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Ayacucho
e Cuzco - Machu Picchu
Resolvi passar as eleições em Ayacucho, onde nasceu o movimento terrorista Sendero Luminoso. Durante mais de dez anos, essa região foi considerada de alto risco para turistas, alvo preferencial dos guerrilheiros que queriam chamar atenção da comunidade internacional. Hoje, a situação é tranquila. Por todo lado, vejo propaganda do 'Chino', como os peruanos apelidaram a Fujimori. No domingo de eleições, Ayacucho fica repleta de papitos e mamitas, camponeses homens e mulheres que cultivam plantações na cordilheira, quase a 70 graus de inclinação. Eles vieram à cidade votar e agora passeiam pela feira, levam os dedos sujos de tinta que usaram para assinar o voto.
As mamitas e papitos - mãezinhas e paizinhos - são lindos com suas roupas coloridas. Na estrada, os vejo sempre com seus rebanhos de lhamas, ovelhas e cabras. As mulheres carregam tudo nas costas, seus filhos, lenha, flores e batatas para vender nos mercados. Perto de Abancay, um grupo deles bloqueia a pista, uma mamita pede-me, chorando, que leve a ela e a seu marido até a cidade. Ele está em crise de apendicite, suponho. Eu dirijo a 40 km/h que é o máximo possível pelas curvas, pedras soltas e água que corta a estrada. Chegamos finalmente, direto ao hospital. Era apendicite mesmo.
Pela primeira vez, sinto dor de cabeça pelo mal de altitude. Devo ter descido rápido demais, pensava que era apenas na subida que dava. O pior é que tenho de esperar que o tráfego da estrada seja normalizado, são 6h da tarde e só posso seguir depois das 12h porque o trecho está em obras. Os caminhoneiros vêm conversar comigo e terminam por oferecer chá de folhas de coca para passar a dor de cabeça, tomo aspirina e o chá. Algo faz efeito porque a dor de cabeça passa. Sigo no rumo de Cuzco.
Decidi hospedar-me em um convento, o lugar mais seguro possível. Depois de ter sido roubada em Lima, queria segurança. Tudo bem, poderíamos ficar Farah e eu. Ela no pátio. A madre superiora fez uma única exigência: "Tem que lavar o carro". O convento é também uma escola e tudo é imaculdamente branco e limpo, contrasta com o meu Palio, que tá mais parecendo um carro de rally, coberto de pó e barro. Não quero lavá-lo, mas vou fazer a Trilha Inca para Machu Picchu e nem quero deixar o carro em uma 'cochera' / estacionamento. "Bueno, madre, todo bién." E assim que o carro foi lavado.
Farah não pode ir no trem de passageiros para Machu Picchu, a única alternativa é ir no vagão de bagagem. Minha passagem custa 12 soles; a da Farah, 18. Vamos as duas com o senhor que sobe e baixa caixas de ovos, móveis, uma bicicleta e algo que deixa Farah super curiosa: um porco vivo dentro de um saco. Bom, fiz a caminhada de três dias, armei barraca no meio do caminho, conheci outras ruínas dos incas, fiz amigos e, como todos muchileiros, subi também a montanha Huayna Picchu que está ao lado das ruínas da cidade sagrada. Para descer para Aguas Calientes, de onde sai o trem para Cuzco, fomos as duas num caminhão que leva os trabalhadores que estão restaurando as ruínas. Eles contam que há muitos outros terraços utilizados para cultivo e cerimônias dos incas, mas que estão embaixo da vegetação. Impresionante o trabalho destes mestres do ofício em pedra.
Vou conhecer Pisaq, onde há um mercado de artesanato e roupas de lã. De lá volto a Cuzco; no convento, recebo a cópia do meu documento de entrada no Peru que foi enviado de Lima pela aduana do país. Agora, finalmente posso seguir para Puno, no Lago Titicaca. Consigo informações sobre os bloqueios da estrada que haviam posto a Bolívia em estado de emergência, eles já terminaram. Se o conflito continuasse, teria de voltar para casa pelo Paraguai, mas poderei seguir o trajeto original: Copacabana, Tiwunaco, La Paz, Santa Cruz de la Sierra, Samaipata e, finalmente, Mato Grosso-Brasil.
Leia os anteriores :
Adeus, São Paulo
Paraná
Florianópolis, Praia do Rosa
Foz do Iguaçu, Ciudad del Este
Assunção
Missões, Porto Alegre e Fortaleza de Santa Teresa
Punta del Este, Montevidéu e Colonia del Sacramento
Buenos Aires
Península Valdés e Ruta 3
Terra do Fogo, Estreito de Magalhães
Ushuaia
Ruta 3, de Ushuaia para Punta Arenas
Torres del Paine y El Calafate
El Chaltén
Virei o carro na Ruta 40
De Rio Gallegos a Bariloche
Chiloe, Santiago e Isla Negra
Los Caracoles e Desierto de Atacama
Arequipa, Nazca y Lima
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