equipado com dois triângulos de
emergência. Esse detalhe é uma boa fonte de
renda para os policiais, porque os carros
estrangeiros entrando no país normalmente têm
apenas um. |
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| llha
Magaruque, Moçambique |
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A
policia pára todos os carros com placa estrangeira, e
pede para ver os dois triângulos. Os sul-africanos
brancos, além de ricos e ter fama de tratar mal os
negros, são o alvo preferido. Não escapam das multas de
$50.
Por
falta de organização, não tínhamos nem um mísero
triângulo. Acabamos fazendo 2.000 km pelas estradas
moçambicanas, e fomos parados pela polícia umas quinze
vezes. Conseguimos contornar a situação cada vez.
Primeiro, os policiais estranharam o volante do lado
esquerdo. Segundo, se assustaram quando começamos a falar
com eles em português. Ao saber que éramos do Brasil,
ficaram tão alegres com a nossa visita ao seu país, que
mandaram seguir viagem sem pedir para ver os triângulos!
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Barcos
tradicionais, Inhambane, Moçambique |
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As
estradas moçambicanas estão em estado precário.
É uma procissão de buracos de quebrar as costas.
Um dia, levamos 2 horas para fazer 30 km. Vez ou
outra, no mato na beira da estrada, um tanque ou
algum veículo militar, vítima de emboscada. Os
postes de telefone, alinhados na beira da estrada,
vão até o horizonte. Sem fio. |
Queríamos subir até Quelimane e atravessar o
interior do país para chegar na fronteira com o Malawi.
Mas houve tanta chuva na região, que a ponte sobre o Rio
Zambeze ficou intransitável, e as balsas não conseguiram
alcançar as margens destruídas pela força da
correnteza. Fizemos um desvio pelo Zimbabwe, parando em
Chimanimani.
| Trata-se
de um dos parques menos visitados do país por
não se especializar em vida selvagem, mas é rico
em paisagens empolgantes. Chegamos ao entardecer
à entrada do parque, onde pretendemos pernoitar.
Como era inverno e já estava bastante frio,
perguntamos ao guarda florestal se havia alguma
previsão de chuva. |
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| Estradas
Poeirentas em Moçambique |
|
- Talvez à noite você ouça gotas caindo - ele
respondeu.
'Gotas caindo': gostei dessa forma de dizer chuva. Não
choveu, mas passamos a noite inteira escutando as gotas
caindo. Eram as gotas de uma torneira quebrada ao lado do
nosso "quarto" dentro do carro.
Já prevenidos quanto à falta de produtos nas
prateleiras da lojas malawianas, fomos às compras em
Harare, capital do Zimbabwe, para o próximo mês da
viagem. Fazia vários dias que eu estava passando mal, com
muita dor de cabeça, febre e glândulas inchadas. Temendo
a malária, achamos melhor consultar um médico antes de
seguir viagem. Ele diagnosticou uma doença comum na
região, a tick bite fever, causada pela mordida de
carrapatos.
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|
Os
campos de chá, Mulanje, Malawi |
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Devidamente
munidos de antibióticos, Gérard tomou a
direção enquanto eu repousava, deitada na parte
de trás do carro. O Land Rover virou ambulância
ambulante com um par de pés moribundos encostados
na janela. |
Para chegar a Malawi, tivemos que atravessar a
província moçambicana de Tete, passando pelo infame
Corredor de Tete, local de muitas emboscadas durante a
guerra civil, quando os viajantes só conseguiam passar em
comboios escoltados pelo exército.
Estamos sempre atraídos por aeroportos. Fomos
visitar o de Tete, chegando por engano no aeroporto velho.
Cena de guerra. Hangares destruídos e vários aviões e
helicópteros apodrecidos no mato. Resultado de um
bombardeio pelo exército do governo branco da então
Rodésia durante a guerra da independência do atual
Zimbabwe. Dois homens estavam tentando acender um punhado
de galhos molhados para fazer o almoço. Um foi cutucar
dentro do hangar destruído e voltou com uma bala de
metralhadora. Calmamente, começou a abrir a bala para
recuperar a pólvora. Demos alguns passos para trás, mas
ele sabia como aproveitar de balas perdidas. Jogou a
pólvora nas cinzas, BOOM! A fogueira acendeu!
| Por toda
parte, avisos em vermelho e branco com desenhos de
caveiras, advertiam: PERIGO MINAS! Ali ficava um
centro de recolhimento das minas espalhadas em
todo o território moçambicano. Mais adiante,
descobrimos que os famosos recuperadores das minas
eram cinco cachorros das raças labrador e
springer spaniel.
Uma
ONG norueguesa trabalha com os moçambicanos no
programa de recuperação das minas. É
fundamental, visto que muitos pessoas (por
exemplo,, mulheres que trabalham nos campos e
homens ou meninos que cuidam das vacas) ainda hoje
perdem as pernas e até morrem ao pisar nelas.
Detetores de metal dão o alerta para qualquer
pedaço de sucata enterrada na terra - um prego,
uma lata velha. E cada vez soa o alarme, é
obrigatório cavar com cautela para ver se há
mesmo uma mina. |
 |
| Um
grande sorriso, Chintheche, Malawi |
|
Os cães são mais eficientes. Eles farejam a
pólvora e não erram. Treinado para sentar-se, imóveis,
a um metro da mina enterrada, eles então latem, avisando
sobre o perigo. Os treinadores nos explicaram, orgulhosos,
que o sistema funcionou tão bem que uma equipe
moçambicana já embarcou para a Bósnia para ajudar na
mesma tarefa.
 |
| Pão
feito de insetos, Malawi |
|
Depois
de passar por uma zona tão atingida por guerra,
imaginávamos estar chegando num país de bem com
a vida. Foi um susto descobrir que o Malawi
(antiga Nyasaland), após os 30 anos da ditadura
do Dr. Hastings Banda, era bem mais pobre e
sofrido que Moçambique após 30 anos de guerra! O
país parou no tempo. Até a queda do Presidente
Banda, há 2 anos, era vetado às mulheres o uso
de calças compridas ou mesmo de saias acima do
joelho. Os homens não podiam usar cabelo grande,
nem barba. Agora, vale tudo. |
Apesar da pobreza, o Malawi tem um povo
sorridente que acenava para nos na beira da estrada. As
crianças gritaram 'harro, harro' (pronunciando o 'l' como
'r'). A vida no país é dominada pelo imenso Lago Malawi,
quase um mar. Suas profundezas vibram com mais de 500
espécies de peixes, a maioria endêmicas. Entre eles
estão as mbuna, muito coloridas e procuradas para
aquários domésticos do mundo inteiro.
O lago (570 km de comprimento e 80 de largura) é
tão bonito e cintilante sob o sol africano, que, quando o
explorador e missionário escocês David Livingstone o viu
pela primeira vez em 1859, ele batizou-o de Lago Nyasa,
mas descreveu-o como the lake of stars, o lago das
estrelas.
| Passamos
várias noites acampados em Chembe, aldeia típica
com choupanas agachadas embaixo de baobás, na
península do Cabo Maclear. Para ganhar um
dinheirinho, Harry e Freddie, dois meninos de doze
anos prepararam para nós um churrasco de peixe
com arroz e legumes na areia da praia.
Esperávamos, mudos, contemplando a beleza das
estrelas refletidas no lago mesmo à noite. Mas os
meninos, enquanto cozinhavam, começaram a
discutir entre eles na língua chichenya.
Finalmente, nos consultaram. |
 |
| Estrada
desvia para o baobá, Zimbabwe |
|
- É verdade - Freddie perguntou - que naqueles
vídeos de Rambo, as pessoas morrem mesmo?
Ficamos surpresos com a pergunta, já que não havia
eletricidade na aldeia. Eles nos contaram que viajavam de
ônibus para ver os filmes em Monkey Bay, a uns 30 km.
Explicamos que não, as mortes eram apenas
armação.
- Mas eles se machucam, né? Sempre tem muito sangue -
insistiu Freddie.
- O sangue é apenas molho de tomate, ou alguma tinta
especial.
- Viu! Não te falei! - gritou Harry, alegre. - Ha ha!
Molho de tomate! Te falei que era mentira!
 |
| Vilarejo
de Kalape, Zambia |
|
No dia
seguinte, ouvimos Harry e Freddie desvendando o
mistério das mortes cinematográficas e do sangue
para os amiguinhos incrédulos.
Depois de rodar pelo Malawi e até fazer um safari
de cavalo no belíssimo platô de Nyika,
cavalgando entre zebras, elands e muitos veados,
rumamos para a Zâmbia. |
Nosso objetivo era conhecer o South Luangwa
National Park, um paraíso intocado de 9050 km quadrados,
pouco visitado devido aos problemas políticos e
econômicos do país.
Com uns amigos, num comboio de três carros,
fomos com um guia até Old Lion Camp, um acampamento bem
perdido no mato. Éramos os primeiros visitantes do ano
(as estradas ficaram fechadas pela chuva), e achamos as
choupanas destruídas pelos ventos fortes e chuvas
torrenciais. Limpamos um espaço no mato para as barracas,
na beira do rio Luangwa, e curtimos a natureza. Não posso
dizer que tivemos paz, porque nossos vizinhos - várias
famílias de hipopótamos - quebravam o silêncio com seus
bufos e berros.
Na África do Sul, os acampamentos estão sempre
cercados de arame farpado, à prova de animais selvagens.
Preferimos estar em mato aberto, interagindo com a
natureza e podendo receber as visitas de leões, hienas,
elefantes ou hipopótamos. Os sentidos adormecidos, de
quem vive num centro urbano, de repente acordam. Crek! O
barulhinho de um galho quebrado perto de sua barraca deixa
você bem alerto!
| Era a
época do cio das leoas. Toda noite, enquanto
jantávamos ao lado da fogueira ou dormíamos,
escutávamos os rugidos apaixonados dos leões,
que pareciam estar muito perto, logo atrás dos
arbustos. E todo dia fomos de carro procurar o
esconderijo deles - em vão. No último dia,
Gérard e eu saímos do acampamento de madrugada
para enfrentar uma árdua jornada de 12 horas até
a capital Lusaka. |
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| A
leoa descansa, South Luangwa, Zambia |
|
Só depois soubemos que nossos amigos haviam
enfim achado os leões. Dois machos estavam escondidos
logo atrás do acampamento, e uma família de doze
descansava um pouco adiante!
Concluí que, além da beleza natural, dos povos
coloridos, do espaço e da liberdade, é o inesperado que
sempre nos chama de volta para a África.
Publicado na Revista Geográfica Universal
Agosto de 1996 - Texto: Margi Moss - Fotos:
Gérard & Margi Moss |