

Fotos: Divulgação
Entrevista: Guilherme Rocha vai para o Mc Kinley, sua quarta conquista dentro do projeto Sete Picos
Engenheiro, aventureiro, atleta, organizador de eventos e empresário. E conquistador. Guilherme Rocha, colunista do 360 Graus, vai para sua quarta conquista dentro do projeto de sua vida (como ele mesmo diz), os Sete Picos. Ele já subiu o Aconcágua, na Argentina; o Kilimanjaro, no Quênia; e Elbrus, na Rússia.
Nesta segunda (04/06), ele saiu de sua casa em Resende (RJ) para conquistar o Mont Mc Kinley (6.194m), a mais alta montanha da América do Norte, no Alasca.
Gui Rocha não tem dia para voltar. Tem uma conquista a fazer. Desde a chegada até o acampamento base, nada será fácil. O montanhista tem de encarar um avião monomotor e andar alguns quilômetros na neve sem fim para depois, em um dia de bom tempo, atacar o cume. A subida leva nove horas e mais seis de descida.
Nesta entrevista, pouco antes de embarcar, Gui conta o porquê do fascínio pelo Mc Kinley, como planeja a escalada, de como as empresas patrocinadoras ajudam na conquista e do seu encontro com Deus no cume da América do Norte.
360 - Gui, porque a curiosidade em fazer os Sete Picos? Muitos montanhistas já o fizeram? E brasileiros?
Gui Rocha - Os Sete Picos é um projeto deslumbrante, primeiro pela diversidade de lugares que passamos em cada pedacinho do Mundo, sempre aliado a paisagens belíssimas. Depois pelo aspecto cultural dos povos. Diria que é uma boa oportunidade de ver o mundo do alto, e por sete vezes. Este é o meu sonho e estou indo para a quarta etapa. Dos brasileiros, somente o Waldemar Niclevicz fez.
360 - Essa é sua quarta etapa de conquista.
Quais os critérios que o levaram a escalar agora o Mc Kinley neste momento e não antes ou depois dos outros picos que fez?
Gui Rocha - O Aconcágua, foi a primeira opção antes mesmo de pensar em fazer o projeto. Só depois comecei a pensar mais alto. O principal critério foi a experiência e a maturidade para encarar o Mc Kinley somente agora. Hoje já me sinto preparado para escalar o Everest.
360 - Qual a maior dificuldade?
Gui Rocha - Além da logística complicada, porque desceremos de um monomotor com trem de pouso de skis sobre geleiras, vamos andar quilômetros puxando um trenó com todo o equipamento e enfrentar paredes de até 90 graus de inclinação. Com certeza, nosso principal adversário é o frio. De sensação térmica, podemos chegar a pegar mais de 120 graus negativos. Por isso o Mc Kinley é considerada a montanha mais fria do mundo.
360 - Como vai montar sua mochila? Quanto deverá pesar?
Gui Rocha - Darei uma reforçada no meu vestuário por causa do frio, mas fora isto é basicamente o que eu levo para toda montanha. Desta vez, estarei com um material especial de filmagens, contendo até um painel solar, já que as imagens serão divulgadas pelo Fantástico, na Globo. No total, devo levar algo em torno de 50 quilos de bagagens.
360 - Qual o vestuário para enfrentar o frio? E os cuidados especiais?
Gui Rocha - Do pé a cabeça estamos cobertos por tecnologia. Polartech, Goretex, Ultrex, são alguns dos tecidos sintéticos que nos permitem enfrentar sensações térmicas tão baixas. A pergunta foi bem feita, pois enfrentamos o frio, mas sentimos ele. Depois que estamos completamente vestidos, nossa roupa pesa cerca de 10 quilos.
É muito importante ser prudente e respeitar os limites da montanha e do nosso corpo. Enfrentamos uma grande variedade de problemas, que faz da alta montanha um dos esportes mais duros e difíceis do Mundo.
Há cuidados especiais para o montanhista de alta montanha, devido a dificuldades de pouco oxigênio na alta montanha. No caso especial do Mc Kinley, temos que ter muito cuidado com as extremidades (mãos e pés) por ser onde a circulação tem mais dificuldade de correr. Além disto, é muito importante, não desviarmos da rota tradicional devido a grande quantidade de gretas (pequena porção de neve sobre grandes fendas).
360 - Quem vai com você para o Mc Kinley? A companhia é importante para enfrentar o desafio?
Gui Rocha - São cinco anos que escalo com o Dario Nascimento e já passamos grandes roubadas nas montanhas. Quem já viu ele pessoalmente não dá nada para o baixinho... Costumo dizer que ele não pesa nem um saco de cimento. Mas é muito forte, se aclimata bem e tem uma técnica apurada. Na alta montanha, é altamente recomendado que escalemos pelo menos em dupla, e diria que nossa dupla é forte.
360 - Quais são os produtos diferenciados que você vai usar na conquista? Há algo em experimento do tipo mochila, roupa?
Gui Rocha - Esta é a montanha que mais estou levando equipamentos nacionais. Existe muita gente que reclama que no Brasil não tem equipamentos bons e quero provar num dos campos de testes mais inóspitos do mundo que temos sim.
Minha mochila é da Curtlo, minha bota é da Tribo dos Pés, roupas da Osklen e alguns acessórios da Adventure Gears. Até uma placa solar que usarei para carregar meu notebook e baterias das filmadoras são nacionais. Quando voltar, todos os produtos serão criteriosamente avaliados e se preciso reformulados. É muito bacana dar uma contribuição deste tipo.
360 - Esse é um sonho de muitos montanhistas, aliás, alguns sonham com apenas dois ou três picos que vc quer fazer. Por que é tão difícil? O esporte é caro?
Gui Rocha - São duas grandes barreiras que temos que enfrentar. A primeira aqui embaixo que é levantar os altos recursos, num país com muitas dificuldades financeiras e em investimento em esporte, como é o Brasil. A segunda é vencer os desafios inerentes da montanha, que é também muito difícil. Dizer qual das barreiras é mais difícil de ser superada é complicado, mas você tem que ser ao mesmo tempo empresário e atleta.
Com um bom projeto e anos de estrada, o que traduz em credibilidade, conseguir patrocínio tem ficado mais fácil. Continuo com dois patrocinadores que me acompanham desde as primeiras montanhas, a Indústria Nucleares do Brasil e a Ovomaltine. Recebi adesões importantes no projeto, como a Curtlo, Tribo dos Pés e Osklen. Mas as dificuldades são extremas, o esporte é muito caro.
360 - Gui, você ainda está aqui, em Resende, mas o que imagina que fará quando chegar no cume do Mc Kinley?
Gui Rocha - Primeiro, entrar em sintonia com Deus, lá em cima estamos mais perto Dele. Levantar a nossa bandeira que representa todas as pessoas que tem dado força na trajetória do Projeto Sete Picos. Todo cume não é vencido só com meu esforço, mas pela corrente positiva que me empurra para cima. Em cada gesto de uma vitória, quero demonstrar o quanto é prazeroso vencer uma barreira, superar limites. O binômio limites/conquistas traz para mim a essência da felicidade. Se supere, busque uma conquista e prove esta essência. Seja feliz!
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