Reportagens

O ZAMBEZE, RIO ABAIXO
Oito dias torcendo para a canoa não virar

- Se a canoa virar, suba imediatamente para ficar fora do alcance dos crocodilos. 

Bebendo chope na varanda do hotel Kariba Breezes, na beira do lago Kariba (conhecido assim, mas na verdade, uma enorme barragem terminada em 1958) , os avisos do guia Lloyd Shambira soam exagerados. 


Carregando as canoas com o equipamento para os oito dias da viagem

No dia seguinte, o grupo embarca num Land Rover 130 e sai puxando o reboque carregado com as cinco canoas da Shearwater Adventures. A descida do rio, do lado de Zimbabwe, é rigorosamente controlada por National Parks, entidade responsável pelos parques nacionais.

Permitem a saída de apenas uma excursão por dia com, no máximo, cinco canoas, justamente para evitar que haja congestionamento e para permitir cada grupo curtir a natureza em paz. 

Mesmo depois de parar na estrada para dar prioridade a um elefante, chegamos a Chirundu, na beira do rio Zambeze, após três horas. Lá colocamos as canoas azuis na água e carregamos alimentos, sacos de dormir, barracas e uma mala de primeiros socorros. 
 

Alegres, partimos de Chirundu debaixo de um sol escaldante. Destino: Kanyemba, 200 km rio abaixo. No caminho, nenhuma cidade nem aldeia, só parques: o Nacional do Zambeze, na Zâmbia, e o Mana Pools, em Zimbabwe. O Zambeze, quarto maior rio da África, nasce no noroeste da Zâmbia e segue um caminho tortuoso de 2.700 km até desembocar no Oceano Índico, em Moçambique. 
 
O começo de uma aventura de 200 km pelo Rio Zambeze  

Percebendo o clima animado do grupo (éramos sete do Brasil e dois americanos), Lloyd deu outro alerta. "É proibido nadar no rio. Não estou brincando. Crocodilo é bicho perigoso. E mais: não deixam braços ou pernas pendurados na água. São uma tentação." Mais tarde vimos, nas ribanceiras, aparentemente num sono profundo, os corpos gigantes desses répteis, únicos parentes sobreviventes dos dinossauros.  

Com a aproximação das canoas, deslizam para dentro d'água, torcendo para alguém cair. Os adultos podem alcançar até quatro metros de comprimento. Matam sua presa por afogamento, arrastando-a para baixo e ficando submersos por até duas horas. 

- Outro obstáculo que temos pela frente são os hipopótamos. São animais territoriais. É muito importante não cruzar o território de uma família de hipopótamos, porque o macho-líder vai partir para a defesa.
De repente, surge uma cabeça ao lado da canoa....

É bom lembrar que ele não ataca, simplesmente defende. Os intrusos somos nós, e ele quer pôr a gente para correr. Mas, para isso, ele vai derrubar a canoa. -  Lloyd ensina. Conforme as regras, a canoa de nosso guia Lloyd, zimbabwano da tribo Shona, deve ficar na frente, e as outras, bem-comportadinhas, logo atrás para ouvir seus avisos: "pedras submersas à esquerda!" "tronco flutuando à frente!" etc. Como ninguém presta muita atenção, ele levanta os olhos para o céu e pergunta: "Por que eu, tive que vir com esse bando de brasileiros?" 
- Hippos on the right - hipopótamos à direita! - ele berra. 


Um babuíno olha, desconfiado, a  
passagem das canoas
A medida que as choupanas de barro com teto de palha ficam para trás, a freqüência dos encontros com os hipopótamos cresce. De dia, cochilam dentro do rio onde a água protege sua pele do sol. Ao avistar as canoas, um deles soa um alarme indignado, e de repente, grande número de orelhinhas e cabeças aparece na superfície. A qualquer manobra considerada ameaçadora pelo macho dominante, ele não hesitará em partir para cima de uma canoa.

Com uma bocada, é capaz de mandar uma canoa para o fundo do rio e entregar, de bandeja, um petisco aos colegas crocodilos. Quem pensa que é coisa fácil deslizar 200 km rio abaixo no mighty Zambezi está enganado. Às vezes, o vento contrário é tão forte que, depois de remar por duas horas, estamos exaustos e o progresso foi mínimo. Diariamente, acordamos à 5h30, desmontamos o acampamento e tomamos um chá com biscoitos. Em seguida, remamos umas duas horas até ganhar o direito de tomar um café da manhã decente. Mais duas ou três horas de remada, e um almoço com direito a uma sesta na sombra de alguma árvore. Esticados no chão, dormimos todos como bebês! Um dia, almoçamos na sombra de um bosque de acácias. O semente dessa árvore é prato predileto dos elefantes. Então, um elefante não demora a aparecer. Se de longe, impressiona pelo tamanho e pelo peso, imagine você a pé, sem ter para onde correr, a meros 10 metros de distância de um elefante que mastiga sementes, crek crek! 

É nosso primeiro encontro bem próximo a um elefante selvagem, solto - como nós mesmos - na natureza. Vimos como ele estava feliz de deixar a gente em paz, se o respeitássemos. 


Depois da longa remada, um por do sol deslumbrante nos esperava cada dia
À tarde, acontece a remada mais prazerosa do dia. Pouco vento, sol baixo. A luminosidade clássica da paisagem africana. E a bicharada - impalas, búfalos, elefantes, girafas, zebras - chegando às margens do rio para beber. Coisas do Éden. Lá pelas cinco da tarde, Lloyd indica o lugar para acampar: às vezes, um banco de areia na margem, às vezes uma ilha no rio. Dispensamos o uso de barracas, preferindo dormir à luz das estrelas, cada um protegido apenas pelo mosquiteiro armado sobre o remo. Assim conseguimos ouvir melhor os sons da noite africana - os rugidos dos leões, os gemidos das hienas, os 'latidos' dos impalas machos. 

Ao anoitecer, os hipopótamos, que são vegetarianos, saem da água para pastar. Outra regra fundamental à sobrevivência no mato africano: não passe entre um hipopótamo e seu refúgio no rio. Se assustar o animal, ele vai passar por cima de você para chegar rapidamente de volta à água. No terceiro dia, acordo cedo, lá pelas cinco horas. Fico quietinha no saco de dormir, escutando o coro dos pássaros. De repente, uma voz chama meu nome, bem baixinho, em tom de urgência. Levanto a cabeça e olho para o outro lado da clareira. "Margi, fique quieta. Não mexa. Olhe logo à sua frente! Não mexa!" diz Bernie. Olho e não quero acreditar no que vejo. A cinco metros de onde Gérard e eu estamos dormindo no chão, 'protegidos' apenas pelos mosqueteiros, um elefante solitário pasta tranqüilo. Dou uma cotovelada a Gérard, e aponto. Ele acorda no instante. Os corações batem forte, porque estamos bastante vulneráveis, deitados aos pés desse grandalhão. Meus Deus, como um elefante é gigante quando você está deitado no chão olhando para ele! Com movimentos muito suaves, saímos dos sacos de dormir e calçamos os sapatos. Tudo sem fazer barulho 

 É impressionante como os elefantes são silenciosos. Não sei quanto tempo ele já estava no local, comendo folhas numa boa. É claro que o animal já percebera nossa presença, mas como não mexemos com ele, não mexeu conosco.
As girafas também ficaram curiosas

O coração estava a mil por hora, sim, mas o medo estava adocicado com uma emoção fortíssima, a consciência de que passamos por uma experiência privilegiada. Aos poucos, o elefante se  afasta e 15 minutos depois, escutamos e o vimos descer até a água e - splish, splosh - atravessar o rio. Todos respiramos aliviados! Porém, é um momento inesquecível: acordar aos pés de um elefante e ficar lá, deitado no chão, vendo-o mastigar deliciosas folhas de arbusto! 

No quarto dia, entrosados no ritmo das remadas, ao tomar o café da manhã, resolvemos preparar sanduíches para almoço a fim de ganhar mais tempo para a sesta! Boa idéia. Lloyd fica feliz: menos trabalho para ele. E lá vamos nós. Então, de repente aparecem uma corredeirinhas. Em torno delas, a força do mighty Zambezi. Numa manobra, a canoa de Gérard e Bernie é jogada contra um tronco de árvore no meio do rio e vira. Os dois somem. Passa uma eternidade até que aparece um braço aqui, outro braço ali e, finalmente, duas cabecinhas ainda de chapéu!
Almoço dentro do rio

Lutam contra a árvore, a canoa e a correnteza. Ficamos parados, pasmos, preocupados, sem poder ajudar para não complicar ainda mais a situação. Quando conseguem liberar a canoa dos ramos da árvore, são logo levados pela correnteza, agarrados ao casco. Também para água abaixo, vão os conselhos berrados pelo Lloyd: "subam na canoa e esperem ajuda."

Gérard e Bernie continuam dentro d'água, lutando para acertar a canoa enquanto a correnteza vai levando o conjunto rio abaixo. Não podemos esquecer que o perigo aqui são os crocodilos. Estou com o coração na boca. Reviram a canoa e, ainda dentro d'água, começam a tentar esvaziá-la. Tarefa impossível. Finalmente, com a ajuda de cordas atadas a duas outras canoas e muito esforço nos remos, conseguimos arrastar a canoa encharcada até a margem, com os dois náufragos nadando ao lado. Pura sorte que nenhum parente dos dinossauros estava por perto naquele trecho, afinal quebramos a regra mais importante da excursão... "se a canoa virar, suba nela"! 

O castigo da desobediência? Sem direito a almoço. Justamente naquela canoa estavam os sanduíches que preparamos com antecedência, e que agora viraram sopa de pão e alface. Daí em adiante, para o grande alívio de Lloyd, o grupo fica bem-comportadinho. O Zambeze está mais estreito e mais profundo. Estamos próximos aos 22 km da Garganta de Mupata. De cada lado, surgem paredões de pedra avermelhada. É uma paisagem surpreendente, onde crescem muitas árvores baobás, que podem ter até 4.000 anos de idade. 


A galera chega, completa, a Kanyemba
Saindo da garganta, falta apenas um dia para chegar a Kanyemba, na fronteira com Moçambique. Depois de oito dias longe da "civilização" (porém, visualmente perto do Éden terrestre), num calor escaldante e sem bebida gelada, sonhamos com um bar. As cervejas do Vicente já acabaram faz tempo. 

Subimos às pressas a ribanceira e damos com meia dúzia de casas cujas janelas quebradas batem ao ritmo da brisa. É uma cidade-fantasma, quase abandonada. O motorista da Shearwater está à nossa espera, com o reboque das canoas. Antecipara nossa necessidade. Trouxe um isopor cheio de latas de refrigerantes e de cervejas. Depois de matar a sede, é hora de tirar as canoas da água. Meia dúzia de criancinhas aparecem para ver o show de homens brancos fazendo esforço físico, carregando as canoas. Eles estão alegres. Sabem que vão ganhar de presente toda a comida que sobra de nossa viagem! 


Fim da remada
Nós, pelo contrário, estamos tristes. Agora nos damos conta de que a aventura está acabando. O desejo de todos é um só. 
-  Vamos voltar para Chirundu e fazer todo de novo? 

 
 

por Margi Moss

Para obter informações sobre canoagem no Zambeze e viagens em geral pelo continente africano:  central@queensberry.com.br 

Publicado na Folha de São Paulo em 1997 e na Outdoor Magazine em 02/1999 

 

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