O abraço da onça

Autor: Carlos Vageler

Data: 13/3/2009

Já me aconteceu algumas vezes de encontrar numa trilha, a caminho de alguma atração natural ou mesmo na beira de um rio ou represa, algo que considero tão interessante quanto a finalidade do passeio ou esporte.

São as histórias e “causos” contados por pessoas que eventualmente passam por você. Esses podem ser divididos por assuntos, que vão desde “almas do outro mundo”, objetos voadores não identificados, fenômenos climáticos e assim por diante. Uns desses assuntos, que acho o mais pitoresco encontrado na cultura popular, são de animais, em especial sobre onças:

Numa trilha, na volta de uma caverna pouco visitada de um parque estadual, escutei um barulho vindo muito próximo do grupo, que não conseguia identificar. Eram passos, com certeza, mas não de gente. Continuamos a caminhar e o barulho aumentou. Eis que cruza na trilha um cachorro, não pequeno, mas sim alguma coisa mestiça com uma raça grande, provavelmente pastor alemão.

Todos paralisaram e logo depois, com o abanar do rabo do bicho e demonstrando a simpatia típica dos vira latas, continuamos com o cachorro nos seguindo. Mais três centenas de metros a frente, encontramos um homem, um senhor aparentando uns 60 anos de idade, na beira da trilha, retirando um pouco de casca de uma árvore, provavelmente para fazer remédio. Ele logo perguntou:

- Boa tarde, o “Toco” assustou vocês?
- Boa tarde, como vai, tudo bem. Não, não. – Respondi, imaginando que “Toco” deveria mesmo ser o cachorro que havia nos encontrado.
- Ele é manso, não faz nada não. Passeando um pouco? – Continua perguntando o homem.
- Sim, fomos até a caverna.
- Esse povo da cidade adora ficar entrando em buraco, não tem medo não?
- Não medo, “a gente” toma cuidado!


Depois de minha resposta, uma pessoa do grupo que conduzia faz a fatídica pergunta de quem está algum tempo no mato e deslumbrada.

- Mas e o senhor aqui, já viu alguma onça?
- Muita! sim senhora. Mas eu sei quando ela está perto, então fico de olho, preparado.
- Preparado?
- Sim, quando ela sabe que você “vê ela”, não tem perigo, ela vai embora.
- Poxa! E como percebe que é onça?
- É fácil. Se um dia a senhora estiver andando no mato, escutar um trovão, olhar para cima das árvores e o céu estiver azul; não é chuva que vem, é a onça.

Alguns riram, outros aguçaram os ouvidos e uns olharam para o céu acima das árvores.

Outro caso foi durante uma viagem para o Mato Grosso. Estava no Rio Miranda em um barco a motor. Eu e mais dois amigos paramos para fazer um lanche numa de suas margens.

Assim que amarramos o barco percebemos que havia uma pequena cabana e um senhor veio ao nosso encontro. Cumprimentamos-nos. Ele queria prosa. Oferecemos um sanduíche, ele aceitou e em seguida, após as apresentações e indagações de costume, ele começou a contar um “causo”: - Olha seu moço, vai achar que “tô” mentindo, mas tô não. Eu era casado até faz 5 anos passados. Casei e vim com minha “Muié” aqui para esse mato. Ela era um “doce” de pessoa. Um tempo depois começou a ficar “Braba”. Durante o dia falava com ela e então já me xingava, ficava reclamando de tudo. À noite não, no escuro do quarto, depois de apagar “as lamparina”, ela voltava a ser formosa, era bom demais, não falava nada, nem parecia minha mulher que durante o dia era uma cobra de nervosa. Me abraçava forte, acordava até arranhado.

Um dia, uma semana depois que chegou a luz elétrica por essas bandas eu coloquei uma “dessas lâmpada” no nosso quarto e um fio para ligar ao lado da cama.

Estava dormindo e minha Muié me acordou, querendo me provocar, ela estava mais dengosa do que nunca, me abraçou forte, mas tão forte, que fiquei sem ar. Ela fungava no meu ouvido mas não dizia nada. Minhas costas começaram a doer com suas unhas e então estiquei o braço e acendi a luz do quarto.

E não foi minha surpresa que eu vi. Vi que era a “Dona Onça” que estava me agarrando. Levei um baita susto, ela me largou do abraço e eu sai correndo. Quando voltei depois de três dias ela não estava mais lá, nunca mais voltou para dentro de casa. Mas escuto seu barulho e um ronronar todas as noites na porta. Minha patroa era brava durante o dia e virava uma onça doce a noite.

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