Mergulho e ecologia: Confira entrevista com Victor Gioranelli

Tema:Mergulho
Autor: Chris Bueno
Data: 1/3/2005

EXCLUSIVO
O fundo do mar é um dos ambientes mais bonitos e mais frágeis que existem. Sua beleza exótica inspira as mais diversas histórias e aguça a curiosidade do homem. Quem mergulha sabe como cada mergulho traz uma nova e fascinante descoberta. E por isso cada vez mais pessoas se interessam por mergulhar. O mergulho é uma das atividades de aventura mais praticadas no Brasil – país que tem nada menos que 8.500 km de costa para ser explorado.

Uma das principais preocupações na hora do mergulho é com a ecologia. A visitação às unidades de conservação tem sido vista como a principal alternativa para a sustentabilidade dessas áreas. No entanto, se ocorrer de forma descontrolada, pode acabar contribuindo para degradar a biodiversidade local. Praticado com irresponsabilidade, o mergulho pode se tornar prejudicial ao meio-ambiente marinho. Praticado com consciência ecológica, a atividade é uma poderosa aliada na preservação da flora e da fauna desse ambiente.

O Ibama e o Ministério do Meio Ambiente realizam campanhas para adaptar práticas de mínimo impacto adotadas hoje em vários países em atividades esportivas como a do mergulho. E várias escolas de mergulho estão promovendo cursos “ecológicos”, que ensinam a importância do cuidado com o ambiente marinho, enfatizam o respeito à natureza e incentivam sua preservação. Victor Gioranelli é um dos mergulhadores que empunham a bandeira do mergulho ecológico. Victor é instrutor internacional, tem mais de 400 mergulhos turísticos e 800 mergulhos em curso, e é sócio da empresa Dive Tortuga, escola de mergulho de Comandatuba, onde ministra aulas de mergulho ecológico. Apaixonado pelo mar, Victor também é marinheiro auxiliar de convés e surfista, e realiza um trabalho social em Olivença (Vila turística ao Sul de Ilhéus reconhecida pela FUNASA como comunidade indígena) com pré-adolescentes, preparando meninos e meninas para a prática do esporte e para a preservação do meio ambiente.

Nessa entrevista exclusiva ao 360 Graus, Victor fala de mergulho, ecologia e responsabilidade social. Confira!


360 Graus - Em parceria com o Ibama e a Marinha, a empresa Dive Tortuga afundou um barco em Comandatuba e criou um coral artificial, inibindo assim a ação de redes e a pesca predatória. Explique como foi o processo e qual a importância ecológica de um coral artificial.
Victor Gioranelli - Para afundar um barco com o intuito de torná-lo um coral artificial é importante conhecer qual o melhor lugar, estudando a topografia do terreno, conhecendo qual tipo de relevo (areia, lama, cascalho). O ideal é que seja longe de abrigos naturais (corais, pedras) para que os animais marinhos possam se abrigar no naufrágio como opção. É importante também conhecer qual tipo de corrente marinha ocorre no local, a distância e a profundidade. A importância de um coral artificial é a inibição da ação de redes de pesca, criando uma base para que várias espécies se desenvolvam no local. Esse naufrágio é conhecido como Balsa Comandatuba e está a 16 milhas do hotel e 8 milhas da praia. Tem um fundo de areia de 20 metros de profundidade e tem uma variedade de vida marinha muito grande.

360 Graus - A empresa proporciona aos turistas um mergulho ecológico, valorizando o meio ambiente e educando para a necessidade da integração com a natureza. Como são essas aulas?
Victor Gioranelli - No primeiro contato (batismo) o aluno é treinado para fazer um mergulho com segurança. Ele é informado sobre alguns procedimentos básicos (como não pegar nada do fundo do mar, tomar cuidado com os animais marinhos). Durante o treinamento do curso básico de mergulho damos ênfase à preservação do ambiente marinho e da importância da harmonia entre o homem e a natureza.

360 Graus - Fale um pouco sobre seu trabalho social em Olivença (Vila turística ao Sul de Ilhéus reconhecida pela FUNASA como comunidade indígena) com pré-adolescentes. Como surgiu essa idéia?
Victor Gioranelli - Com a ajuda de vários amigos ligados ao esporte fundamos a AOS (Associação Olivença de Surf), com o intuito de preparar os jovens para o futuro junto com o esporte. A AOS, além do circuito interno de surf, trabalha com educação ambiental na preservação e limpeza das praias. Também damos aulas de capoeira (grupo Camarada Camaradinha, mestre Ramiro) e aulas de percussão (grupo Fazendart).

360 Graus - Quais são suas maiores preocupações quando mergulha e quando dá aulas de mergulho?
Victor Gioranelli - A segurança durante o mergulho é o mais importante. Cuido pra que o aluno fique a vontade, respeitando seus limites. Fico durante todo o tempo ao lado do aluno, apontando a beleza do fundo do mar, mas sempre, através dos sinais ensinados no curso, perguntando se está tudo bem, se a respiração está ok, etc. É um esporte absolutamente seguro, costumo brincar dizendo que é tão seguro quanto jogar boliche.

360 Graus - Você já presenciou ou tomou conhecimento de mergulhadores em total desrespeito com o meio ambiente? Como foi? Como isso afeta a atividade e o meio ambiente?
Victor Gioranelli - Uma vez estava mergulhando na ilha de Búzios (Angra dos Reis) havia um mergulhador fazendo caça submarina com cilindro. Além de ser proibido por lei é uma covardia contra os animais marinhos e muito perigoso para outros mergulhadores que estejam no local.

360 Graus - Por outro lado, você já tomou conhecimento de outros projetos envolvendo mergulho e ecologia?
Victor Gioranelli - Existem vários projetos desse nível no Brasil. Tenho um amigo mestre em Biologia que está preservando os recifes de coral da península de Maraú, Barra Grande BA.

360 Graus - Quais são os principais problemas ecológicos que você percebe durante os mergulhos?
Victor Gioranelli - Os barcos são poluidores, a freqüência de muitos mergulhadores no local espanta várias espécies de peixes podendo inibir a reprodução dessas espécies.

360 Graus - Como essa atividade pode ajudar na preservação da ecologia?
Victor Gioranelli - O mergulho turístico ajuda a integrar as pessoas com a natureza, desenvolvendo a consciência ambiental. Hoje vários empresários ajudam ongs de preservação ambiental. Quanto mais se conhece o fundo do mar, mas se quer preservar.

360 Graus - Como a atividade de mergulho está se desenvolvendo no Brasil em relação a esta preocupação ecológica?
Victor Gioranelli - Nós que trabalhamos com mergulho precisamos girar, ter lucro. O turismo é a melhor opção no momento. Existe muita gente boa, fazendo a coisa certa, mas falta mais integração e até mesmo apoio do governo. Mas acho que estamos no caminho certo.

360 Graus - Quais são as regras básicas que um mergulhador deve obedecer para que sua atividade não afete o ambiente marinho?
Victor Gioranelli - Nunca retirar nada do fundo, evitar o máximo tocar nos corais, não caçar, não jogar lixo no mar e retirar todo lixo possível do fundo.



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