
Susceptibilidade a colapsos é um conceito bastante relativo. Qualquer
parapente é extremamente susceptível, pois é feito de pano e sensível as
variações do ângulo de incidência. O conceito é tão relativo que não existe
teste que o meça - nem o AFNOR nem o DHV fazem este tipo de teste o que
necessitaria de um vôo em condições de alteração de incidência, ou seja
turbulência... teríamos aí então resultados completamente impossíveis de
quantificar dentro daquilo que os testes exigem, o que tornaria os
resultados completamente subjetivos.
O que é medido sim é o chamado comportamento passivo de um parapente, ou
seja, como o parapente reage espontaneamente após o evento, no caso, do
colapso assimétrico. Isto levando em conta que o piloto não esboçará reação
alguma, nem no sentido de corrigir nem no sentido de piorar a situação (o
que não é incomum).
É claro que um parapente intermediário tem mais chances de sofrer colapsos
que um saído de escola e um alta-performance tem mais chances de fechar que um
intermediário, porém a eventual susceptibilidade medida entre parapentes da
mesma categoria produziria "números" irrisoriamente diferentes, ou seja, os
parapentes de uma mesma categoria têm mais ou menos as mesmas chances de
sofrer colapsos.
É óbvio que por mais pretensamente seguro que seja um parapente, tudo aquilo
que um piloto puder fazer para melhorar seu nível técnico e desde evitar que
o tal colapso aconteça até evitar que um eventual colapso tenha
conseqüências indesejadas, é extremamente bem-vindo.
Vejo então longas discussões acerca do desenrolar dos acontecimentos
espontâneos (reação passiva) de um parapente, mas não vejo as pessoas
falando sobre reação ativa dos pilotos. Creio que numa sociedade claramente
masculinizada como é a brasileira, a reação ativa deveria sobrepujar a
passiva, não é verdade? Entretanto o que vejo é o contrário... os pilotos
deixam claro sua passividade como "passageiros" de um brinquedo que precisa
se comportar bem e livrá-los de colapsos sem que eles nada façam, como se a
solução para todos os problemas fosse realmente voar com a vela mais segura
do planeta. Simultaneamente vejo pilotos em todas as rampas preocupados em
trocar suas velas "mais-seguras-do-planeta" por outras de maior
"performance" a fim de fazer frente com a pseudo-evolução do grupo social
que o incentiva (força) mesmo involuntariamente a voar mais longe ou por
mais tempo ou mais rápido. Isto é completamente paradoxal.
Afinal, o que os cavalheiros querem provar? Que o nosso esporte é um mundo
virtual baseado em números exatos que não falham? Há poucos dias tivemos
conhecimento de uma tragédia onde um piloto se chocou contra um objeto
fazendo um pouso em um lugar de mínimo espaço. Creio que o piloto tinha um
ano de vôo e estava equipado com um parapente no mínimo intermediário (não
houve consenso se o cara voava de Omega ou Sigma). Aqui parece que uma falha
de julgamento o matou independentemente do fato de estar voando com esta ou
aquela vela, mas se analisarmos mais friamente, vemos que um piloto que
esteja voando com uma vela brava demais para seu nível de experiência, é
provavelmente uma pessoa dada a arriscar-se mais que o normal e
conseqüentemente mais sujeita a um acidente como o que aconteceu.
Para que estou gastando energia com este tema? Vôo de parapente há quinze
anos, dou aulas de parapente há dez anos e nuca vi este quadro sofrer algum
tipo de melhora. Sabem porquê? Por que esta é a característica inata do ser
humano. É assim que o idiota humano sai de fábrica, esse é o seu "default".
Qual é a solução? A única solução possível é encarar a realidade da
auto-burrice-automática-de-berço e procurar se virar para lutar contra ela
desenvolvendo-se tecnicamente.
Infelizmente isto requer esforço, requer um movimento contrário a
correnteza. Não existe evolução coletiva, não adianta esperar sentado,
somente existe evolução individual e esta requer um esforço naquela direção.
Isto explica e eu não me surpreendo, o porquê de estarmos passando da metade
do ano e até agora termos tido apenas três ou quatro míseras turmas de SIV
frente a mais de três mil participantes do nosso esporte.
Ou seja, de três mil pessoas, apenas umas 12 ou 16, digamos 30 pessoas
tenham neste ano, se interessado e mover-se para fora da inércia natural do
homem. Quantas talvez tenham participado de cursos teóricos ou práticos além
do sobe-desce do morrinho? Creio que não foram muitas também... Quantas
pessoas têm informação técnica clara e suficiente sobre como prever e como
agir diante do vôo na turbulência? São poucas não é? A maioria está apenas
torcendo para que tudo dê certo, afinal é muito mais fácil esperar, sentar,
rezar e torcer do que agir. O homem faz o que é mais fácil ou estou errado?
Isto é surpreendente? Absolutamente não, infelizmente não.
Vamos então sentar e torcer-para-que-tudo-dê-certo.
Silvio Ambrosini (Sivuca) é instrutor de vôo livre e um dos mais antigos pilotos de parapente do Brasil, tendo participado de diversos campeonatos nacionais e internacionais.
Ventomania
http://www.ventomania.com.br
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