Robert Scheidt relata sobre a volta do Brasil 1 ao Rio de Janeiro

Tema:Iatismo
Autor: Robert Scheidt
Data: 17/3/2006

Depois de 20 dias de incrível performance pelos mares Antárticos, a flotilha de veleiros VO70 aportou no Rio de Janeiro (RJ). Navegaram 12.000 km nesta perna e surpreendentemente chegaram quase juntos. Cada barco traçou sua própria rota interpretando informações meteorológicas, escolheu dentre as 11 velas disponíveis aquelas que lhes pareciam otimizadas para cada situação, e no último trecho, navegando ao longo da costa brasileira, alguns conseguiram ter contato visual com outros competidores ou passaram a perseguí-los através das posições dos veleiros fornecidos pela organização.

A angústia era navegar na calmaria e no calor, após 15 dias circulando o pólo sul com ventos de 50 nós, aterrorizantes ondas gigantes e frio de 20 graus negativos. O simples fato do Brasil 1 ter participado e ter chegado a salvo no Rio de Janeiro é um enorme feito. Se havia a chance de chegar em posição melhor não lhe tira o mérito. São heróis, vencedores da epítome da vida ao extremo. Parabéns amigos. Vocês escreveram a mais importante página da vela oceânica brasileira.

Durante esta quarta perna situações de perigo foram se repetindo a cada momento, culminando com a mensagem do barco espanhol Movistar, informando que estava afundando. O Brasil 1 imediatamente ficou em alerta e iria mudar seu curso para resgatar a tripulação espanhola. Não foi necessário pois o experiente marinheiro Chris Nicholson já tinha mergulhado na água gelada que invadia o porão, prendeu um cabo de bateria nas bombas submersas e as fez funcionar, salvando o barco.

Por sorte a capacidade delas de esgotar o veleiro era maior do que a entrada de água pela quilha, permitindo que o Movistar navegasse até Ushuaia na Terra do Fogo (Argentina), para receber socorro mecânico. Reparado, seguiu na competição com um atraso de aproximadamente 1.200 milhas náuticas em relação à flotilha e chega ao Rio de Janeiro com cinco dias de atraso.

A montagem do Cape Horn pelo Brasil 1 ficou registrada em foto antológica da tripulação e comemorada com bebida e charutos, como manda a tradição. A inovação correu por conta da garrafa, que ao invés de rum ou whisky, continha legítima cachaça brasileira.

A boa notícia é que os barcos desenhados pelo escritório Farr, em especial o Brasil 1, superaram seus problemas de quilha e após 20.000 milhas náuticas, ou seja 2/3 da regata, tiraram a vantagem inicial dos velozes ABN I e ABN II (que iniciaram os treinos bem antes dos brasileiros) e poderão nas próximas pernas recuperar a vantagem de pontos da “dobradinha holandesa”.

Breves

  • Depois de 20 dias navegando no frio glacial, Paul Cayard, comandante do Piratas do Caribe, transmitiu por e-mail sua felicidade de navegar em temperaturas brasileiras e de poder tomar seu primeiro banho de chuveiro. Segundo Paul, a melhor parte foi lavar o cabelo, que depois de 20 dias de água salgada mais parecia um capacho usado.

  • Enviar o e-mail diário para a organização não é fácil, como revelou Horácio Carabelli do Brasil 1. “Digitar na mesa de navegação mais parece com uma volta num metrô paulistano descarrilado.”

  • "Temos ratos a bordo" informavam mensagens de vários barcos. Parecia infestação generalizada da praga. O estoque de chocolate diminuía com rapidez espantosa. Pudera, com este frio e a comida desidratada, os marinheiros atacavam na calada da noite.

  • Cronistas embarcados. Impressionante como o Paul Cayard (Piratas) e Knut Frostad (Brasil 1) conseguem escrever crônicas tão boas no meio do “stress” da regata. Em especial a tirada humorística do Frostad revelando que o cruzeiro marítimo que a agência “Torben e Alan” lhe havia vendido oferecia jantar na mesa do capitão, festas no carnaval carioca, etc., mas tudo se resumiu ao sofrimento a bordo do veleiro VO70. Além disto reclamou do seu rebatismo, pois teve acrescentado um “ch” no nome, passando a ser “Knutch”, em bom carioquês.

  • André Fonseca, o Bochecha, desembarcou do Brasil 1 e foi direto para Santos participar da Regata Pré-Olímpica, que definirá a equipe brasileira de vela olímpica. Pretendo encontrá-lo na raia, pois participarei das regatas classificatórias da classe Star, com o Bruno Prada.



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