Rodrigo Raineri e Vitor Negrete: de Campinas para o topo do Aconcágua

Tema:Montanhismo
Autor: Marilin Novak / Cristina Degani
Data: 29/1/2002

Rodrigo Chaddad Raineri e Vitor Negrete, 32, empresário e 34, pesquisador respectivamente, escalaram juntos a face sul do Aconcágua, a montanha mais alta do continente americano, que fica na Argentina. Foram os primeiros brasileiros a conseguir esta conquista, depois que os montanhistas Othon Leonardo, Alexandre de Oliveira e Mozart Catão tentaram no verão de 98 e morreram soterrados por uma avalanche. Considerada uma das vias difíceis da montanha, a sul é a mais técnica do Aconcágua, num misto de neve e rochas. A altitude até o cume é de 6.962m e 4 mil metros é a altitude do acampamento base Plaza Francia, ou Praça França, em português. Em entrevista exclusiva ao 360 Graus, Rodrigo e Vitor contam a experiência desta conquista tão difícil para eles e importante para a comunidade montanhista do Brasil.

360 - Quando vocês iniciaram a expedição?

Rodrigo - Saímos de Campinas no dia 12 de dezembro, um pouco atrasados para o que planejávamos, pois queríamos ter mais dias para nos aclimatar. Nesta aclimatação contávamos com a subida do Monte El Plata, uma montanha com mais de 6 mil metros. Como tivemos alguns compromissos de trabalho, saímos quando deu. Precisávamos nos aclimatar bem para ir até a face sul. Acabamos indo para o Cordão do El Plata, onde passamos três noites a 3 mil metros. Para quem precisava chegar a 6.962m, a aclimatação acabou não saindo como nós gostaríamos. Estávamos com o tempo apertado, porque iríamos guiar a expedição da Grade VI, que chegaria no dia 7 de janeiro. Então, chegamos em Mendonza no dia 16 e passamos o dia para resolver problemas burocráticos, como nossa entrada no parque, aluguel de animais de carga e alguns equipamentos, compras, comida. Entramos no parque no dia 21 e fomos direto, em um só dia, para Plaza Francia, apesar de normalmente a subida ser feita em dois dias.

360 - Como foram os dias até chegarem no cume do Aconcágua?

Rodrigo - Bem, no dia 22 descansamos, no dia 23 fizemos transporte de equipamentos e deixamos um depósito na plataforma onde seria montado o acampamento 1, a 4.600m, e voltamos no mesmo dia. No dia 24 descansamos. Fizemos uma ceia de Natal com o pessoal todo, que tinha estrogonofe de frango, arroz e batata frita. Entramos definitivamente na parede no dia 27 e passamos o fim de ano a 6.100m de altitude, no chamado Glaciar Superior. Conquistamos o cume no dia 2, com tempestade. Nossa previsão era fazer em cinco dias, mas escalamos em sete por causa do mau tempo (nota do redator: eles tiveram que ficar dois dias parados antes do objetivo); no dia 3 voltamos ao acampamento base.

360 - Vocês dois guiaram durante a escalada? Como vocês dividiram esta e outras funções?

Vitor - O Rodrigo é muito mais técnico do que eu. Quando temos que escalar gelo ou rocha, escaladas técnicas, o Rodrigo guia e eu guio mais as funções que precisam de força, além de abrir caminhos nos glaciares. Quem vai na frente dos glaciares vai se afundando e isso exige muito mais força física e precisamos preservar tudo. Eu sou mais forte por isso levo a mochila mais pesada.

Rodrigo - No penúltimo dia tivemos muitas avalanches, eu acabei guiando uma rampa de 600m de gelo que a princípio o Vitor iria guiar. Eu já vinha guiando e acabei indo até o fim. Não tem muitas regras, os dois fazem de tudo um pouco. Às vezes alguém está mais cansado, como por exemplo, no começo das torres, quando eu ia guiar mas o Vitor terminou guiando. De uma maneira geral, tentamos dividir os lances mais técnicos para um e os de mais força para o outro. Mas qualquer um cuidaria bem do outro.

360 - Porque vocês optaram ficar sem combustível (benzina) para a descida do cume?

Rodrigo - Já fizemos o cume do Aconcágua três vezes. Para a gente, a volta seria simples, ou deveria ser muito simples. Assumimos o erro de termos jogado o combustível antes de saímos para o ataque final. O caso é que a benzina acabou sobrando, pesando, e acabamos nos livrando do líquido no último dia, nosso erro, que gerou desidratação e facilitou os nossos congelamentos. Se o tempo estivesse bom estaríamos tranqüilos, teríamos despencado montanha abaixo e dormido no campo base. Mas não esperávamos mal tempo e tivemos de dormir a mais de 6 mil metros de altitude, onde não tinha água, não tinha trilha e estava tudo coberto pela neve. E, veja, nesta época no Aconcágua não tem tanta neve assim; o chão é de rocha. Mas estava tudo branco, ventando a mais de 100km/h, o vento branco. À noite, precisávamos de viseira pois o gelo grudava nos olhos e isso doía muito. E fazia mais de quatro dias que ninguém fazia a via normal. Muita gente ficou esperando melhorar o tempo para subir e, de repente, apareceram dois brasileiros descendo...

360 - A descida acabou sendo mais difícil...

Vitor - O dia do ataque ao cume era para ter sido um dia mais fácil, mas as condições do gelo estavam ruins. São trechos de subida difíceis onde havia muita neve mole, aonde você vai afundando acima do joelho. Um amigo disse que, nas condições normais, a neve da parede é aquela de seus sonhos! Você vai escalando e a neve não é nem muito dura nem muito mole. As ferramentas entram suficiente o necessário, tudo muito rápido. Nas condições que escalamos parecia uma enorme duna de areia, mas feita de neve.

360 - Como aconteceu o congelamento de seu pé? Quais os procedimentos médicos terá de fazer agora?

Rodrigo: Bem, o congelamento acontece por uma série de fatores, sendo os principais a exposição prolongada ao frio extremo e a desidratação. Na descida estávamos totalmente desidratados e expostos por mais de 40 horas ao fio extremo. Dormi com as meias molhadas e com os pés acima da mochila, como de costume, pois nossos isolantes térmicos somente vinham até a cintura. Acordei com todos os dedos dos pés duros e sem senti-los. Comecei a massageá-los e muitos voltaram. Três dedos do pé esquerdo é que sofreram mais e somente foram ser descongelados 8 horas depois, já no acampamento base Plaza de Mulas.

360 - Na ascensão, teve um momento mais difícil, que vocês ficaram com medo?

Rodrigo - Tivemos vários momentos difíceis, mas estávamos juntos e fortes o tempo todo e não pensamos em momento algum em voltar e nem ter medo. Só estávamos muito atentos, preocupados, ligados. Medo não, é um sentimento ruim, um sentimento que paralisa, leva ao pânico. Quem assume situações como a face sul do Aconcágua não pode ter medo. Medo podemos sentir antes de entrar na parede: você chega, olha e dá aquele friozinho na barriga. Quando você entra acabou. Não dá para sentir medo. Você já está lá no meio, tem que ter medo antes e depois, porque durante você tem que estar atento, com raciocínio rápido. Realmente não tivemos nenhum medo em nenhum momento. E o lugar é tão lindo, tão fascinante e os obstáculos que temos pela frente e têm de ser enfrentados são tantos que não dá tempo de sentir medo. Você tem que se preparar para o próximo passo, analisar se vai dar tempo, como que vai chegar, como fazer, se está nevando ou não. E depois o pessoal do campo base chama no rádio para que possamos dar entrevista.

Vitor – Pois é, não dá tempo de ter medo...

360 - E o sentimento no momento da conquista o cume?

Rodrigo – Ah, tem alguns exemplos de comparação, como passar no vestibular, comprar a casa própria, conseguir um bom emprego, os patrocínios... Provamos para nós mesmos que somos capazes, isso é muito legal. Vários amigos nos apoiaram e muitas pessoas que não nos conhecem acham que somos doidos, mas não tem nada disso! É uma prova de técnica, equipamentos, logística e concentração. Chegar lá em cima, olhar pra baixo e ver os três quilômetros de parede sob seus pés...Saber que você escalou tudo aquilo, agora é só pegar o caminho de casa, é muito gratificante. Isso ajuda na própria vida, nos nossos valores. Reforça aquilo que a gente acredita, nosso estilo de vida, o que realmente a vale pena, o que é fútil, o que não é.

Vitor - Nós aprendemos muito nesta expedição. Chegar no cume foi vencer esta montanha e aprender novas lições, que vão nos ajudar em outras montanhas. Tecnicamente, sentimo-nos muito mais seguros.

360 - Quanto tempo vocês levaram para organizar esta expedição? Foram somente vocês dois que montaram a logística e a estratégia?

Vitor - Nós dois que decidimos tudo, discutimos várias opções, pesamos muito os equipamentos, e conversamos sobre o que levar, cada um dos equipamentos. Todo esse tempo conversava com o Rodrigo, e com isso fomos montando e aprimorando cada parte e o resto no decorrer do planejamento. Tivemos idéias até o último dia, melhorando vários pontos.

Rodrigo - Nós aprendemos muito com a tentativa do ano passado. Conhecemos 2/3 da parede, os melhores lugares. À noite, sabíamos que algumas vias se mostravam mais difíceis. Em 2001, descemos falando que voltaríamos em breve. Posso dizer agora que a primeira parte da parede foi melhor, mas no final foi mais complicado, porque a neve estava mais fofa. Então, você afunda, às vezes coloca os pés e vem tudo em cima. Em outros momentos, mesmo parado, de repente quebra o fundo e você escorrega. A altitude ainda colabora para prejudicar.

360 - Como foi a recepção da comunidade escaladora?

Rodrigo - Foi muito legal! Os amigos e colegas de esporte nos receberam muito bem. Quando chegamos em Campinas, fomos a uma churrascaria e lá encontramos com os amigos de São Paulo, Piracicaba, de outros lugares, inclusive o Makoto, que conversou conosco (n.r.: Makoto Ishibe, empresário, escalador de gelo muito experiente e atleta de corridas da equipe Scott). Não sabíamos que haveria uma repercussão tão grande, talvez maior do que estávamos imaginando que ia ser mesmo... Isso fez desmistificar um pouco a parede, mas continuo respeitando muito, pois é muito difícil mesmo.

Vitor - Recebemos apoio do Waldemar Niclevicz, que fez um comentário muito positivo dizendo que foi uma conquista muito grande. Pensamos em fazer um evento específico para a comunidade dos escaladores, uma palestra técnica, explicando detalhadamente quantas enfiadas tem, onde colocamos os crampons, porque paramos em tal lugar e não em outro ponto, como eram as avalanches, de que maneira poderia ter sido melhor... Acreditamos que mais escaladores brasileiros queiram escalar em expedições e até mesmo se animem para fazer o mesmo que nós.

360 - Qual o conselho para os brasileiros que almejam a mesma conquista?

Vitor - Assistir nossa palestra, que é fundamental. Tem que escalar bem em rocha e no gelo.

Rodrigo - Nosso livro, que vamos publicar, é uma boa dica. Mas tem de treinar, muito mesmo, escalar muito rápido, pois a parede do Aconcágua é grande demais e muito técnica. Tem parte de rocha, onde temos que escalar com crampon, a altitude, o frio e tem vários lances com negativos de gelo; dependendo da quantidade de gelo, a rocha que está meio podre embaixo solta-se, às vezes tem somente dois milímetros de gelo cobrindo a rocha, impossibilitando a firmeza do crampon.

360 - Vocês tiveram poucos patrocinadores; isso quer dizer que o custo da expedição pode ser bancado por uma pessoa comum?

Rodrigo - Sim, se for escalador, e tiver os equipamentos que for adquirindo ao longo de vários anos. Temos algumas prioridades. Dependendo das prioridades que você tem, é possível, totalmente possível.

Vitor - É, mas se for para comprar tudo pra ir é praticamente impossível, é difícil. É tudo muito caro...

360 - A escalada da face sul do Aconcágua é recomendável?

Rodrigo - Eu não recomendaria a nenhum iniciante. Existem vários passos que você pode dar na sua carreira, outras escaladas que fizemos como treinamento, que podemos recomendar até o interessado estar preparado para encarar o desafio. O importante é ir até o final, quanto mais baixo na parede você estiver mais risco você tem de cair coisas em sua cabeça e quanto mais alto, mais protegido você está, mesmo das fortes avalanches. Podemos dar várias dicas, como o que levar de equipamentos de proteção, por exemplo: eu levei uma peça que pesava quase 1k e usei uma vez só.

O que foi mais importante: o físico ou o psicológico?

Rodrigo – Eu colocaria três aspectos: o físico, o psicológico e o técnico. Se você está bem de cabeça você se desenvolve bem, se cansa menos, gasta menos energia, fica mais relaxado. Se você está forte e num movimento difícil, sua força facilita sua cabeça a ganhar autoconfiança. Tudo tem que estar interligado. Se está tranqüilo, escalando bem, tecnicamente está passando os lances muito melhor, você ganha confiança, tudo vai girando positivamente. Tudo isto na escalada faz você parar menos, cansar menos, começa a ficar mais ousado e a escalada começa a render mais. Uma coisa puxa a outra. Se falhar numa destas três funções, fracassa.

360 - A dupla Rodrigo e Vitor acaba aqui ou é só um começo?

Rodrigo - Não é nenhum começo e nem acaba aqui. Já escalamos juntos há muito e vamos continuar escalando juntos. Isso não quer dizer que eu só vou escalar com o Vitor e vice-versa. O Vitor entrou neste projeto da escalada do Aconcágua, fizemos a viagem, vencemos, e para os novos e grandes projetos, a dupla Vitor e Rodrigo continua. Já escalamos várias vias juntos, como na Bolívia, outra no Aconcágua, uma delas uma super canaleta de 1.100m de desnível, alucinante, maravilhosa, várias histórias...



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