Todas as vezes que alguém morria em uma montanha a imprensa chamava Vitor Negrete para comentar o ocorrido. O que todos esperavam, é claro, é que ele criticasse a pessoa como inconsequente, inexperiente ou irresponsável.
Mas Vitor sempre teve delicadeza ao comentar esse assunto, uma delicadeza que vejo que falta a Pauletto. Vitor comentava que, se a pessoa tivesse conseguido realizar o feito, seria considerado um herói. Como não conseguiu, era tratado como um "mané". Ele reprovava veementemente a atitude de "espinafrar" aqueles que pereciam na montanha - hoje percebo que fazia isso também porque sabia que a morte estava muito próxima dele, que não tinha medo de assumir riscos tanto na sua vida pessoal quanto na sua profissão.
A atitude de Pauletto é exatamente aquela que Vitor reprovava. Achava pretensiosa e oportunista.
Em todo o caso, se ele já não se preocupava com esse tipo de crítica quando estava aqui entre nós, agora, onde ele está, deve estar achando tudo isso muito mais irrelevante. Por isso não vale a pena realmente comentar.
O que desejo comentar é sobre as profundas consequências que sua morte teve naqueles que eram efetivamente próximos de Vitor, inclusive em mim.
Todos aqueles que conheceram Vitor com alguma profundidade sabem o quanto ele era uma pessoa feliz. Sua morte nos acorda para o fato de que todos um dia morreremos, e que alguns talvez morram antes dos outros, repentinamente. Hoje percebo, e os amigos mais próximos de Vitor também, que sua ausência de medo da morte devia-se ao fato de que ele se sentia plenamente realizado.
Havia adquirido uma espiritualidade coerente, tinha o trabalho que desejava, havia conseguido formar uma família feliz, e tinha um prazer genuíno em ajudar aos que precisavam, o que ele fazia constantemente. Quantos de nós, ao morrermos, teremos tranquilidade nessa hora tão importante, decorrente do fato de termos sido pessoas realizadas?
Os amigos mais próximos de meu marido, e eu mesma, desde sua morte, temos procurado melhorar nossas vidas, seguindo o exemplo de Vitor, cuja vida era plena de sentido e realização. Estamos revendo nossas prioridades, nossas atitudes, pois percebemos que mais cedo ou mais tarde nossa hora também chegará, e que nessa hora devemos nos sentir satisfeitos com o que fizemos. Não se trata de nenhuma moral cristã a respeito do pecado e da salvação, mas apenas de um repensar de atitudes, que meu marido proporcionou àqueles que conviveram com ele. Estamos percebendo que, às vezes, uma pessoa pode nos ajudar mais quando não está mais presente.
Para aqueles que tiveram um conhecimento superficial de Vitor Negrete, como Pauletto, fica o prazer de criticar as atitudes daqueles que não mais estão aqui para responder. É natural, todos gostam de encher a boca para comentar uma tragédia, faz a gente parecer experiente e responsável. Engraçado que sempre foi isso que os jornalistas quiseram ouvir de meu marido após uma morte na montanha, mas ele nunca caiu nesse jogo, demonstrando sua superioridade.
Nota do editor: o texto deste relato não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.
» Sem oxigênio, muito potencial, pouca tática: infinita tristeza
» Sobre José Luiz Pauletto
» Esposa de Negrete comenta as críticas de Pauletto
» AVENTURA
» AVENTURA
» 08/10 Dicas para uma boa nutrição na hora da aventura
» 01/09 Saiba como se proteger na hora de praticar esportes de aventura no inverno
» 24/08 Preparação física no Montanhismo
» 31/07 Como escolher uma roupa para chuva
» 26/07 Desbrave a beleza dos dez maiores picos do Brasil
» 25/07 Conheça os equipamentos para escalada
» 27/04 Hipotermia: Como identificar
» 29/06 Alpinista brasileiro narra as aventuras na escalada ao McKinley
» 20/04 Rio de Janeiro, capital da aventura: Escalada
» 13/07 Carlos Vageler: Dicas de barracas e acampamentos - parte 3
» 29/05 Esposa de Negrete comenta as críticas de Pauletto
» 19/05 Especialista explica como a meteorologia atua numa expedição
Mais >>





