A primeira viagem a gente nunca esquece

Autor: Edemir Guidotti

Data: 20/10/2008

Aos 50 anos resolvi fazer uma retrospectiva de quantos km já havia rodado de moto. Me assustei...

Num primeiro momento imaginei que vivi parte desse tempo como motoboy. Na verdade não foi bem assim. É que comecei cedo, logo aos 14 anos já comprei, escondido, minha primeira menina metálica de duas rodas. Era uma alemãzinha chamada Guliveti, possuía três marchas que a gente trocava na mão esquerda, como se fosse uma lambreta.

Claro que, como todo produto adquirido às escondidas dos pais, teve vida curta, mas foi o suficiente para que eu aprendesse a dominá-la e fazer minhas primeiras incursões por outros bairros, o que já era uma aventura e tanto. Ela foi o passaporte forçado para que meus pais entendessem que seu filho tinha uma paixão. Acho que eles até preferiam que fosse uma menina normal, sem motor, sem rodas, mas depois, com as motos, eu até que arranjei umas bem ajeitadinhas.

A segunda não demorou a chegar e foi justamente da marca que ficou tatuada em meu coração, uma Yamaha 75 cc azul, fininha como um pernilongo (não tinha dengue ainda), mas a primeira no Brasil a vir com cinco marchas. Era um luxo pra época, pesava uns 74 kg, o máximo que minha estatura podia suportar e o meu bolso também.

Nessa época visitávamos muito meus avós no sitio em Artur Nogueira, cidade pequena e simpática a longínquos 50 km de Campinas. Numa dessas idas de final de semana, resolvi ir de moto e prontamente meu pai disse "não!". Sempre admirei suas decisões rápidas.

Não desisti, acabei vencendo o velho Eliseo pelo cansaço e num final de semana lavei meu pernilongo azul, limpei a viseira do capacete, lubrifiquei a corrente e me coloquei na estrada, logo atrás da Brasília branca de meu pai. A sensação de ser olhado pelo retrovisor o tempo todo eu guardo até hoje. Sei que foi a contra gosto que me deixou ir, com preocupação que não passou dos 80 km por hora mas como pai que sou hoje, entendo sua preocupação e tenho certeza que ele estava orgulhoso da aventura do filho.

Nessa viajem não arrisquei ultrapassa-lo, seria muita ousadia de minha parte, embora a quinta marcha da pequenina Yamaha, nas descidas, facilitasse isso. Finalmente eu sentia no corpo o tão falado vento da liberdade em ser um motoqueiro. Embora a velocidade fosse baixa, a travessura e a responsabilidade eram bem grandes para um garoto. Nas subidas eu quase perdia meu pai de vista, mas nas retas e descidas minha maquina mostrava toda força das suas 75 cilindradas, contra as 1.600 da Brasília.

Nessa época as motos não vinham com o famoso autolube, que nada mais é que um aparelhinho que faz a mistura correta de óleo dois tempos à gasolina. Então a gente fazia umas contas meio doidas na hora de abastecer e colocava o óleo na tampa do tanque e depois colocava a gasolina. Claro que isso nunca era correto e com o tempo foi se acumulando óleo em demasia. Resultado... quando cheguei á Artur Nogueira a motinho se arrastava pela estrada.

Tanto orgulhoso como teimoso, não deixei que percebessem, e enquanto passavam o domingo brincando pelo sitio, lá estava eu arrancando vela, desmontando carburador e miolo de escapamento para retirar a carbonização que se formou em todo o sistema e impedia a moto de andar livremente. Tudo isso com as ferramentas do trator do meu tio Pêpe e escondido atrás do paiol.

Santo domingo aquele, foi ali que descobri que além de andar em motos, também curtia muito conserta-las. A volta foi triunfante para casa. Eu já estava pronto para me virar sozinho pelas estadas, imaginava o inocente garoto, como se só esses fossem os problemas a serem enfrentados durante uma viagem ou uma vida.

Indo um pouco mais longe, a próxima viagem se deu até São Paulo e novamente o procedimento mecânico padrão se repetiu, mas eu já sabia disso. Qualquer pátio de posto de gasolina e as chaves que eu levava no bagageiro resolviam o problema.

Foram tempos muito bons e de grande aprendizado de pilotagem e mecânica, que até hoje fazem parte da minha vida de motociclista. Pois é, hoje não sou mais motoqueiro (sei não mas acho que a idade muda alguns termos também). As ferramentas continuam sendo levadas em todas as viagens, são próprias das motos e não mais emprestadas do trator do meu tio. As curvas e freadas são feitas com mais destreza e cuidado. As motos mudaram bastante de configuração e peso, embora minha estatura física não tenha tido grandes avanços, hoje a moto já pesa cerca de 300 kg com bagagem e as viagens normais não são mais curtas que cinco mil km.

Hoje, as viagens ainda são para pequenas cidades como a bela Artur Nogueira, só que também para as capitais por todo país, além de Buenos Aires, Montevidéu, Punta del Este, Assunção e tantas outras do Mercosul. Em breve terei histórias do Chile, Bolívia e Peru também.

Os km que citei no inicio, não terminei de contabilizar e acho que talvez nunca o faça, por medo de achar que já rodei o bastante e talvez seja hora de parar.

As viagens são sempre motivo de alegria, desde o momento da concepção no papel, aos prazeres e às agruras de rodar por estradas desconhecidas, línguas, povos e costumes diferentes. Sempre se volta com muitas histórias para contar, muitas amizades que se faz pelo caminho e um aprendizado de vida que não se consegue em bancos escolares ou atrás de escrivaninhas de trabalho.

Sobre a pequena Yamaha que ficou tatuada no coração, hoje ela é bem maior e esta tatuada no braço direito, quebrado num acidente no Uruguai, mas essa é outra história que conto outro dia.

As viagens pelas regiões do Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, os acidentes e os quase, deram material para um livro legal, que eu vou contar devagar, se tiver gente interessada em ler, é claro.

Resolver sozinho os problemas que vão aparecendo, sejam mecânicos, policiais "espertos", estradas mal conservadas, agentes de fronteiras internacionais com má vontade, comidas daquelas que você não faz a mínima idéia do que sejam, isso tudo virou prazer.

Enquanto, passar frio, enfrentar chuva, saudade de casa, gastar dinheiro e correr riscos, ainda for um prazer, vou viajando e juntando mais coisas pra contar. De história certa mesmo só essa, moto não é um equipamento motorizado de duas rodas, é uma paixão que a ciência não explica. Se você não quiser se apaixonar, não compre uma ou vai acabar vivendo coisas muito parecidas com essas que você acabou de ler.

Mande uma mensagem para o autor: Edemir Guidotti

Todas as colunas

 

Nota do editor: o texto desta coluna não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.



© Copyright 1998 - 2009 - 360 GRAUS MULTIMÍDIA
Proibida a reprodução integral ou parcial, para uso comercial, editorial ou republicação na Internet, sem autorização mesmo que citada a fonte.