Carlos Vageler: Dicas de barracas e acampamentos – parte 2

Tema:Montanhismo
Autor: Carlos Vageler
Data: 6/2/2003

Um ponto à parte nesta questão de acampamentos são os abrigos de montanha. Por incrível que pareça, já tivemos em nosso país esta modalidade de pernoitar funcionando plenamente na década de 50 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos-RJ e também em P.N. do Itatiaia- RJ. Não eram apenas abrigos: funcionavam de forma parecida aos famosos albergues de montanhas nos Alpes europeus

Apesar de somente recentemente, nos últimos dez anos, as atividades de montanha e seus desdobramentos virarem “moda”, na época em que os abrigos de montanha nos parques citados acima estavam ativos, os mesmos já atraíam muitos excursionistas brasileiros e estrangeiros. Uma época em que se praticava o “montanhismo de alma”, pois o que explicaria melhor a vontade de se fazer, por exemplo, um abrigo no alto da Pedra do Baú, São Bento do Sapucaí-SP, levando os tijolos um a um nas costas, grampos acima? Apesar de que se hoje fizessem algo do tipo no Baú, provavelmente não seria aceito - mas isso não tira o mérito de uma atividade numa determinada época.

Nas fotos que acompanham este texto podemos observar algumas cenas captadas pelo Excursionista Sobral Pinto no ano de 1957 nos abrigos 2 e 3 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Para quem conhece o parque, o abrigo 2 ficava na trilha que sobe para a Pedra do Sino próximo à entrada da trilha do circuito da neblina, e o 3 um pouco antes da chegada à cota 2000 na mesma trilha ao Sino. Hoje esses abrigos não existem mais e no local são encontrados apenas alguns vestígios da construção. Recentemente foi reconstruído o abrigo 4, que fica um pouco antes da subida final da Pedra do Sino, ponto culminante do Parque.

No Parque Nacional do Itatiaia, dos vários abrigos que existiam, sobrou apenas o Rebouças, na parte alta do parque, reformado - mas é necessária autorização especial para pernoitar ali.

O interessante nesta história são os relatos de quem chegou a se “hospedar” nesses abrigos. Numa recente exposição organizada na sede do CEB (Centro Excursionista Brasileiro) no Rio de Janeiro, com fotos de Sobral Pinto entre os anos de 1957 e 1964, dos abrigos e de várias paisagens captadas na mesma época no PNSO, podíamos escutar algumas delas.

Quem se aventurava pelas trilhas do parque para alcançar o cume da pedra do Sino podia chegar a qualquer hora nos abrigos que seria recebido pelo caseiro (normalmente um casal) que gentilmente ofereceria um prato de sopa e uma cama para dormir. Treinamentos de rapel clássico e jogos de vôlei, como os das fotos, eram comuns.

Infelizmente hoje, com a mentalidade destrutiva de parte da população e com o descaso de autoridades, isso acabou. Já no final da década de 50 e início de 60 os abrigos começaram a ser depredados, principalmente depois que os caseiros foram dispensados dos parques. Em 1965 os abrigos já estavam praticamente todos destruídos.

Gosto muito de acampar, mas caminhar em um tempo frio e chuvoso e ao final do dia encontrar um bom abrigo seco e quente, não tem preço. E não precisa ter cartão para isso.

Nesta reportagem:

» Carlos Vageler: Dicas de barracas e acampamentos - parte 1
» Carlos Vageler: Dicas de barracas e acampamentos – parte 2
» Carlos Vageler: Dicas de barracas e acampamentos - parte 3



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