O Brasil 1 volta a disputar a Volvo Ocean Race nesta terça-feira (10), exatamente cinco dias depois de parar em Port Elizabeth, na África do Sul. O comandante Torben Grael confirmou que os danos, sofridos nas primeiras 48 horas da segunda etapa da regata de volta ao mundo, já estão reparados.
O velejador fala das dificuldades enfrentadas e relata que a equipe continua confiante e muito otimista em completar a competição.
Tomar a decisão de retornar para terra foi difícil?
Torben Grael:Dar meia-volta é sempre uma decisão difícil. Foi o momento de maior dificuldade que já enfrentamos. Toda a tripulação se reuniu antes de decidirmos voltar para terra. O assunto foi tão delicado que precisamos de duas horas para decidir. No final, o que pesou mais foi a segurança da tripulação e do Brasil 1.
O que foi o mais importante para que vocês decidissem voltar a disputar essa etapa?
Torben - Estamos dando a volta ao mundo e pretendemos completar a competição, com todas as suas etapas. Queremos, efetivamente, dar a volta ao mundo. Além disso, temos que pensar também nos pontos que ainda estão disponíveis e na oportunidade de preparação que temos ao completar essa etapa. Poderemos, finalmente, navegar nos mares do Sul, retomar a confiança no Brasil 1 e conhecer melhor o barco nessas condições.
Como ficou o ânimo da equipe após o incidente?
Torben - O ânimo da equipe é o melhor possível, considerando o ocorrido. Todos estão ansiosos para retomar ao mar e velejar essa etapa. Para falar a verdade, esses problemas mostraram a nossa força. Tudo o que enfrentamos mostrou o quanto é unida e eficiente a tripulação, a equipe de terra e todo o grupo em geral. Isso acabou nos deixando ainda mais fortes.
Isso quer dizer que os planos do Brasil 1 continuam ousados em relação ao restante da competição?
Torben - Sim. Nosso pensamento é exatamente o mesmo.
Você acredita ser possível chegar às 485 milhas em 24h nos mares do Sul, como os outros barcos estão fazendo?
Torben - Claro. Poderíamos igualar ou mesmo superar as marcas já alcançadas pelos nossos concorrentes se encontrarmos as condições ideais.
Vocês vão largar nesta etapa com praticamente uma semana de desvantagem em relação aos outros barcos. Isso pode fazer com que o Brasil 1 opte por uma rota diferente?
Torben - Vamos fazer a rota que seja ideal para nos levar a Melbourne com rapidez e segurança. Embora tenhamos uma grande defasagem, isso é uma competição e, se houver uma oportunidade, vamos procurar tirar proveito.
O Brasil 1 tem se destacado pelas táticas adotadas. Com a desvantagem na pontuação, vocês serão ainda mais ousados?
Torben - De maneira nenhuma. Vamos continuar velejando de mesma maneira, confiando sempre em nosso barco e em nossa equipe. Mas nosso planejamento em Melbourne, obrigatoriamente, terá de ser alterado. Temos tempo para chegar à Austrália a tempo da regata local (marcada para o dia 4 de fevereiro). Acho que podemos aportar em Melbourne ainda em janeiro. Vamos chegar poucos dias antes e ainda teremos de efetuar a pesagem do barco, prevista para todos os concorrentes.
Os danos no Brasil 1 tiveram alguma relação com a batida com o Ericsson no começo da etapa?
Torben - Não. O toque foi em um guarda-mancebo do outro lado. Foi uma colisão absolutamente irrelevante.
Esse problema específico com a estrutura do convés certamente pegou vocês de surpresa. O que foi feito agora no barco para evitar uma nova surpresa semelhante? O barco é seguro para os mares do Sul?
Torben - Com relação ao convés, reparamos a área danificada e ainda adicionamos algumas estruturas longitudinais, para reforçar ainda mais essa região. Esse conserto deixa o Brasil 1 bem mais forte do que antes da quebra e tenho certeza de que, pelo menos no convés, não teremos mais problemas.
Você acha que algum dos outros projetos do Farr pode ter o mesmo problema?
Torben - Nossos problemas foram tornados públicos assim que os constatamos. Portanto, nossos adversários já conhecem todos os detalhes. Não sei se eles terão os mesmos problemas, até porque não sei como os barcos foram construídos. Mas, se eu estivesse no lugar deles, estaria certamente preocupado.
Passados dois meses do início da Volvo Ocean Race, você acha que é possível bater o ABN Amro One?
Torben - É claro que os ABNs são mais velozes em algumas condições, mas também são mais lentos em outras. Acho que o Juan Kouyoumdjian, que projetou os dois barcos, se dedicou mais ao projeto e a essa competição e por isso os ABNs parecem melhores até agora. Os holandeses podem formar a equipe mais preparada para a prova, mas isso não quer dizer que eles são invencíveis. Nós estávamos em ótima situação quando descobrimos o problema no convés. E o Brasil 1 tem, na minha opinião, um dos melhores navegadores/metereologistas (Marcel van Triest) da atualidade.
Como o Marcel é importante nesse sentido?
Torben - Toda a informação meteorológica que recebemos é igual. Nós recebemos cartas sinóticas (pressão) e fotografias de satélites. Como as informações são únicas, a diferença fica em como utilizar esses dados. Alguns navegadores sabem utilizar a informação bem. Outros, nem tanto. E é nisso que o Marcel se destaca.
Como você avalia o desempenho dos dois novos tripulantes, mesmo com pouco tempo de regata?
Torben - O Knut Frostad e o Marcel van Triest estão muito adaptados ao time. O desempenho deles foi o melhor possível nesses dias em que competimos. Principalmente o Marcel, que ainda não estava tão integrado ao time. Algo que facilitou bastante no entrosamento foi que eu já conhecia os dois anteriormente. Velejamos juntos no barco do Knut (Innovation Kvaerner, na Whitbread de 1997/1998), o que facilitou muito nosso convívio.
De que maneira vocês viram a alteração de percurso e a introdução desses “ice gates”? O fato de os barcos não passarem mais tão ao sul é frustrante? Ou você acha que estes barcos realmente não têm condições de segurança para tal risco?
Torben - Acho que acabou frustrando um pouco a todos os competidores, pois não é normal nesse evento não poder velejar ao sul. Mas isso foi uma questão de segurança. Sem dúvida isso diminui o risco para a gente.
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