
Em uma travessia de três dias por uma serra, só há água em dois pontos, um no início da trilha e outro no último terço do percurso. Você está com mais peso nas costas, mochila carregada e exatamente tudo que você precisa para sobreviver está ali. Para a sua segurança nada pode faltar e nem sobrar, pois peso desnecessário lhe custará mais energia.
Mande uma mensagem para o autor: Carlos Vageler
Nessa situação como você tratará seus recursos?
Não precisa ser um trilheiro/mochileiro experiente para me responder isso. Vai me dizer que tratará tudo com o máximo de cautela, principalmente sua água. Fará a comida com seu uso mínimo, beberá o necessário e se escovar os dentes, usará apenas meio copo dessa água.
Até aí nada mais lógico, somente um desequilibrado faria o oposto, desperdiçando.
Pois bem. Esse mesmo aventureiro que fez essa travessia e se deu muito bem até o final, conseguindo usar tudo que levou, sem sobra ou falta de nada, pode ou não ser uma pessoa que age diferente quando há fartura de recursos para sua sobrevivência. Provavelmente não continuará com esse racionamento e muito menos irá escovar os dentes com apenas meio copo d’água, mas poderá aprender que necessita de bem menos do que lhe é colocado à disposição no dia-a-dia.
Temos dois extremos aqui e não é o caso de alguém precisar ficar numa eterna travessia como forma de ideologia ecológica, mas apenas entender que estamos cada vez mais exagerando em ter muito mais daquilo que necessitamos. Isso de forma genérica, pois sei que muitos não têm o mínimo e é justamente essa a ironia.
O confronto entre a economia de mercado e o meio ambiente é claro, a cada dia o segundo está perdendo de lavada. Hoje vende-se até a ilusão de que, se você usar bastante o produto tal ou usa o cartão de crédito “X”, você está plantando árvores e reduzindo o efeito estufa.
– Que coisa heim?? Não parece com alguma coisa que a igreja vendia abertamente na idade média?
Vende-se o consolo ambiental como se fosse pãozinho na padaria.
Poucos percebem as singularidades do comércio da livre consciência ambiental.
- Planto uma árvore virtual, mas não me diga para trocar meu sonho de carro importado “made in Korea” com cara de off-road por uma carro popular bem menos Gastador.
- Coloco álcool no tanque porque é mais “ecológico”, mas nem imagino que, apesar das melhoras tecnológicas, enquanto não forem eliminadas 100% as queimadas de cana ou a mesma avançar para fronteira agrícola ainda em desmatamento, seu processo produtivo é pior do que usar a gasolina.
- Tenho consciência ambiental, pois não faço nada contra a natureza, adoro bichinhos, gatos e cachorros, mas não me diga que preciso economizar água, energia elétrica e consumir menos.
Tão grave esbanjar recursos é o exagero do consumo daquilo que não se pode ter de fato.
Um amigo sempre me diz: - Compro apenas aquilo que posso. Se tenho dinheiro adquiro, senão guardo e compro depois. Nem me fale em financiamento, cheque ou banco.
Não se enganem, a crise econômica sistêmica atual tem bases no “ter sem realmente poder”, que por sua vez é um problema de equilíbrio não somente financeiro, mas ambiental.
Um problema de suporte que despencou devido a extrema valorização e produção em cima de “moeda podre”, virtual. O frenesi de consumo tomou conta do mundo nos últimos quatro ou cinco anos.
O recado é claro. O mundo não suporta tamanho consumo.
Parece simplista demais, mas os recursos naturais são finitos, por mais que ninguém queira acreditar. Vamos começar falar de equilíbrio e não somente de crescimento. Vamos derramar a bandeja do excesso para o lado de quem nunca teve nada.
Vamos tentar, pelo menos um pouco ou de vez em quando, viver como que estivéssemos numa travessia.
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Nota do editor: o texto desta coluna não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.
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