Sem querer ser turista

Autor: Carlos Vageler

Data: 17/7/2008

Um amigo passou por uma situação inusitada, mas que mostra alguns aspectos de nosso país que, normalmente, nem passa pela cabeça da maioria que vive numa cidade grande ou em determinadas regiões.

Advogado, com boa experiência nos caminhos da justiça brasileira, devido a um compromisso com a profissão, foi designado a fazer uma viagem para protocolar e despachar com um Juiz em alguma cidade do litoral do nordeste.

Pegou um avião em São Paulo e partiu. Chegando na capital desse estado abençoado pelo sol constante, procurou uma condução para a cidade em questão. Pretendia chegar no máximo às 13 horas, para cumprir o serviço e voltar no mesmo dia para casa. Coisas da profissão. Pegou um táxi que teria que percorrer 140 km. até seu destino.

A viagem correu tranqüila até a chegada a tal cidade. Era pouco mais de meio dia, calor intenso, o táxi sem ar condicionado e meu amigo de paletó e gravata. O taxista, novo no ramo, estava com quase nada de combustível no tanque e não conhecia bem o local, procurou algum lugar para perguntar e achou um único aberto naquela hora do almoço. Uma marcenaria, com o nome nada comum de “Marcenaria Dois Cacetes”. Fiquei imaginando como esses comerciantes atendem o telefone ou anunciam seus produtos.

- Dois Cacetes, boa tarde!!! O que deseja?

Finalmente, depois do tanque cheio, parou para perguntar a um policial onde ficava o Fórum, recebendo como resposta algo como “acho que é mais ou menos ali atrás” (!?). Rodando um pouco mais, chegou ao endereço; eram quase 13:00hs. Pagou o táxi, desceu e foi em direção ao portão do fórum. Para sua surpresa estava fechado, trancado com cadeado. Na hora ficou desnorteado e imaginou que se tratava de um horário para descanso, tipo “Siesta”, muito comum em outros países latinos. Dali do portão trancado viu um pequeno bar aberto. Já molhado de suor e a pasta embaixo do braço seguiu em direção ao estabelecimento. Chegando lá questiona aquele único que estava no bar sobre os horários do fórum.

- Por favor Senhor! a que horas abre o fórum de tarde? - Não abre mais não.
- Como? Hoje é alguma data especial por aqui?
- Não, Não. Eles abrem das 9 às 13 horas no máximo e vão embora, todo dia. Fica lotado.

Meu amigo fica sem palavras, pois ele tinha um prazo a cumprir e era naquele dia. Sai do bar, não sem antes beber um refrigerante para acalmar, esfriar as idéias, como dizem. Indicado pelo dono do local vai até um despachante, do outro lado da Rua, que incrivelmente estava aberto, próximo dali, para ver se conseguia alguma informação a mais. Chegando lá faz a mesma pergunta e ouve a resposta.

- O horário daqui do fórum é esse mesmo.
- Mas como faço para protocolar uma petição? Conhece algum advogado da cidade ?
- Na cidade não tem advogado, Senhor. Vem tudo de longe....Mas pergunte ao Cartório aqui ao lado, que abre depois do almoço, às 14h00!

Já começando a “suar frio”, apesar do calor, esperou pela chegada de alguém. Pontualmente apareceu um funcionário, que lhe prestou a mesma informação e ainda acrescentou: - E não venha de sexta-feira , que o povo aqui gosta de emendar!!
- Mas tenho por lei garantido que posso protocolar essa petição que tenho até as 18 hs, como pode estar fechado?
- hahaha. – É apenas o que escuta do senhor do cartório.

Nessa hora sentiu-se como um ET pronunciando algo tão engraçado, quer dizer, a palavra “Lei” . Depois disso ficou mais desnorteado ainda. Percebeu que teria que ficar até o dia seguinte no local, sem saber onde. Estava apenas com a roupa do corpo e por sorte algum dinheiro no bolso e um cartão. A pessoa do cartório sugeriu, e com grande orgulho, que ficasse em um dos hotéis da cidade, pois era turística e muitos estrangeiros iam até lá na alta temporada. Por sorte o taxista estava no local, em frente ao bar onde tinha ido anteriormente, como que sabendo o que ocorreria.

Foi levado então até o hotel a beira mar, fez o Check in, entrou em contato com a Cia. Aérea, reservou o vôo da volta e se acomodou. Nesse momento decidiu não esquentar mais a cabeça. Tirou a camisa, as calças e lembrou-se que, sua abençoada esposa, tinha colocado uma sunga em sua pasta (ele havia ironizado tal “impensada” atitude). Foi então até a praia e sentou numa cadeira disponibilizada pelo hotel. O celular não parava de tocar e aos que atendia, apenas dizia que estava muito ocupado resolvendo um problema. Não era mentira, fora o fato de estar numa praia, na sombra e com uma vista maravilhosa a sua frente.

No dia seguinte acordou cedo, tomou café e pediu para fechar a conta. Queria chegar no primeiro horário no fórum, despachar e voltar para casa.
Assim que fez o acerto pediu a recepcionista:
- Por favor, pode me chamar um táxi?
- Olha meu senhor, em baixa temporada não temos táxi aqui - O que?
- Sim, mas temos moto-taxi.

Sem saída e louco para resolver seus problemas aceita isso. A recepcionista liga para a pessoa da moto. Meu amigo fica a esperar por uns 15 minutos, no que volta a falar com a moça que o atendia:

- Será que a moto está vindo? Vem de muito longe?
- Não senhor, é aqui pertinho. Vou ligar novamente para ele.
- Alô, Ronildo? Você não vem não? Sei, Entendi, não demore heim?
- O que aconteceu? - pergunta meu amigo.
- Ele tinha esquecido. Agora ele vem...

Esperou por mais vinte minutos e então chega o Romildo, que diz:

- Desculpe a demora. É que fui antes na casa da minha tia comer um pãozinho...

Meu amigo advogado não falou nada. Observou só que o motorista da moto estava de chinelo, sem camisa, de bermuda e não portava nenhum capacete. O objetivo era levá-lo até a estrada de asfalto 5 km. dali e então pegar uma lotação que iria até o centro da cidade onde se encontrava o fórum. Aí foram, ele de paletó e com a pasta em uma das mãos. Começou a chover no meio do caminho, pararam, recomeçaram novamente e chegaram até a parada da lotação.

Ficou esperando por mais uns 20 minutos e o ponto estava lotado. Mais lotada ainda estava a Besta (carro) que chegou, não negando o nome. Para abreviar a história, ele contou 24 passageiros, ou melhor, enlatados, até chegar na cidade. Sem contar que ele teve direito durante a viagem, a uma sessão de piadas, contadas por um senhor “100% desdentado” que lhe dera um banho de cuspe enquanto falava.

Desceu na praça em frente ao fórum às 10h00. Estava encharcado de suor e portava uma mistura de odores. Ficou um tempo embaixo de uma árvore até secar naturalmente sua roupa.

No fórum foi direto ao protocolo e aguardou a chegada do Juiz, que residia na Capital, a 140 Km dali. Até aí teve, pelo menos, a grata surpresa de saber que seu prazo não havia findado no dia anterior. Esperou, esperou, prestou 2 ou 3 “consultas” em pé mesmo, a pessoas humildes que lhe abordavam perguntando sobre “direitos”. Quando se aproximava o horário do almoço, veio uma funcionária, dizendo que o Juiz não viria mais!!! Meu amigo apenas suspirou. Não falou nada sequer. Apenas queria ir embora. Pelo menos o protocolo ele fez. Teria que voltar um dia para lá, mas pelo menos ele estaria preparado para não ser novamente um turista por engano.

Mande uma mensagem para o autor: Carlos Vageler

Todas as colunas

 

Nota do editor: o texto desta coluna não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.



© Copyright 1998 - 2009 - 360 GRAUS MULTIMÍDIA
Proibida a reprodução integral ou parcial, para uso comercial, editorial ou republicação na Internet, sem autorização mesmo que citada a fonte.