Sem oxigênio, muito potencial, pouca tática: infinita tristeza

Tema:Montanhismo
Autor: José Luiz Pauletto
Data: 28/5/2006

Acima de tudo, e além de toda a poesia e frases lindas, alguém precisa dizer isso: o Vitor não queria morrer, não! Não queria e não devia! O Vitor tinha outras coisas à fazer. O Vitor, ninguém me convencerá do contrário, não morreu feliz, não! O Vitor pediu ajuda diante da morte. Pensem nisso.

Pensem como tudo aconteceu e assimilem a lição, mais uma vez, distraídos alpinistas brasileiros, principalmente os da nova "geração patrocínio"!

O Vitor cometeu um grave erro tático -´do qual o alertei há alguns meses e comentei com outras pessoas do meio - e não suportou a excessiva exposição à extrema altitude. Ele atacou de muito alto, perdeu muito tempo 'parado' num acampamento inútil, à 8300 metros. Isso depois de já ter 'parado' à 7200 m.

Há uma máxima no alpinismo que diz: "Se estiver se desgastando, mas não está subindo, está errado!" Na sequência, serás cobrado! E pensem também nesta: "O cume é só a metade". Nada é mais verdadeiro. Alguém discorda?

Na minha opinião o Vitor não estava pronto. Não sei se um dia estaria. Para fazer o "Big One" sem oxigênio é preciso ser capaz de atacar de muito mais baixo, além de, e inclusive, subir mais rápido. A palavra aqui é "performance". Livrar-se o mais rápido da "zona da morte". É assim ou nada! Não tem acôrdo. E não sei se ele seria capaz de unir essas duas premissas. À deduzir pelo seu currículo, sempre marcado por notável tenacidade. Porém com pouquíssima velocidade onde isso pode ser vital. Como no ataque final à Sul do Aconcágua, só completado em longuíssimos 6 ou 7 dias, quando o aconselhável são 3 dias, ou nada.. Um mau sinal!

Quanto ao Everest sem "tubos", é só voltar no tempo e analisar a estratégia dos poucos que o fizeram com sucesso, comparada aos erros daqueles que ficaram no caminho. Salvo raras excessões, quase sempre de Sherpas. Como um deles que há pouco tempo - além de não usar oxigênio - ficou dando 'um tempinho' de 16 horas bem lá, no cume! E no dia seguinte estava de volta lá embaixo, dançando e bebendo 'chang' para comemorar o recorde. Um sêr anaeróbico...

O valoroso Vitor acabou descobrindo isso, sim! Mas da pior maneira.

Alpinistas e leigos, acordem, descartem de uma vez a incabível idolatria. Concentrem-se em assimilar a lição. Afinal, errar é humano...

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