
Airton Ortiz
Foto: Divulgação

Everest
Foto: Airton Ortiz

Nepal - Pumori
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Airton Ortiz
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Ele é jornalista especializado em esportes de aventura e escritor com seis livros publicados (um deles recentemente premiado). Montanhista experiente, conhece mais de cinqüenta países e já percorreu o mundo em busca de aventuras – especialmente aquelas que pudessem ser transformadas em boas histórias. Este é Airton Ortiz, uma das maiores autoridades em esportes de aventura e expedições do Brasil. Impulsionado por sua imensa curiosidade intelectual, diz que sua curiosidade só vai acabar quando chegar ao “cume de sua própria montanha”. Enquanto isso, continua viajando e conhecendo países, povos e cultura – e transmitindo todo seu conhecimento em seus livros. Confira entrevista exclusiva!
360 Graus - Qual foi sua primeira grande aventura?
Airton Ortiz - Minha primeira grande aventura foi nascer. Considero o ato de viver a maior de todas as aventuras, embora seja um desafio do qual ninguém consiga sair vivo. Materialmente falando, claro. Mas, como cedo aprendemos, o importante não é a conclusão da viagem, mas o seu caminho. Aprendi com um sherpa budista no Himalaia que a morte não é importante, pois ela é inevitável, não temos poder sobre ela; mas sim o que fazemos com a nossa vida, pois essa realmente está em nossas mãos. Quando cheguei ao cume do monte Kilimanjaro, a montanha mais alta da África, pela primeira vez, em 1977, pude descobrir isso: a escalada foi muito mais importante do que o cume. Posso dizer que essa foi a minha primeira grande aventura propriamente dita.
360 Graus - Você já viajou por diversos países através do planeta. Qual te marcou mais?
Ortiz - Pela geografia, o Nepal; pela beleza selvagem, a Tanzânia; e pela cultura, isto é, por seu povo, a Índia. Mas eu não gostaria de morar em nenhum deles. Para morar, ainda prefiro o Rio Grande do Sul. Se me arrancarem as raízes culturais, acabam comigo. Assim como os grandes jacarandás da Praça da Alfândega, em Porto Alegre, nenhum ser humano sobrevive sem raízes.
360 Graus - Que lugar você adoraria conhecer, mas ainda não teve a oportunidade?
Ortiz - Os fiordes da Noruega. Sempre me disseram que é um dos lugares plasticamente mais bonitos do mundo, e ainda não fui lá. E o pior é que nem tenho planos para fazê-lo. Acho que é um preconceito contra a organizada Europa. Ainda não descobri bem porquê, mas sempre me sinto mais à vontade no caos multicolorido do que os norte-americanos chamam de Terceiro Mundo. É que entre a técnica e a intuição, fico com a segunda alternativa. Acho que sou mais “artista” do que “técnico”. E como vocês sabem, de artista e louco todo mundo tem um pouco, especialmente eu.
360 Graus - O que te impulsiona a continuar viajando sempre?
Ortiz - Minha curiosidade intelectual, essa energia que me põe em movimento. Essa curiosidade só vai acabar quando eu chegar no cume da minha própria montanha. Espero.
360 Graus - Quando e como você decidiu escrever sobre suas expedições?
Ortiz - Quando cheguei à conclusão que já estava qualificado o suficiente para me sustentar com o trabalho resultante das minhas viagens, em vez de pagar para fazê-las. Isso foi no dia e na hora em que eu completei 40 anos de idade e decidi que dali para frente, em vez de acumular dinheiro, passaria a acumular experiência de vida, isto é, méritos. E como sabemos, todo mérito deve ser conquistado, assim como toda conquista deve ser merecida. Esse é o verdadeiro desafio das nossas vidas, embora, infelizmente, nem todos tenham se apercebido disso.
360 Graus - Como você define o roteiro de uma expedição e como se prepara para uma viagem?
Ortiz - Primeiro escolho a região que pretendo visitar. Por exemplo: Amazônia. Depois, estabeleço um desafio, algo que vá me por em movimento dentro dessa região. No caso da Amazônia, atravessar do Pacífico ao Atlântico pelos rios que cortam a grande floresta. Assim, determino um ponto de partida e um ponto de chegada. O que ocorrer entre esses dois extremos, isto é, o imponderável, é o que eu chamo de aventura. Aventura, para mim, é o aprendizado resultante do choque entre a minha realidade e a realizada dos lugares desconhecidos por onde passo. Desse conflito, surgem as histórias que conto nos meus livros.
360 Graus - Qual sua maior preocupação quando está preparando uma nova viagem e quando está viajando?
Ortiz - Na preparação da viagem me preocupo em me habilitar o máximo possível para interagir com as realidades por onde vou transitar. Se vou para o Saara, preciso saber andar de camelo; se vou para o Himalaia, preciso saber escalar montanhas; se vou para a África selvagem, preciso conhecer o comportamento instintivo dos grandes animais. E, se vou para a Índia, preciso saber porque o Taj Mahal é do jeito que é, qual sua história, o que ele significa para seu povo. Preciso estar preparado para esses conflitos, pois deles é que vão surgir os novos conhecimentos. Caso contrário, eu seria apenas um estranho estrangeiro vagando por terras ainda mais estranhas, sem a menor interatividade. E, durante a viagem, minha maior preocupação é a de tentar perceber a vida como os moradores locais a percebem. Preciso despir-me dos meus padrões comportamentais, abandonar os meus métodos tradicionais de avaliação e lançar-me num novo aprendizado, com o coração e a mente o mais aberto possível. Senão, em vez de absorver ensinamentos, vou apenas chocar-me contra essas novas sabedorias.
360 Graus - Nas viagens qual é o seu principal objetivo?
Ortiz - Experimentar novos desafios, enfrentar novos padrões de comportamento, tanto materiais como metafísicos. Depois, colhê-los com minhas habilidades de jornalista e transmiti-los aos meus leitores.
360 Graus - Qual a sensação que fica quando você volta de viagem?
Ortiz - Quando a viagem está chegando ao seu final, começo a sentir saudades da região por onde estou passando. Quando chego em casa e começo a escrever sobre tudo que presenciei, é como refazer a viagem, só que gora em câmara lenta. Nesses momentos ainda acabo descobrindo coisas, nuances, que haviam passado despercebidas na correria da viagem. É como regurgitar emoções para comê-las de novo.
360 Graus - Quando você escreve um livro sobre suas expedições, o que procurar focar?
Ortiz - Ao relatar os acontecimentos das minhas andanças, além de transportar o leitor para dentro da viagem, procuro envolvê-lo nas mesmas sensações que fui envolvido quando estava na estrada. O leitor precisa sentir-se integrante da expedição, curtir e sofrer comigo cada minuto percorrido. É-me comum receber e-mails dos leitores contando-me que, quando terminaram a viagem, isto é, chegaram ao fim do livro, estavam tão cansados quanto eu. Um leitor confessou-me que, após chegar comigo ao cume do Kilimanjaro, sentiu dores musculares nas pernas durante uma semana, exatamente o tempo que eu também levei para recuperar-me da escalada. Só que esse detalhe eu não havia contado no livro.
360 Graus - Durantes suas inúmeras expedições já deve ter passado por diversas experiências inusitadas. Houve algum fato engraçado que marcou alguma de suas viagens?
Ortiz - A capacidade de rir de si mesmo, além de ser sintoma de saúde mental, é um dos principais ingredientes para quem deseja viajar por conta própria. O bom humor é fundamental para a gente rir, em vez de chorar, quando precisa comer carne crua de baleia no Alasca, tomar chá com manteiga rançosa no Tibete, alimentar-se com as mãos na Índia, limpar-se sem papel higiênico no Nepal, cair sentado num atoleiro na Amazônia ou desabar do lombo do camelo em meio ao deserto do Saara. É preciso achar graça até quando os vigaristas nos passam a perna na hora de trocar dinheiro na rua.
360 Graus - Qual foi a situação de maior risco por que você passou durante uma expedição?
Ortiz - Existem dois tipos de riscos: os riscos provocados pelas adversidades da natureza, como avalanches, desabamentos, animais selvagens... e os riscos provocados pelos humanos. Com relação aos riscos provocados pela natureza, podemos nos prevenir com treinamento adequado e conhecimento do lugar para aonde vamos. Já os ricos provocados pelos humanos são os piores, pois totalmente imprevisíveis. No ano passado, no deserto do Saara, acabei preso pelo Exército Egípcio sob o pretexto de que eu estava cruzando, sem licença, uma zona de guerrilha muçulmana. Quer dizer: para evitar que os adversários do governo me prendessem, o próprio governo me prendeu.
360 Graus - Dos 50 países que conhece, qual é o seu preferido? Você prefere conhecer novos lugares ou visitar novamente lugares conhecidos?
Ortiz - Os meus países preferidos são aqueles que eu ainda não conheço. Infelizmente, não vou viver o suficiente para conhecer o mundo todo, pelo menos da forma como eu gostaria, muito menos para visitar mais de uma vez o mesmo lugar. Exceção apenas quando esse lugar faz parte de um novo roteiro.
360 Graus - Você já está planejando sua próxima viagem? Pode nos falar um pouco sobre ela?
Ortiz - Para aonde vai a humanidade ainda é uma grande incógnita, mas de onde ela veio já sabemos: centro-leste da África. O primeiro vestígio comprovadamente humano encontrado no planeta tem seis milhões de anos. Ele precisou evoluir durante dois milhões de anos para se tornar bípede, um Australopithecus. Mais dois milhões de anos e já tínhamos habilidade manual, um Homo habilis. Evoluímos para Homo erectus e, posteriormente, Homo sapiens.
Há 195 mil anos, o Homo sapiens africano atingiu sua mais alta performance: Homem Moderno, nossa refinada espécie! Viajante e aventureiro por natureza, foi se espalhando pelo planeta e tomando conta do mundo, substituindo os hominídeos que haviam saído da África antes dele. Como uma corrida de bastão, sete mil gerações depois o toque humano atingiu o Brasil.
Nos próximos meses de junho, julho e agosto eu seguirei as pegadas desse povo, pela primeira vez na história um homem refazendo todo o caminho percorrido por nossos ancestrais brasileiros. Como eles, sairei da Tanzânia, subirei pela África até o Oriente Médio. Cruzarei pela Mongólia e Sibéria, entrarei nas Américas pelo Alasca e descerei até Minas Gerais, onde viveu Luzia, há 11 mil anos, a primeira brasileira de quem se tem notícia. Tudo por terra, com exceção da travessia da Sibéria para o Alasca, e utilizando transporte público local.
Acho que vai render uma boa história para contar aos meus leitores.
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