
Izabel Pimentel primeira brasileira a fazer a atravessia do Oceano Atlântico em navegação solitário
Foto: Maurício Val/FOTOCOM.NET

Izabel Pimentel
Foto: Maurício Val/FOTOCOM.NET
Izabel Pimentel é uma mulher de coragem. Foi a primeira brasileira a cruzar o Atlântico em velejada solo, é a única representante do país na regata solo Charante-Maritme/ Bahia Transat 6.50, uma das mais desafiadoras competições de vela da atualidade. Além de Izabel, apenas outras 6 mulheres encararam o desafio entre 84 velejadores de 14 países.
Mesmo sem pretensões de lutar pela vitória, a participação de Izabel entra para a história da vela nacional. Quando chegar à Bahia, Izabel estará completando sua quarta travessia. A partir daí, o que esperar do futuro, quais serão seus próximos desafios? Nesta entrevista, Izabel fala sobre a realização de um sonho e a construção de um novo, um encontro especial antes de partir e a separação de seu barquinho.
Você precisou se classificar duas vezes para correr uma TransAt. Com a confirmação da inscrição, a largada e a primeira etapa concluída, qual o significado da regata pra você?
Izabel Pimentel - É muito bom estar aqui, compartilhar do brilho nos olhos dos competidores. Mas confesso que foi muito desgastante. Podíamos estar mais competitivos, mas foram tantos problemas no barco brasileiro... Tive a visita do arquiteto naval responsável pelo barco do Lobato, competidor português. Renato, do estaleiro Delmar Conde, de Aveiro (Portugal), disse que tenho problemas nos lemes e que a única maneira de resolver seria fazer novos. Os lemes são originais e isso me deixa muito triste. É como subir um rio contra a corrente, realmente muito cansativo, até desanima. E não foram só os lemes, o meu check list aumentou. Algumas coisas conseguimos arrumar, outras não... Fui para o hotel e passei um dia dormindo.
Você teve problemas com o balão nessa primeira etapa. O que aconteceu exatamente? Já está tudo resolvido para a segunda etapa?
IP - O problema foi com o pau de spi, ele quebrou junto à base. Mas usei o balão na travessia. No final das contas, só sobrou o estresse de quebrar algo na largada, baixa a moral logo de cara. Mas depois de uma hora já tinha o spi no alto.
Mas houve momentos em que você não usou seu balão
IP - Não usei o spi em ventos mais fortes, mas o problema não foi do pau e sim do leme que não segura, mesmo que eu leve o leme sem o piloto automático. Então, ficamos sempre em desvantagem.
Você chegou a Funchal na 33ª posição. Sem o problema da vela, é possível recuperar posições até o Brasil? Qual a sua expectativa de resultado?
IP - Acredito que sim. Vamos dar tudo dentro de nossos limites.
Mesmo com a regata já em andamento e apesar da projeção de um resultado modesto, você continua angariando apoios, como a rede de hotéis Dom Pedro, de Portugal. Qual a importância dos patrocínios e o que você pode oferecer como contra-partida para as empresas que te apóiam?
IP - Temos uma história. Não é só estar ali, tem um significado muito maior. Na França até primeira pagina de jornal fizemos, pois os franceses sabem como é dificil fazer a travessia Brasil-França. O Brasil, para estar na regata, atravessou um oceano. Mesmo sem patrocínio e com todas as dificuldades, consegui a qualificação. E onde paramos, todo mundo quer conhecer o Petit, um barquinho valente. Outro detalhe é que a presença de uma mulher da América Latina também atrai o publico, não é comum. E tudo o que é diferente chama a atenção.
Mesmo faltando poucos dias para retomar a regata, sua agenda está cheia. Nesta quinta você vai receber a visita de algumas crianças, é isso?
IP - Fiquei muito feliz quando soube que foram crianças da Instituição Abraço que fizeram os desenhos no meu barco. Há alguns anos, já tinha feito uma doação, em Brasília, à versão brasileira da mesma instituição, a Combate o Estigma com um Abraço. Eles fazem um trabalho lindo, emocionante. É muito triste saber que crianças já nascem com a doença. E é uma realidade dura, desde jovens. Mas viver é muito bom. Enquanto houver luz, há um caminho e enquanto há um caminho, existirão motivos para sorrir. Quero sorrir com eles, compartilhar momentos especiais com as crianças. Vai ser muito bonito.
O que a Izabel vai fazer quando chegar ao Brasil?
IP - Voltar a Paraty e escrever o livro sobre os dois anos com o Petit. Serão mais de 24 mil milhas de muitas histórias. Às vezes acho até que está mais para novela mexicana... (risos).
É verdade que você quer dar a volta ao mundo? Como planejar uma aventura como essa? Para quê dar uma volta ao mundo? É possível dizer quando você partirá para essa aventura?
IP - Eu nao quero dar a volta ao mundo. Eu vou dar a volta ao mundo. Começo os preparativos em janeiro de 2010. Será uma volta ao mundo sem escalas e nas altas latitudes. Uma vez uma amiga, a Julie, me disse “você vai dar a volta ao mundo por ser da sua natureza”. Não tem outros ‘por quês’. É como perguntar a nós, mulheres, para quê ter filhos?
Sua volta ao mundo, certamente, não será a bordo do Petit Bateau. Qual o destino do seu barquinho após sua chegada ao Brasil? Vai conseguir se desapegar dele?
IP - Foram muitas milhas com meu Petit e certamente existe sintonia, cumplicidade, alma e muito sentimento. Vai ser difícil, mas tudo tem início, meio e fim. O fim dessa relação está perto, mas ele certamente continuará se aventurando. Foi construído para isso.
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