Uma paixão pode provocar a morte?


Data: 1/2/2001

Já dei algumas entrevistas por aí e sempre me perguntam por que eu escalo? Não sei responder objetivamente e nunca conheci alguém que conseguisse responder essa pergunta em uma frase. Uma continuação dessa pergunta, um pouco mais elaborada e que incomoda à maioria das pessoas, é o fato de estar arriscando a pele na montanha. Para muitas pessoas, escalar significa entrar em uma roleta russa com seis integrantes e cinco balas na agulha. Quase impossível escapar ileso... 

Se frustro ou não às pessoas, não sei responder mas sei que, para essa dúvida, tenho respostas formatadas na ponta da língua e que, em sua maioria, convence facilmente. Por uma simples razão: são racionais e quase óbvias, o problema é que ninguém pára para pensar nelas. Um exemplo? Andar de carro nas estradas brasileiras é perigosíssimo e ninguém cogita a possibilidade de não usá-lo como meio de transporte. Todos viajam com as famílias, inclusive, e ninguém pergunta se ele estava pensando em se suicidar ao decidir fazer uma longa viagem de carro passando pela rodovia mais perigosa do País... 

A inspiração para esse texto passou por um livro de um grande e querido amigo chamado Jean Michel Asselin. JeanMi é jornalista de montanha e editor da revista francesa Vertical. Com 49 anos, é ainda um ativo escalador com grande experiência no Himalaia (4 expedições ao Everest, por exemplo! Além de "bater ponto" nesta cordilheira rigorosamente todos os anos há mais de 20 anos...) e nos Alpes, tendo feito importantes paredes nortes e uma invernal na cara norte das Courtes que lhe custou um congelamento nas mãos, rapidamente tratado. Por isto, não perdeu nenhum dedo mas o tato - e para sempre! 

O livro se chama "As paredes do destino" e não tem tradução para o português. Nele, JeanMi reconta várias histórias conhecidas de montanha entre uma inédita, protagonizada por ele próprio, onde o fio condutor de todas elas é a idéia de que "uma paixão pode causar a morte". "Hoje, somente me ocorre pensar que é a vara da dor que mede as alegrias. A montanha, como o amor, não concebe alegrias tranqüilas e a iluminação tão rebuscada dos cumes se transforma, muitas vezes, em catástrofe. Um se vê ali muito pequeno na imensidade da tempestade, do frio, do medo e, contudo, brilha algo que não é outra coisa que amor à vida e que nos projeta em direção à sensação de existir, apesar de tudo."

Eu o conheci no Himalaia, em 1997, e estive com ele outras vezes, visitando-o na França. Também sempre me perguntam se já vi acidentes nas montanhas. Sim, já vi muitos e também já me deparei com corpos... Assim como já vi corpos jogados à beira da estrada no meio da Floresta da Tijuca... Outro dia, lembrei de um bom exemplo para acrescentar àquele do carro: os pilotos de corrida (carro, moto, lancha ou qualquer encrenca que use a velocidade) correm um risco tremendo e não lembro de terem perguntado ao Ayrton Senna se ele era suicida ou se ele pretendia morrer ao exercer a sua paixão. Assim somos na montanha. 

No próximo dia 3 de fevereiro faz três anos que a montanha guardou nossos amigos Mozart Catão, Othon Leonardos e Alexandre. Que Deus os guarde para sempre no lugar que eles escolheram estar... E, para terminar, JeanMi acrescenta que "existe a morta na montanha mas, sobretudo, existe a vida." E eu tenho de concordar com ele. Eu vou atrás de vida quando fecho minha mochila e parto... Uma intensa e fascinante vida...


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