Patas marinhas: conheça o grupo dos crustáceos

Autor: Armando de Luca
Data: 8/2/2002

Como está o amigo internauta-sub? Após um descanso de verão, voltei com a coluna sobre seres vivos, desta vez abordando o mais numeroso grupo existente no planeta, os artrópodes. São os animais que tem patas articuladas e um esqueleto externo (exoesqueleto) formado por quitina (um tipo de proteína), às vezes impregnado com carbonato de cálcio.

Os artrópodes conquistaram todos os ambientes da biosfera e chegam a somar cerca de três vezes mais espécies do que todas as demais espécies animais juntas. Assim, podemos dizer que eles são os verdadeiros donos do mundo. Para estudar melhor tão numeroso grupo, os cientistas dividiram em sub-grupos: insetos (moscas, abelhas, borboletas, etc.), crustáceos (caranguejos, camarões, lagostas, etc.), aracnídeos (aranhas, escorpiões, carrapatos, etc.) e miriápodes (piolhos-de-cobra, centopéias, lacraias, etc.). Como você já deve ter analisado, o grupo que nos interessa como mergulhadores é o dos crustáceos.

As principais características dos crustáceos são: corpo dividido em cefalotórax (fusão da cabeça e do tórax – a “cabeça” dos camarões e lagostas) e abdome, mandíbulas utilizadas para se alimentar, dois pares de antenas (órgãos sensoriais), cinco ou mais pares de patas no cefalotórax e respiração branquial (predominantemente aquáticos). A grande maioria apresenta sexos separados, mas existem algumas espécies hermafroditas, como as cracas. Os ovos são incubados até o nascimento das larvas, geralmente planctônicas e passam por metamorfose para chegar à forma adulta. Mudança da “casca”

Assim como os demais artrópodes, os crustáceos precisam trocar seu exoesqueleto para poder crescer, já que se encontram “aprisionados” em seu interior. Dessa maneira, eles literalmente abandonam o esqueleto velho, seu corpo mole cresce rapidamente e eles produzem um novo esqueleto, maior que o anterior, que vai endurecer e continuar seu papel protetor. Esse mecanismo é conhecido como “muda” ou “ecdise”. Em algumas ocasiões chegamos a encontrar um exoesqueleto velho abandonado e imaginamos que se trata de um animal morto, tamanha é a perfeição da troca efetuada.

Os hábitos de vida dos crustáceos são os mais variados, predominando espécies marinhas, mas também sendo encontrados em águas salobras, água doce e até em ambiente terrestre. Existem espécies parasitas (os isópodes – semelhantes ao “tatuzinho-de-jardim” – que aparecem sobre a pele e brânquias de muitos peixes e até de tubarões); espécies de vida livre (a grande maioria, como os camarões e lagostas); as cracas, que são os únicos crustáceos que produzem uma concha calcária e vivem fixos a algum substrato; espécies planctônicas (microcrustáceos do plâncton), nectônicas (camarões que nadam na coluna d’água) e bentônicas (a maioria, vivem associados ao fundo do mar).

Nos mergulhos, costumamos observar com maior freqüência um grupo conhecido como decápodes, que são os crustáceos mais numerosos, de maior tamanho e predominantemente marinhos. Nestes animais, o cefalotórax apresenta cinco pares de patas, que podem ou não possuir pinças. Geralmente, o primeiro par é o que as apresenta com maior porte. Suas cores podem estar adequadas ao ambiente em que vivem e para isso contam com cromatóforos (células especiais pigmentadas) e uma variedade de pigmentos no exoesqueleto. Seu exoesqueleto é impregnado com carbonato de cálcio, como comprova a dureza da “casca” dos siris, caranguejos e lagostas.

Onde encontrar?

Para encontrarmos esses animais em nossas incursões subaquáticas, devemos estar atentos às frestas e reentrâncias entre as rochas e corais, já que geralmente eles gostam de estar abrigados, já que são muito importantes nas cadeias alimentares, ou seja, viram petisco de muitas outras espécies... Boa parte possui hábitos noturnos, quando podemos encontrá-los fora das tocas à procura de alimentos. Nos mergulhos noturnos, conseguimos também localizá-los quando a luz das lanternas reflete em seus grandes olhos no interior das tocas.

Acho que vale a pena citar algumas curiosidades sobre esses animais. Como, por exemplo, para distinguir um siri de um caranguejo, observe o último par de patas: se terminarem em forma achatada como um remo, são de um siri e, se terminarem em forma de unha, pontiagudas, são de um caranguejo. Quando encontrar um tímido caranguejo dentro de uma concha de molusco, trata-se do ermitão (ou bernardo-eremita ou ainda paguro), cujo abdome é mole e o obriga a ocupar uma concha vazia para se proteger, obrigando-o também a buscar outra concha maior quando cresce (foto 1, paguro em sua concha).

Nas águas quentes do Brasil e no Caribe vive o caranguejo aranha, com aproximadamente de 20cm de envergadura e um espinho (rostro) frontal, mostrando coloração alaranjada e listras no corpo (foto 2, caranguejo aranha do gênero Stenorhynchus). Enquanto isso, no Japão, outra espécie de caranguejo aranha chega a ter 40cm de cefalotórax e envergadura de 4m (isso mesmo, metros).

As lagostas espinhosas que ocorrem no Brasil, Caribe, Sul da Califórnia e Mediterrâneo, medem não mais do que 40cm, pesam até 2 quilos e possuem antenas longas e cobertas por pontiagudos espinhos voltados para a frente, como ocorre também com o corpo (foto 3, lagosta do gênero Panulirus). No enfrentamento com algum predador, se acuadas, chegam a projetar corpo e antenas para a frente tentando ferir o agressor. Enquanto isso, as lagostas americanas têm fortes garras no primeiro par de patas e carecem de espinhos, porém chegam a 60cm de comprimento e até 22 quilos! A captura desses animais tem causado preocupação com a preservação de suas espécies.

Um parente próximo das lagostas encontrado no Brasil e Caribe é a cavaquinha, que parece uma lagosta desprovida dos espinhos e das longas antenas, já que as suas são curtas e um dos pares se assemelha a pequenas chapas frontais (foto 4, cavaquinha do gênero Scyllarides) . Em ambos casos, são encontradas preferencialmente escondidas em tocas entre rochas e corais.

Muito curioso é o comportamento de algumas espécies de camarão, que mostram uma associação mutualística (ambas as espécies são beneficiadas) com espécies que seriam potencialmente suas predadoras. É o caso dos camarões limpadores (camarões-palhaço e camarões-bailarinos), que entram na boca e nas cavidades branquiais de peixes como as garoupas retirando os parasitas que os importunam (foto 5, camarão-palhaço da espécie Stenopus hispidus e foto 6, camarão-bailarino da espécie Periclimenes yucatanicus).

Poderia citar uma infinidade de outras curiosidades, mas fica uma recomendação para você: mergulhe, observe, atente aos detalhes e, sempre que quiser, mande um e-mail para trocarmos idéias, relatar o que você viu. Aguardo seu contato para um encontro submarino, ok?

Grande abraço e águas roxas para todos.


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