Parapente: Pilotos inertes jamais serão vencidos

Autor: Sílvio Ambrosini - Sivuca
Data: 11/8/2005

Susceptibilidade a colapsos é um conceito bastante relativo. Qualquer parapente é extremamente susceptível, pois é feito de pano e sensível as variações do ângulo de incidência. O conceito é tão relativo que não existe teste que o meça - nem o AFNOR nem o DHV fazem este tipo de teste o que necessitaria de um vôo em condições de alteração de incidência, ou seja turbulência... teríamos aí então resultados completamente impossíveis de quantificar dentro daquilo que os testes exigem, o que tornaria os resultados completamente subjetivos.

O que é medido sim é o chamado comportamento passivo de um parapente, ou seja, como o parapente reage espontaneamente após o evento, no caso, do colapso assimétrico. Isto levando em conta que o piloto não esboçará reação alguma, nem no sentido de corrigir nem no sentido de piorar a situação (o que não é incomum).

É claro que um parapente intermediário tem mais chances de sofrer colapsos que um saído de escola e um alta-performance tem mais chances de fechar que um intermediário, porém a eventual susceptibilidade medida entre parapentes da mesma categoria produziria "números" irrisoriamente diferentes, ou seja, os parapentes de uma mesma categoria têm mais ou menos as mesmas chances de sofrer colapsos.

É óbvio que por mais pretensamente seguro que seja um parapente, tudo aquilo que um piloto puder fazer para melhorar seu nível técnico e desde evitar que o tal colapso aconteça até evitar que um eventual colapso tenha conseqüências indesejadas, é extremamente bem-vindo.

Vejo então longas discussões acerca do desenrolar dos acontecimentos espontâneos (reação passiva) de um parapente, mas não vejo as pessoas falando sobre reação ativa dos pilotos. Creio que numa sociedade claramente masculinizada como é a brasileira, a reação ativa deveria sobrepujar a passiva, não é verdade? Entretanto o que vejo é o contrário... os pilotos deixam claro sua passividade como "passageiros" de um brinquedo que precisa se comportar bem e livrá-los de colapsos sem que eles nada façam, como se a solução para todos os problemas fosse realmente voar com a vela mais segura do planeta. Simultaneamente vejo pilotos em todas as rampas preocupados em trocar suas velas "mais-seguras-do-planeta" por outras de maior "performance" a fim de fazer frente com a pseudo-evolução do grupo social que o incentiva (força) mesmo involuntariamente a voar mais longe ou por mais tempo ou mais rápido. Isto é completamente paradoxal.

Afinal, o que os cavalheiros querem provar? Que o nosso esporte é um mundo virtual baseado em números exatos que não falham? Há poucos dias tivemos conhecimento de uma tragédia onde um piloto se chocou contra um objeto fazendo um pouso em um lugar de mínimo espaço. Creio que o piloto tinha um ano de vôo e estava equipado com um parapente no mínimo intermediário (não houve consenso se o cara voava de Omega ou Sigma). Aqui parece que uma falha de julgamento o matou independentemente do fato de estar voando com esta ou aquela vela, mas se analisarmos mais friamente, vemos que um piloto que esteja voando com uma vela brava demais para seu nível de experiência, é provavelmente uma pessoa dada a arriscar-se mais que o normal e conseqüentemente mais sujeita a um acidente como o que aconteceu.

Para que estou gastando energia com este tema? Vôo de parapente há quinze anos, dou aulas de parapente há dez anos e nuca vi este quadro sofrer algum tipo de melhora. Sabem porquê? Por que esta é a característica inata do ser humano. É assim que o idiota humano sai de fábrica, esse é o seu "default". Qual é a solução? A única solução possível é encarar a realidade da auto-burrice-automática-de-berço e procurar se virar para lutar contra ela desenvolvendo-se tecnicamente.

Infelizmente isto requer esforço, requer um movimento contrário a correnteza. Não existe evolução coletiva, não adianta esperar sentado, somente existe evolução individual e esta requer um esforço naquela direção. Isto explica e eu não me surpreendo, o porquê de estarmos passando da metade do ano e até agora termos tido apenas três ou quatro míseras turmas de SIV frente a mais de três mil participantes do nosso esporte.

Ou seja, de três mil pessoas, apenas umas 12 ou 16, digamos 30 pessoas tenham neste ano, se interessado e mover-se para fora da inércia natural do homem. Quantas talvez tenham participado de cursos teóricos ou práticos além do sobe-desce do morrinho? Creio que não foram muitas também... Quantas pessoas têm informação técnica clara e suficiente sobre como prever e como agir diante do vôo na turbulência? São poucas não é? A maioria está apenas torcendo para que tudo dê certo, afinal é muito mais fácil esperar, sentar, rezar e torcer do que agir. O homem faz o que é mais fácil ou estou errado?

Isto é surpreendente? Absolutamente não, infelizmente não.

Vamos então sentar e torcer-para-que-tudo-dê-certo.

Silvio Ambrosini (Sivuca) é instrutor de vôo livre e um dos mais antigos pilotos de parapente do Brasil, tendo participado de diversos campeonatos nacionais e internacionais.

Ventomania
http://www.ventomania.com.br


Todas as colunas

 

Nota do editor: o texto desta coluna não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.



© Copyright 1998 - 2009 - 360 GRAUS MULTIMÍDIA
Proibida a reprodução integral ou parcial, para uso comercial, editorial ou republicação na Internet, sem autorização mesmo que citada a fonte.