
Rolex Ilhabela Sailing Week
Foto: Ricardo Chiminazzo

Rolex Ilhabela Sailing Week
Foto: Ricardo Chiminazzo

Ricardo , o -tático-, instruindo Fernando Guimarães
Foto: Fernando Gameleira
Fui convidado para integrar a tripulação do barco “Velella” na Semana da Vela de Ilhabela ou, se preferir, “Rolex Ilhabela Sailing Week - RISW”. A idéia era fazer uma “regata didática” sob a orientação do conhecido velejador André Homem de Mello.
Na sexta feira, ao cruzar o canal sentido Ilha, Junto a fragata fundeada próxima à saída das balsas, as inúmeras bandeiras e faixas oficiais e de comerciantes locais desejando boas vindas e bons ventos aos velejadores davam pistas do tom que seria o final de semana.
Chegando a Ilha Bela, passando pela Vila (Centro Histórico), cheguei ter a impressão que os preparativos não estariam prontos em tempo, mas estava enganado, à noite os stands estavam montados e bonitos. Aliás, ainda sexta feira quando fui ao Yacht Clube de Ilhabela (YCI) e recebi minha credencial, pude sentir o incrível clima da regata. As ruas da cidade ficam cheias de velejadores com suas camisetas coloridas, com os nomes das embarcações.
Sábado, logo cedo, achei que abriria o café da manhã da pousada onde fiquei hospedado, mas fui surpreendido. Pelo menos três mesas com tripulações usando laptops e mapas abertos, discutiam táticas para o treinamento daquele dia. Esse grau de profissionalismo das equipes participantes, que pude conferir também no YCI, me deixou bastante impressionado. Enfim, tomei um café da manhã seguindo as dicas que foram passadas pelo meu amigo e colunista da 360graus, Carlos Vageler, alguma coisa que pode ser resumida assim: “O suficiente para matar a fome, mas nada além disso”, afinal, eu não fazia a menor idéia de como meu estomago reagiria num veleiro.
Feito isso, fui ao barco, onde nossa equipe se encontrou pela primeira vez. O André solicitou que cada tripulante se apresentasse e dissesse sua experiência com vela: Fernando, o primeiro a se apresentar, é ex dono de barco e tem experiência internacional; o outro Fernando não tinha experiência na vela mas tinha intimidade com o mar, é dono de lancha; Henrique tem um veleiro de 23 pés e conhece bem Ilhabela; Cláudio já tinha participado de velejadas longas e é assíduo freqüentador da represa de Guarapiranga onde veleja com a filha; Rafael e Márcio tinham acabado de fazer um curso de vela oceânica em um Delta 32; Assim, quando me apresentei, tentei me limitar a dizer meu nome, de onde eu era e a profissão, mas todos ficaram esperando a conclusão e alguém então disse: “afinal, qual sua experiência em vela?”, diante de colegas tão experientes fui obrigado a dizer a verdade: Assisti “Mestre dos Mares”, no cinema e em DVD!” (eu pretendia acrescentar “Piratas do Caribe”, “Lobo do Mar” e outros, mas as sonoras gargalhas me impediram de acabar a frase...).
Foi assim, me sentindo o próprio Russel Crowe, que aprendi como fazia para soltar o barco do píer e fui aprendendo a fazer nós enquanto nos dirigíamos, a motor, a uma área de treino com vento. Assim que desligamos o motor e passamos a treinar, descobri porque tantas empresas fazem workshops em barcos: trabalho em equipe é tudo, sem exageros e sem eufemismos, ou a equipe está “sintonizada” ou a velejada não existe.
Treinamos bastante até chegar a um entrosamento razoável. Mas algumas coisas ficaram bem claras pra mim, se alguém abandona seu posto, por qualquer motivo, esse abandono será fatalmente sentido. Se por um lado não foi fácil acertar algumas manobras, por outro aprendemos diversas técnicas e nos esforçamos. Algumas coisas aprendemos “na marra”.
Uma manobra mal sucedida e nova dica do André: “Na vela, antecipação é tudo”, aí eu pergunto: Só na vela? Acho que em todos os esportes que se pretende levar a sério (e por que não dizer, no trabalho e na vida) antecipação, programação, planejamento, estratégia são tudo (Xi, olha o workshop de novo aí...).
Numa outra oportunidade, com o balão aberto, uma rajada de vento atingiu o veleiro acelerando-o e aumentando rapidamente sua inclinação, nessa hora André diz para a tripulação, com a maior calma do mundo: “vou perder o leme!” (o leme do barco perdeu eficiência hidrodinâmica) , eu respondo: “Pô cara, está bem na sua frente! E tem outro do lado esquerdo”(claro que me referia ao timão). Somente rimos da minha “ignorância“. Depois, outra lição a respeito do mar e de fisiologia: apesar de ser bastante experiente, um dos componentes passou bem mal no barco. Não pude esconder o “antes ele do que eu”, afinal, eu que era o inexperiente lá, e estava morrendo de medo de passar mal também. Mas nosso amigo não se conteve: “ Poxa!!! Nunca passei mal nas velejadas que já fiz na vida, justo nessa...”. Coisas do corpo humano, naquele dia o dele não estava bem. Sobrevivemos ao primeiro dia e, para melhorar o entrosamento, fomos jantar juntos.
Dia da regata: Novamente café da manhã com mapas e notebooks. Na hora da largada saímos com o balão aberto. Um espetáculo bonito pra quem está no píer e na regata. Infelizmente nosso barco não era um “regateiro” (alguma coisa como usar um Landau para participar de uma prova de Stock Car), mas tentamos acompanhar a prova até que problemas técnicos nos obrigaram a abandoná-la e voltar mais cedo. Enquanto lutávamos para trazer o barco de volta, a simpática Roseli, apoio de terra do barco “Mystic” dava um verdadeiro curso de como acompanhar uma regata para minha esposa. Apesar de voltar sem completá-la, vimos um belo por do sol e somente chegamos à noite. Nesse horário e nessa época do ano é importantíssimo levar um bom agasalho a bordo (Quem me deu esse dica, ao contrário do que pode se supor, não foi só minha mãe, mas de alguns bons velejadores).
Bom, de tudo isso ficou a boa experiência e a certeza que me prepararei melhor para voltar no ano que vem, aliás, recomendo uma visita a Ilhabela na semana da vela, ainda que não seja como velejador, pois vale a pena.
Para finalizar gostaria de registrar alguns agradecimentos: à Gláucia minha esposa, pela paciência infinita, tenho certeza que ela não pensava em regatas quando disse “na alegria e na tristeza...”; aos meus companheiros de barco, citados nominalmente no texto, pela amizade e por não me jogarem no mar sempre que falava alguma besteira; a tripulação do “Mystic” (Maurício, Mauro, Igor, Caseli e a simpaticíssima Roseli) pelo excelente papo e a companhia da cerveja; ao Carlos Vageler, pela preparação psicológica e ao meu primo Nélson Tonussi, o “culpado” pela minha paixão por barcos.
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