Os adversários do Brasil 1

Tema:Iatismo
Autor: Robert Scheidt
Data: 23/8/2005

A três meses da largada para a maior regata transoceânica do mundo, continuo prestando informações que podem transmitir ao leitor um pouco do “ambiente” que cerca um dos maiores desafios do mundo esportivo.

O Brasil 1 , barco brasileiro comandado por Torben Grael, zarpou no dia 20 de agosto do Rio de Janeiro com destino a Cascais, Portugal, onde realizará forte programa de treinamentos. Esta primeira velejada longa é um teste para a tripulação que deve acostumar-se com os turnos alternados de quatro horas em vigília e quatro horas dormindo, comida desidratada e principalmente à convivência forçada entre 10 velejadores confinados no espaço reduzido do veleiro. É o momento no qual os egos devem ser esquecidos e a tolerância entre todos os componentes da equipe é fundamental. Neste período pode nascer uma equipe coesa, como também podem aparecer desistências em razão de incompatibilidades entre os componentes do grupo. É fundamental que a tripulação passe por este teste antes de iniciar a regata de volta ao mundo.

O Movistar, veleiro de bandeira espanhola comandado por Bouwe Bekking trocou cinco dos seus tripulantes após a primeira velejada de treino, na qual contornou meio mundo e quebrou o recorde de velocidade com 530 milhas náuticas navegadas em 24 horas. Dentre os novos tripulantes que ingressaram no barco estão Richard Clarck (ex Illbruck) e Mike Joubert (ex Assa-Abloy e Brunell Synergy). Em declaração à imprensa afirmaram que o Movistar é o barco que mais velejou em treinos, o que lhe dará condições de “competir” logo após a largada da Volvo, ao passo que os demais barcos apenas estarão “prontos para participar”. No afã de ampliar ainda mais o treino da tripulação o “Movistar” participou da famosa “Fastnet Race”. Foi com intenções de vencer e quebrar novos recordes de velocidade. Parece que esta previsão ousada irritou os deuses do vento que não colaboraram com as promessas do Movistar, deixando-o cruzar a linha atrás do ICAP Maximus, veleiro de 100 pés da Nova Zelândia.

Premier Challenge – Austrália. É a maior incógnita da Volvo Ocean Race. O barco foi desenhado e construído em Melboune, Austrália, por projetistas e engenheiros navais locais. É produto da perseverança do sonhador Grant Wharington. À parte o Governo do Estado de Victoria, que contribuiu com algum patrocínio, o resto é puro mistério. A obstinação de Grant Wharington é infinita. Quando ele, que é corretor de imóveis de profissão, construiu seu Maxi “Skandia – Wild Thing” e consumiu todas suas economias na empreitada, decidiu avisar sua esposa que estava vendendo a casa, onde a família morava, para financiar a construção do barco. A estréia foi na Regata Sidney-Hobart. Em alto mar perdeu a quilha, virou e ficou à deriva. Foi resgatado de helicóptero e o veleiro foi reconstruído não se sabe com que meios. Hoje compete pelo mundo com Grant no leme. Grant Wharignton, que nunca desiste, construiu seu barco Volvo 70 e estará na linha de largada da Volvo Ocean Race em Vigo em novembro próximo.

Curiosidades

  • Em nove meses de atividade extremamente perigosa a bordo é inevitável que acidentes possam ocorrer. Os barcos estarão conectados via satélite à central da Volvo, onde dois médicos fazem plantão. A bordo um tripulante é treinado para primeiros socorros. No Brasil 1 a tarefa cabe ao Joca Signorini, filho de médico, que está há semanas fazendo plantão em renomado pronto-socorro no Rio de Janeiro para aprender a dar pontos, entalar fraturas e administrar remédios a doentes. Boa sorte Joca! Não deve ser fácil ter mãos firmes e cuidar de amigos acidentados com ventos fortes e mares ferozes.

  • A única velejadora feminina desta edição é Adrianne Cahalan, navegadora do Brasil 1. A neozelandesa, advogada e meteorologista, é uma das mais experientes velejadoras de longo curso do mundo da vela.

  • Adrianne declarou-se impressionada com o sentimento nacionalista em torno do Brasil 1. Afirmou que “o Brasil 1 pertence ao país e não aos patrocinadores ou à tripulação.”

  • Regime espartano é o que aguarda as tripulações dos veleiros VOR 70:
    - banho só de balde com água salgada;
    - roupa limpa a cada 10 dias;
    - um banheiro sem porta, com vaso sanitário no fundo do habitáculo;
    - comida desidratada, ou melhor ração balanceada com nutrientes e vitaminas receitadas por nutricionistas, servida diluída com água em forma de “papinha” em potes redondos, para ser comida com colher.

  • Reza a tradição que os tripulantes que nunca cruzaram o Equador devem ser batizados por Netuno. Normalmente os “veteranos” marinheiros judiam dos novatos a serem batizados, lambuzando-os com tinta, pimenta, peixes podres e toda sorte de maldades. No Brasil 1 apenas Kiko Pellicano, Edu Penido e os “contratados” do exterior são veteranos. Eu pagaria para ver a cara do Torben e do Playboy sendo batizados pelo Kiko e a Adrienne Cahalan.

  • A Volvo Ocean Race foi vista por 800 milhões de expectadores na edição de 2001-2002, ranqueando a Volvo entre os eventos esportivos de maior exposição no mundo. No Brasil a crônica esportiva ainda não descobriu este filão.

    Encerro estas notas informando que acabo de voltar da Espanha com vitória no Campeonato Europeu de Laser, do qual participei pela primeira vez. Este campeonato foi aberto para inscrições de participantes não europeus recentemente e atraiu os melhores velejadores de Laser do mundo. Foi meu centésimo título na classe Laser. Os demais componentes da equipe brasileira foram Bruno Fontes em décimo quarto, Andréas Perdicaris em quadragésimo quarto e André Streppel em qüinquagésimo sexto, mostrando que numa flotilha de 130 barcos, o Brasil continua forte na classe Laser.

    O bicampeão olímpico e heptacampeão mundial da classe Laser Robert Scheidt vai realizar uma série de artigos especiais e exclusivos sobre a regata Volvo Ocean Race para o 360 Graus. O velejador é porta-voz oficial do evento no país, e comentará mensalmente o histórico da competição e os preparativos para a disputa. A Volvo Ocean Race é uma das mais tradicionais – e difíceis – regatas de volta ao mundo. A edição 2005 do evento terá largada no dia 05 de novembro, de Sanxenxo, na Espanha. A partir de então, os artigos de Scheidt se tornarão quinzenais, trazendo todas as emoções da disputa.



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