Não me sinto pressionado para escrever este artigo. Já tinha em mente conversar com algumas pessoas sobre como as coisas aconteceram aqui no Brasil enquanto eu e o Vitor escalávamos a Face Sul do Aconcágua, mas fiquei com mais vontade ainda de escrever depois que li alguns emails que rolaram em uma lista de escalada.
Bem, quem me conhece sabe que eu trabalho como um louco, muito mesmo! Sabe também que sempre fui uma pessoa honesta e digna de honra. Nasci no interior de SP e para mim ainda vale mais a palavra do que dúzias de contratos. Às vezes me dou mal por isso, mas sempre coloco a cabeça no meu travesseiro e durmo tranqüilo, pois também com contratos e tudo o mais, se alguém quer nos passar para trás, de uma forma ou de outra vai conseguir. O que mais me impressiona é como as pessoas de palavra acabam se dando tão bem na vida, em termos de felicidade, que para mim é o que conta!
Também concordo com o fato de que há alguns que são mais marqueteiros do que montanhistas. E aí? E os montanhistas de verdade? Não existem? Onde estão? Se não se preocupam com o assunto, então porque criticam destrutivamente? Façam algo que seja de real valor, como fez o Eliseu, o Makoto, o Bito, o Portela, o Tartari (para os mais velhos o Domingos Giobbi, Adi e Cia) e tantas outras personalidades do montanhismo brasileiro!
O que às vezes me espanta no Brasil é nossa imaginação: a mesma que sempre dá um jeitinho é a mesma que cria estórias, que imagina coisas que nunca (sequer, jamais) foram pensadas, e o pior é que assumimos isto como verdade! E cadê o olhar crítico? Portanto concordo com um email que disse “Vamos deixar os caras voltarem e se manifestarem”. Estou aqui na tentativa de passar um pouco do que aconteceu no nosso triste encontro com os corpos de Othon Leonardos e Alexandre Oliveira durante a escalada da Face Sul do Aconcágua.
Antes porém, para quem não me conhece, gostaria de contar rapidamente minha estória. Nasci em Ibitinga, interior de São Paulo, e cresci no meio do mato. Estudei em Rio Claro e com apenas 11 anos de idade já conhecia diversas cachoeiras da região de Brotas, Itirapina, Charqueada, Analândia, Batovi, etc. Em 1996 fui pela primeira vez ao Petar e em 1988, ano que entrei em Engenharia de Computação na Unicamp, “escalei” com um grupo da faculdade o Pico das Agulhas Negras. Montamos um grupo excursionista, o Gaia e vivemos intensamente muitas aventuras. Em 1989 fiz um curso de resgate em cavernas com o italiano Giovano Badino, no Petar. Em 1991 fiz curso avançado de escalada em rocha com o Makoto. Em 1993 fiz curso de gelo em Bariloche e cume do Aconcágua na seqüência. No mesmo ano fiz o Mont Blanc. Em 1994, obtive um sexto lugar no Campeonato Brasileiro de Escalada Esportiva do Sesc Ipiranga, competindo com as maiores feras do Brasil! Neste mesmo ano abri uma via de oitavo grau no Bauzinho, junto com o Tomás Papp: uma via forte para a época. Nunca parei de escalar, mesmo depois que me formei e em 1995 abdiquei de uma carreira promissora como executivo e abri a Grade VI, em Campinas.
Em 96, após fazer um segundo curso de gelo na Argentina, guiei a minha primeira expedição comercial ao Aconcágua, que foi quando comecei a namorar a Face Sul, e fizemos cume pela Face Norte, Via Normal. Em 97, em companhia de mais dois amigos, conquistamos a Mela Cueca, um big wall na parede amarela da Pedra do Baú, que corre entre a Domingos Giobbi e a Distraídos Venceremos, uma das vias mais difíceis de escalada no estado. Neste mesmo ano escalei pela segunda vez o Mont Blanc, por outra via, e fiz um tour de um mês de escalada esportiva na Europa (Verdon, Ceuse, Buoux, Les Calanques, etc).
Em janeiro de 1998 estava em Nido de Condores quando soube do acidente com a equipe brasileira. Chorei muito! Queira tentar fazer algo, ajudar no que pudesse! Coloquei minha expedição à disposição, fiquei louco, confuso! Cheguei até a xingar o Aconcágua, a montanha que mais amo, que me ensinou tanta coisa...
Em fevereiro guiei uma segunda expedição, na mesma temporada, pela via normal e saí com minha camionete, uma F1000 ano 85, acompanhado de minha namorada, hoje esposa, e mais um casal para uma turnê de escalada de seis meses pelos Andes. Subimos o Ojos del Salado, 6878m, maior vulcão do mundo e maior montanha da Argentina, o Sajama, 6542m, maior montanha da Bolívia e várias outras montanhas.
Em 99 iniciei o projeto Face Sul. E a saída da parede tinha que ser pela Variante Messner! Simplesmente porque ela é a mais bela rota da Face Sul. E o acidente que tinha acontecido? Infelizmente não poderia reverter o que tinha acontecido, e minha atração pelo Aconcágua era maior do que qualquer medo ou obstáculo, e haviam muitos!
Ainda em 1999 ministrei meu primeiro curso de escalada em gelo na Bolívia. Estava em um ritmo de pelo menos três idas ao exterior por ano a partir daí, sendo dois cursos de gelo, um em junho e outro em setembro e em janeiro o Aconcágua. Sempre que viajo a trabalho tiro pelo menos uns dez dias para escalar, normalmente umas três semanas. Com isto estive por quatro vezes em Los Arenales, na Argentina, escalei a Supercanaleta do Rincón, no Cordón del Plata, e muitas outras escaladas pela região. Na Bolívia subi a cabeça do Condor, a Asa Esquerda, a Ruta de Los Franceses no Huayna Potosi, entre tantas outras. Estive tamnbém em Bariloche 3 vezes, em lugares como o Frei, Tronador e muitos outros.
Em janeiro de 2001 tentei com o Vitor a Face Sul do Aconcágua. Chegamos a 5.900 metros de altitude, superando as Rochas Areniscas, abaixo dos seracs do Glaciar Superior. Como sempre, tudo foi pago por nós mesmos e levávamos muitos equipos emprestados. Para se ter uma idéia, as duas cordas de 9mm que levávamos eram emprestadas, as duas congelavam e pasmem, uma era de 50 metros e outra era de 60 metros! Então verificamos que na Sul muita coisa faz diferença. Aprendemos muito!
Para falar bem pouco do Vitor, 34, mestre em Engenharia de Alimentos pela Unicamp, além de escalar a Face Sul já havia escalado o Aconcágua duas vezes, uma pela Normal, e outra em solo pelo Glaciar dos Polacos.
Em 1993 atravessou a Selva Amazônica de bicicleta, em uma aventura de dois meses pela Rodovia Transamazônica, no trecho de Marabá (PA) a Lábrea (AM). Em outros projetos com bicicleta pedalou de Porto Alegre até Ushuaia, através da Cordilheira dos Andes. Na Bolívia escalou o Huayna Potosi (6.088m) em solo, a Cabeça do Condor, a Asa Esquerda e o Illimani (6.490m), entre outros. Participou comigo, durante dois anos, de várias escaladas de treinamento para a Sul do Aconcágua.
É integrante da equipe NRX no circuito de Corridas de Aventura denominado Expedição Mata Atlântica, terminando a última corrida, no início de dezembro passado, mesmo mês que entramos na Face Sul, em terceiro lugar entres as equipes brasileiras.
Em novembro de 2001 o Clayton Conservani ficou sabendo, pelo Davi, chefe da equipe de corridas de aventura da qual o Vitor é integrante, que nós iríamos tentar a Sul. Ele já estava com um projeto de subir a Via Normal, guiado pelo Guilherme Rocha, e acabou escrevendo um projeto para a Globo a fim de, antes de tentar a via normal, ir cobrir nossa escalada. E foi cobrir o Ema Amazônia. Quando voltou, por volta do dia 4 de dezembro, me ligou e disse que tinha sido aprovado, e mais, iria com equipamento para entrar ao vivo de Plaza Francia caso quisesse!
Bem, nada iria mudar nossos planos. Estavam tão bem traçados e discutimos tanto que não poderiam ser mudados. O Clayton comprou uma filmadora, novinha em folha e levou para Plaza Francia. Queria que levássemos, mas não levamos para a parede, pois era pesada demais para levarmos. Queríamos escalar a montanha! Este era o objetivo e, infelizmente, na Face Sul não teríamos como filmar e escalar ao mesmo tempo, além do peso, baterias, fitas, etc. Levamos a mesma máquina fotográfica que havíamos levado na tentativa anterior e também já tínhamos um pacto de, caso houvesse algum “encontro” nós não iríamos tocar em nada e muito menos fazer imagens, pois como a mesma pessoa também disse em um email: “Escrevo para dizer o seguinte: se fosse eu que passasse do lado, guardaria esta informação para mim, pois antes de anunciar qualquer coisa lembraria que estas pessoas tiveram família e que de alguma forma isto poderia chateá-los”. Agradeço muito a citação e foi justamente isto que discutimos, e muito. Jamais quero chatear a família de ninguém, nem a minha, mas existem algumas coisas que são verdade e pior do que chatear é mentir.
O Vitor também não é de mentir, e já sabíamos que outro escalador havia subido em solo a mesma via em 1999 e tinha visto... Tínhamos certeza que seríamos interrogados sobre o assunto, como fomos, e não iríamos mentir. É fato! Estão lá. Quem quiser ir lá ver, pode ir... mas como contar sem magoar as famílias ou quem quer que seja? Impossível. Nem Jesus Cristo agradou a todos! Portanto ao dizer o que vi tentei deixar para os que conheciam pessoalmente aqueles heróis a melhor imagem possível. Tinha menos de 30 segundos para expressar algo que poderia ficar descrevendo por horas!
O lugar é realmente lindo, com vista para o Tupungato, El Plata e tantas outras montanhas ao sul. A cordilheira toda aos pés do Aconcágua! Sentar-se ali, em plena Face Sul do Aconcágua, e apreciar aquela paisagem não é para qualquer um!
Todos querem detalhes... por quê? Por que querem mais detalhes deste episódio e não dos lances de escalada, dos negativos de gelo, das gretas, das avalanches, do Filo Del Guanaco? Por quê? Os poucos com quem me abri foram amigos com quem escalo há anos e realmente a escalada foi a coisa mais importante! Estes que às vezes preferiam nem saber o que aconteceu durante o encontro... foram meus confidentes. Emocionei-me, escalamos juntos, repetidas vezes cada lance, e até chorei para eles como chorei para nossos heróis, tão jovens...
Não ganhei um real sequer por ter escalado a Face Sul! Pelo contrário, além de alguns pequenos apoios e muitos empréstimos de equipamentos, ainda tenho algumas dívidas a pagar. E valeu a pena! Muito! Ganhei também alguns críticos, mas muitos, incontáveis admiradores. Admiradores da garra, do ideal de ser feliz, de ganhar a vida fazendo o que gosto, abdicando de muitas coisas para poder comprar um saco de dormir ou um par de piquetas, ou de enfrentar o capeta sabendo que iria queimar meus pés!
Obrigado por lerem este artigo. Acabei de matar a minha vontade de falar em público do “porque” tomei algumas decisões. Pessoas são tão diferentes umas das outras! Aprendi a aceitar a opinião de outras pessoas, mesmo que estas sejam tão diferentes das minhas. Todos temos razão, cada um do seu ponto de vista. Deixo claro que se quisesse explorar o acidente de 98 comercialmente, poderia, muito mais do que os “bastidores” imaginam...
Prefiro deitar a cabeça no travesseiro, lembrar daqueles aos quais dediquei minha escalada, e dormir tranqüilamente!
Saudações montanhísticas,
Rodrigo Raineri.
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