Robert Scheidt e Bruno Prada, que representarão o Brasil na classe Star na Olimpíada da China, já estão em Qingdao, onde será disputado o torneio de vela. Além da aclimatação ao fuso horário, os campeões mundiais de 2007 na cidade portuguesa de Cascais vão testar o novo barco e, principalmente, a adaptação às condições da difícil raia olímpica.
Confira entrevista com:
Robert Scheidt e Bruno Prada
A pressão de disputar esta Olimpíada é muito grande?
Robert – É um evento especial, em que a pressão é natural. É assistido por muita gente e dá repercussão. Se você vence, está no topo do mundo. Se perde, a tristeza é imensa.
Como é administrar esta pressão?
Robert – É tentar encarar a Olimpíada como mais um torneio. Vamos enfrentar os adversários que conhecemos muito. Nós estamos entre os favoritos, mas não somos a dupla favorita para o ouro. A intenção é construir a competição regata a regata. A raia é muito difícil e todos vão errar um pouquinho.
Você tem a pressão adicional de lutar pelo tricampeonato olímpico...
Robert – As minhas melhores regatas são sempre disputadas sob pressão. Sei administrar a ansiedade. O resto é tentar velejar o que sabemos.
Quem são os favoritos para o pódio no Star?
Robert - Há um grupo de pelo menos dez duplas que vai brigar pelo pódio. Os poloneses Mateusz Kusznierewicz e Dominik Zucki, os italianos Diego Negri e Luigi Viale, os suecos Frederik Loof e Anders Ekstrom, os americanos John Dane e Austin Sperry, os neozelandeses Hamish Pepper e Carl Williams, os ingleses Iain Percy e Andrew Simpson, os australianos Iain Murray e Andrew Palfrey e os portugueses Afonso Domingos e Bernardo Santos estão neste grupo.
Então, você prevê um grande equilíbrio?
Robert – Tenho certeza de que ninguém abrirá vantagem nas dez regatas. A decisão ficará certamente para a Medal Race, a grande novidade desta Olimpíada. A Medal Race, que dá pontuação em dobro, reúne as dez melhores duplas das dez regatas iniciais.
E a expectativa sobre a sua atuação e a do Bruno?
Robert - Estou muito otimista, mas sei que não será fácil. A raia de Qingdao é muito complicada e, com os ventos fracos característicos da região, os diferentes níveis das duplas ficam muito parecidos. Mas, eu e o Bruno vamos com tudo para conquistar uma medalha para o Brasil.
O que disseram os adversários sobre as condições da raia?
Robert - Todos sentiram muita dificuldade. É vento muito fraco e com correntes muito fortes. Mas, no final das contas, os melhores e mais preparados levam a melhor. Não é uma raia assim tão "lotérica".
Havia encontrado condições de raia similares antes?
Robert - Não. É muito diferente de todos os outros lugares em que tinha velejado. Mas, não é ruim para os brasileiros. A temperatura, o calor e a umidade são parecidos com o Brasil, e o brasileiro tem facilidade de se adaptar.
É possível obter informações técnicas com os chineses?
Robert - Da raia, é um pouco complicado porque ninguém fala inglês. O que é preciso fazer é ir lá e ficar tirando medições, do vento, da corrente...
Quanto tempo é o ideal?
Robert - Vamos ficar quase 20 dias antes do início das competições. Acho que é um tempo suficiente.
E a estrutura fora da água?
Robert - É a melhor que já vi em todas as Olimpíadas em que estive. Não tem nada igual em termos de estrutura. Os chineses estão se preparando e farão um grande evento. Quando vencemos o Pré-Olímpico, o público estava presente todos os dias, mesmo quando não teve regata. E isso com venda de ingresso, o que eu nunca vira em um evento-teste. A única coisa que poderia ser um pouco melhor é o vento, mas isso não dá para comprar.
Você será o porta-bandeira na abertura da Olimpíada. Como recebeu a notícia? Já esperava levar essa responsabilidade?
Robert - Foi uma surpresa enorme. Estava no Palácio do Planalto em encontro com o presidente Lula e não esperava a notícia. Normalmente, a definição do porta-bandeira é feita só às vésperas da Olimpíada, já no local dos Jogos. Fiquei muito honrado, assim como a vela brasileira deve estar. Nosso esporte tem o maior número de medalhas olímpicas.
Você fez história na Laser, com três medalhas olímpicas e inúmeros títulos. A responsabilidade é maior agora no Star?
Robert - No Star, a longevidade do atleta é muito maior. Teremos outros mundiais e outras Olimpíadas pela frente. Portanto, a China não será uma questão de vida ou morte. Temos todas as condições de ir bem. Fizemos uma boa preparação e agora vamos acertar o barco, experimentar novos acertos.
A decisão de mudar de classe foi acertada?
Robert - Já tinha feito tudo e ganho tudo o que era possível na Laser e fiquei na classe até mais tarde do que o previsto. Tinha de partir para outro desafio e na Star a longevidade é grande. A decisão de trocar de classe foi muito acertada. Falo antes da olimpíada porque tenho certeza de que não mudarei de idéia, independentemente dos resultados de Qingdao.
Como você vê a delegação brasileira nesses Jogos Olímpicos?
Robert - É uma delegação rejuvenescida, mas com grande potencial. Acredito que o grupo poderá conseguir uma campanha até melhor do que a obtida em 2004, em Atenas.
Perguntas para Bruno Prada
Você vai estrear em Olimpíada. Está muito ansioso?
Bruno - Não. Estou tranqüilo. Fui almoçar outro dia na casa dos meus pais e eles estão ‘pilhados’. Estou indo para mais uma competição na minha carreira.
Mas a pressão desta vez não é maior?
Bruno – Eu tenho a grande vantagem de estar indo com o Robert, um atleta muito experiente. Vou na cola dele. Nossa campanha no Star nos últimos três anos foi muito consistente. Fomos prata no mundial de 2006, ouro em 2007 e bronze em 2008. Além disso, tenho mais de 3.000 regatas disputadas e 15 Campeonatos Mundiais. Não sou tão inexperiente assim.
Como foi sua adaptação na dupla com o Robert?
Bruno – Foi natural. A gente foi ganhando entrosamento com a seqüência de treinos e de competições. Somos amigos há vários anos e isso ajudou bastante.
É difícil velejar com ele?
Bruno – Já temos um código dentro d’água. Procuro falar com ele apenas o necessário durante as regatas para não atrapalhar a concentração dele. Mas sempre dou os toques que acho importantes.
Está tudo pronto para disputar a Olimpíada?
Bruno – Faltam acertar detalhes no barco. Vamos testar novas velas e regulagens. Coisas pequenas.
Vocês competirão com equipamento normal?
Bruno – Fizemos opção por usar equipamento standard. O nosso barco será o Lillia, que testamos na Itália e competimos recentemente na Holanda. Teremos à disposição dois mastros e dois jogos de vela. O material pode ser usado em quaisquer condições de vento.
O barco teve problemas de medição na Holanda. Isso foi resolvido?
Bruno – A gente contratou o medidor oficial da Olimpíada de Pequim para verificar todo o barco. Foi uma iniciativa preventiva para evitar surpresas antes dos Jogos. Foram constatadas pequenas diferenças, corrigidas depois do torneio da Holanda no Estaleiro Lillia, na Itália. O barco foi enviado em seguida para a China.
Vocês vão ter ajuda de sparrings antes da Olimpíada?
Bruno – Temos um relacionamento muito bom com várias duplas, como a italiana, a polonesa e a norte-americana, com quem treinamos antes da seletiva dos Estados Unidos. A tendência é fazermos treinos em conjunto.
Quais são as chances da vela brasileira na Olimpíada?
Bruno – Acho que a equipe está dividida em três grupos. Acredito que o Bimba (RS:X), Fernanda Oliveira e Isabel Swan (470) e nós (Star) vamos brigar por medalhas. Bruno Fontes (Laser) e André Fonseca e Rodrigo Duarte (49er) estão num patamar que pode surpreender. Já Eduardo Couto (Finn), Patrícia Freitas (RS:X) e Fábio Pillar e Samuel Albrecht (470) estão indo para ganhar experiência. O iatismo brasileiro está passando por uma fase de reestruturação e possivelmente em 2012 já poderá ser visto o resultado.
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