Após os escaladores da outra cordada (Bula e Constant) descerem, comecei a guiar a via. Antes de começar a guiar dei o meu tradicional aperto de mão e falei: - Boa escalada para nós!
Parei em P1 e comecei a dar segurança para Paulinha, que para primeira vez na via, estava escalando muito bem, com passadas seguras e rápidas, chegando logo junto de mim em P1. Ela me passou o material e montou minha segurança, então parti para guiar o segundo esticão. Antes de começar fizemos o comentário de que essa transição do dia para noite era pior do que já escuro, pois tirava a noção de profundidade das agarras.
Prossegui na guiada e quando entrei no lance da retinha do "Às" onde costumo fazer meio que em oposição, a corda prendeu lá embaixo e eu falei: - Paulinha, libera a corda!
Eu estava num lance delicado e tive que ficar parado para ela conseguir desprender a corda. Quando conseguimos desprender, continuei guiando e disse para ela: - Paulinha, se liga que aqui é o "Crux"! Na verdade falei brincando "Chrux", e ela disse carinhosamente para eu me preservar, pois já estava escurecendo: - Júlio, se você não quiser fazer o crux tudo bem, voltamos daqui.
Como já fiz a via várias vezes e tinha feito no dia anterior falei para ela: - Tá tranqüilo, só se liga na seg (segurança).
Cheguei em P2, montei uma parada equalizada e comecei a dar segurança para Paulinha. Ela veio muito bem, fazendo fácil a retinha do "Às" e quando entrou no "Crux" que é um 6ºSup delicado, já estava um pouco mais escuro, então dei a dica para ela ir um pouco mais à direita que o grau cairia.
Ela foi na direita e conseguiu superar o lance com facilidade. Sempre que ela me olhava, estava sorrindo. Com certeza ela estava muito feliz de estar fazendo aquela via, mais ainda porque estava vendo que a via não era tão difícil como ela pensava ser. Quando chegou na parada, já de solteira clipada, ela era uma felicidade só. Eu a cumprimentei e dei os meus parabéns por ela ter feito a via com tanta facilidade. Nesse momento falei: - E aí Paulinha,
vamos continuar? A via continua por ali, apontando para uma horizontal à direita depois de P2. Ela me respondeu: - Se você for eu também vou! Aí eu respondi: - Tô brincando, depois daquela horizontal tem um 6º grau com uma trocada de pé, que no escuro vai se f..., vai ficar perigoso, é mais seguro a gente rapelar daqui.
Ela já estava de cabeça feita, feliz da vida, e não se incomodou em nada de voltar dali. Nesse momento, enquanto eu estava me desancorando, ficamos conversando e ela me dizia o quanto achou a via maneira, que queria voltar lá e treinar mais para melhorar seu nível e logo em seguida poder guiá-la. Esse seria seu objetivo.
Passei a corda pelo olhal dos dois grampos e pedi para que ela se desencordasse. Enquanto meiava a corda, pedi para ela segurar uma ponta para eu arremessar a outra. Em seguida arremessei a outra ponta que ela estava segurando. Já estava anoitecendo e ela lembrou que não tinha trocado as pilhas da lanterna, mas que estava com pilhas novas na mochila.
Ela chegou a me falar que não ficava muito confortável no escuro. Lembrei que era interessante fazer esse tipo de exercício próximo da cidade, porque quando ela estivesse em Salinas ou na Serra, ficaria mais à vontade. Ela concordou e logo depois me pediu para que eu montasse a lanterna em seu capacete, pois estava com medo que a lanterna caísse.
Fiz a montagem e a tranqüilizei, dizendo que a lanterna estava bem firme e não ia soltar.
Momentos antes de eu montar o meu rapel, ela me falou: - Agora só falta você cumprir a sua segunda promessa e me levar para o K2! E eu falei que com certeza iríamos depois do Lenheiro.
Comecei a montar o meu rapel pelo auto-seguro e falei para ela; - Paulinha, estou montando o meu auto-seguro ok?
Então puxei uma barriga de corda para cima e montei o meu reverso na corda e falei brincando com ela: - Paulinha, vou descer ok?
Ela com aquele sorriso peculiar falou: - É né, pode descer! (risos).
Comecei a rapelar e parei no grampo imediatamente antes de P1. Montei uma parada, me solterei e desmontei o meu aparelho e depois o auto-seguro. Em seguida falei para Paulinha: - Corda livre, pode vir!
Fiquei na parada segurando as duas pontas da corda, aguardando a sua descida. Passado mais ou menos 1 minuto, a Paulinha me perguntou: - Júlio, posso descer?
Eu falei: - Claro menina, já era para ter descido! (risos).
Ela começou a rapelar, e de repente vi alguma coisa estranha... Ela começou a tomar uma queda e eu não entendi nada... Caindo? Como assim? As pontas da corda estão em minhas mãos!!!
Ela gritou um AI meio abafado. Eu ouvi um barulho de algo se rompendo. Fiquei sem entender de novo... Como assim? Como um equipamento de escalada está se rompendo num simples rapel só com o peso da pessoa? E ela fez um movimento de rotação da esquerda para direita saindo da reta da via e ficando de costas para parede, para cair rolando parede abaixo numa cena horrível. Vê-la passando por mim e eu não podendo fazer nada... Simplesmente gritar, gritar, gritar e observar aquela queda inacreditavelmente anestesiante até o chão.
Ela despencou aproximadamente 60 m, rolou batendo várias vezes contra a rocha, sem expressar nada, nem um pio. Uma queda muda. Gritei para o Bula e para o Constant que ainda se encontravam na base. Eles não tinham visto nada pois já estava escuro e pensaram que alguma coisa tinha caído, mas nunca uma pessoa.
Indiquei para eles o local. O Bula foi para junto da Paulinha e eu perguntei o estado dela, ele informou que ela estava respirando mas não conseguia articular nenhuma palavra, e estava com sangramento no ouvido. Em seguida perguntei se o loop do bauldrier havia rompido, ele informou que não. O loop estava intacto.
Peguei meu celular para fazer os contatos. A primeira pessoa em quem pensei foi o Heron do CEB (Centro Excursionista Brasileiro), que nos deu aula de primeiros socorros. Ele é médico socorrista da Defesa Civil, só que eu não conseguia lembrar o nome dele na hora. Que agonia! Peguei o celular e comecei a listar nome a nome e vi o CEGOA (Centro de Grupamento de Operações Aéreas). Liguei para lá e me transferiram para o ramal da equipe médica. Passei o quadro clínico da Paulinha e solicitei uma aeronave para o local. Passei as coordenadas para que o piloto pudesse se orientar e ainda falei que eu estava no alto da parede, de lanterna ligada e que seria fácil localizar.
Eles disseram que me ligariam em seguida. Fiquei aguardando e nesse tempo liguei para várias pessoas da comunidade que vinham em minha cabeça. Não aguentei mais esperar e liguei novamente para o CEGOA. Eles informaram que já haviam recolhido as aeronaves e não poderiam enviar. Pouco tempo depois me liga um bombeiro do quartel da Humaitá pedindo informações. Passei todas as informações necessárias e pedi para o Constant ir esperar os bombeiros na pista e informá-los da trilha.
Vários escaladores chegaram para ajudar e foram fundamentais para a remoção da Paulinha. Eu continuava no grampo acima da P1, pois a corda estava presa pelo aparelho de descida. Como estava bem estável preferi não tomar nenhuma tentativa de prussicar a corda. Preferi aguardar o meu resgate.
O PH do CEC (Centro Excursionista Carioca), escalou a via e nós rapelamos juntos na corda dele. A minha corda ficou na parede. No dia seguinte, segunda-feira, o PH e o Adrian foram lá resgatar a corda e informaram que o aparelho estava montado de forma correta, com o mosquetão tão apertado que ele teve que fazer força para abrir.
O conjunto aparelho / mosquetão estava 7 a 8 metros da parada dupla, indicando que ela começou a rapelar normalmente até o momento da ruptura do sistema.
Para a infelicidade de todos o desfecho foi o pior possível, com o falecimento da nossa querida amiga.
Gostaria que todos fizessem uma reflexão do acontecido e que se conscientizassem da importância da utilização do auto-seguro.
Não tenho nenhuma intenção de abandonar o esporte, muito pelo contrário, gostaria de batizar a nossa ETGE 2007 de Maria Paula Garcia, pois ela estava muito animada e motivada a se tornar Guia do nosso querido CERJ.
No cemitério fiz muita questão de ir bem perto de onde ela vai ficar. Nesse momento me veio um verso na cabeça e comecei a cantar baixinho:
Goodbye, Goodbye Girl
I wish you peace
Wherever you are...
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