
Livro "Meu Everest"

Chegada a Namche Bazzar

O Everest à esquerda e o Ama Dablam à direira

Cruzando a ponte suspensa
Entrevista com Luciano Pires, autor do livro "O Meu Everest", lançado esta semana em Porto Alegre.
360 Graus O que leva um executivo a deixar o conforto e a família e se aventurar nos perigos e nas condições precárias da trilha do Everest?
Luciano - No meu caso foram duas coisas: primeiro o interesse que eu tinha em percorrer o caminho que os grandes aventureiros do começo do século passado trilharam na tentativa de vencer a montanha mais alta do mundo. As descrições que li nos livros deixavam claro que se tratava de uma trilha singular, pela beleza e pelo esforço físico. O outro ponto foi o desafio físico. Será que eu teria competência para preparar-me e vencer uma caminhada de 15 dias e mais de 200 quilômetros numa das trilhas mais altas do mundo? Foi esse desafio me motivou a tentar. A questão do conforto é
relativa. Eu jamais estaria no conforto enquanto não realizasse meu sonho...
360 Graus Por que o "meu" Everest?
Luciano - O meu Everest trata de um processo e não de uma montanha. Fala de um sonho, da pesquisa para realizá-lo, da preparação, da caminhada, da conquista, do retorno...e continua com o processo de escrever o livro, com as palestras, com os contatos com outros interessados, com a criação do site www.omeueverest.com , com uma exposição fotográfica. Tudo isso é o MEU Everest. Nesse contexto tem também a montanha mais alta do mundo. E esse
processo é só meu. Qualquer pessoa que tentar realizar algo parecido vai passar por experiências e reações diferentes e terá o seu próprio Everest.
360 Graus Quais são os riscos de tentar chegar ao Acampamento-base do Everest? No senso comum imagina-se que as quedas e as avalanches são os grandes problemas; mas quais outras transformações o corpo humano pode passar na altitude?
Luciano - O risco de quedas é uma realidade. As avalanches nem tanto, pois a trilha percorre locais de baixo risco. O grande problema é o mal de altitude, que ataca a qualquer pessoa, sem que seja conhecida uma forma de determinar como evitar. É necessário um acompanhamento constante das dores de cabeça, dos vômitos, das tonturas, do apetite, da cor da urina, enfim, de reações que apontam para a possibilidade de um edema pulmonar ou cerebral
causado pela altitude. Esse é o grande risco, e a melhor forma de minimizá-lo é seguir um ritmo lento e calculado para a aclimatação. Existem riscos de acidentes também, como o ataque de um ianque, um ataque de guerrilheiros, problemas estomacais e intestinais causados por comida ou água contaminada, além de outros. O cuidado, a observação e o respeito à montanha são as armas para atenuar esses riscos.
360 Graus Como foi o "day after", quando você desembarcou em São Paulo novamente? E como foi voltar a sentar à sua mesa de trabalho?
Luciano - Primeiro foi uma sensação incrível de dever cumprido. De saber que eu havia feito algo fora do usual, de ter diante de mim o desafio de contar o que vi e vivi. Depois, na volta ao trabalho, foi uma frustração. Eu
descobri rapidamente que, por mais que tentasse, jamais conseguiria passar para meus colegas a mínima idéia da grandiosidade daquilo tudo que vivi. É frustrante tentar descrever uma paisagem. É frustrante mostrar uma foto e ver tudo aquilo reduzido a quase nada... Frustração foi à sensação mais complicada. E também descobri que mudei um pouco no jeito de ser. Aprendi, depois de subir e descer, subir e descer, que a descida também faz parte da trilha para o Everest.
360 Graus Em alguns momentos do livro você cita o "estado de consciência" que o Everest cria. Como é este estado?
Luciano - É aquele momento em que você, sozinho, sentado no alto de uma daquelas montanhas, aprecia aquela paisagem deslumbrante e entende que perdeu completamente a noção de tempo, de distância, de dimensões. Aquilo é tão monumental que você se sente diminuído à sua real condição. A natureza é tão poderosa que chega a ser opressiva, e nos dá a consciência de que somos pequenos, insignificantes mesmo. Eu já havia experimentado algo parecido quando me envolvi com astronomia e passei noites vasculhando os céus. A mesma sensação de perda de noção de tempo e espaço aconteceu. Não acho que
isso seja privilégio do Everest. Imagino que qualquer pessoa que já tenha estado só diante do mar, da selva amazônica, e de outras situações em que o homem é confrontado com as forças da natureza, sinta algo parecido.
360 Graus O que é preciso para subir o Everest - objetiva e subjetivamente?
Luciano - Se sua pergunta é sobre atingir o cume do Everest, objetivamente é preciso dinheiro, vontade (muita vontade), preparo físico, experiência em alta montanha. Subjetivamente, é preciso ter aquela compulsão por tentar o
impossível, por ir além dos limites do corpo. Coragem, motivação e respeito pela montanha.
360 Graus Por extensão à pergunta anterior, o que é preciso para atingir umobjetivo?
Luciano - Saber ONDE quer chegar, COMO vamos para lá e o que É PRECISO para ir até lá. Nos livros, isso tem o nome de planejamento estratégico. Completa-se com MOTIVAÇÃO e com a capacidade de praticar a - ACABATIVA -, que é FAZER AQUILO QUE DISSEMOS (OU ESCREVEMOS) QUE IRÍAMOS FAZER.
360 Graus Como foi analisar o nosso mundo cotidiano lá de cima, no teto do mundo?
Luciano - Em determinados momentos fica clara nossa dependência de valores que inexistem naquele lugar. Lá não existem rodas. Tudo é transportado nas costas de pessoas ou animais. E as pessoas desenvolvem uma resistência física que chega a ser humilhante para nós. Lá quase não existe luz elétrica. E as pessoas conversam em vez de assistir televisão. Lá o objetivo principal é ter abrigo e comida. Ninguém pensa em trocar de carro, comprar TV nova ou vestir roupas de marca. São outras necessidades, outras
prioridades, um grau de religiosidade impressionante, a convivência com a miséria, o frio e os perigos... Comparado a nosso mundo cotidiano, na trilha do Everest tudo é superlativo. Temos que ser mais corajosos, mais
objetivos, mais companheiros, mais humildes, mais saudáveis, mais... Humanos.
360 Graus Como você classificaria seu livro?
Luciano - Como uma reportagem que conta à aventura de um sujeito como outro qualquer, acostumado à vida nas grandes cidades, que decide experimentar uma experiência nova. Troca à gravata por uma mochila faz um plano de viagem, tira férias, paga em prestações, despede-se da família e chega até o Acampamento-base do Everest. Eu escrevi da forma como falo, pensando em pessoas como eu. Sem frescuras, sem teorias, sem aquela história de
pregação religiosa ou ideológica. "O Meu Everest" mostra que qualquer um pode vencer uma das mais belas trilhas do mundo - ou realizar um sonho - sem precisar ser louco, super atleta, milionário ou aventureiro profissional.
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