
Cuidado! Cimento fresco!
Quando tínhamos uma casa na Praia Grande, havia um vizinho cuja simpática esposa, porém não exatamente exímia motorista, não calculou bem o raio de giro do volante de seu fuscão e arrancou o portão e derrubou o muro da entrada ao tentar entrar na garagem. Ele não ficou muito bravo, apesar da ter amassado o carro inclusive, e rapidamente comprou tijolos, cimento e tratou de consertar o muro semi-destruído.
Ele parecia meio apressado, pois fez questão de montar o portão no muro antes que o cimento secasse e na mesma tarde tentou fazer um teste para ver se o portão já agüentava peso. Lógico que veio tudo abaixo novamente, afinal meia tarde não é suficiente para secar o cimento e ainda mais tendo de suportar o peso do portão.
Olhando para dois acidentes que aconteceram recentemente, gostaria de comentar algumas conclusões a que cheguei conversando com algumas pessoas e principalmente comigo mesmo.
Em ambos os casos, os pilotos estavam fazendo (ou se preparando para fazer) suas primeiras experiências com uma novidade (vôo termal).
Em ambos os casos, os pilotos tinham um bom controle de solo e estavam tranqüilos aparentemente e segundo depoimento de ambos que confirmaram isto.
Em ambos os casos, os pilotos tiveram dificuldade em administrar um processo novo ao mesmo tempo em que tinham de administrar um mais antigo.
O resultado foi ossos quebrados em ambos, um deles inclusive com necessidade de intervenção cirúrgica para estabilização das fraturas.
Durante o processo de aprendizado, somos apresentados a um sem-número de novidades. O ato de inflar e controlar o parapente no solo não se assemelha à maioria das coisas que fazíamos até então em nossas vidas. A não ser que tenhamos sido pilotos de Kite Surf, empinar pipas é o que mais parece com a decolagem do parapente, ou seja... Bastante distante da realidade.
Através dos exercícios que são ministrados no curso básico, os alunos aprendem a inflar e controlar o parapente com uma velocidade espantosa. Podemos concluir que os exercícios possuem um nível bastante relevante de eficiência.
Entretanto, temos (e quem não tem fique sabendo) consciência de que o ser humano, quando diante de um processo de aprendizado, passa de uma fase mental onde tudo o que vai executar tem obrigatoriamente, que passar por uma análise concreta, até uma fase mais intuitiva onde finalmente, uma vez que estes atos estejam realmente fundamentados, adquirem uma consistência que podemos chamar de cristalização.
Esta cristalização significa dizer que o conjunto de ações necessárias para se executar determinada tarefa que se encontrava sob administração de um processo mental, encontra-se agora dentro do domínio corpóreo (que podemos chamar de intuitivo), ou seja, o corpo realiza as ações sem que para isto seja necessária uma interpretação mental. Quando vemos uma bailarina que dá um grande salto, ela não está pensando passo a passo em cada movimento que está executando. Os movimentos acontecem comandados por uma outra instância da máquina humana. É o departamento motor que administra isto.
Vou abrir um parêntesis aqui para uma informação relevante.
A mente trabalha em uma determinada velocidade, todos sabemos disto. Se você precisa fazer um cálculo, ou descobrir qual o metrô que tem de tomar para chegar em determinada estação ou decidir qual o filme que você vai ver hoje ou escolher um prato do cardápio, enfim todas estas coisas não são processadas tão rapidamente como, por exemplo, quando alguém lhe dá um beliscão e você se afasta, ou então quando você escuta uma buzina na rua e vira a cabeça para olhar, ou quando um mosquito zumbe na sua orelha e você o abana involuntariamente, ou mesmo quando você muda as marchas do carro e assim por diante.
O que quero dizer é que a velocidade de processamento dos dados mentais é infinitamente mais lenta que a dos dados motores. E vou mais longe, se alguém lhe dá uma notícia que o entristece, seu corpo inteiro passa por uma infinidade de alterações de processos antes mesmo de você ser capaz de analisar a profundidade da notícia; você treme, sua temperatura se altera, seus músculos se contraem, sua barriga dói, seus olhos se enchem de lágrimas... e assim por diante.
Tudo muito mais rápido do que você seria capaz narrar simultaneamente o que está lhe acontecendo. Se o corpo é infinitamente mais rápido que a mente, as emoções são infinitamente mais rápidas que o corpo.
Temos então um pequeno problema aqui: enquanto tivermos de pensar tudo o que fazemos, seremos lentos demais, estaremos sempre atrasados, ou alguém aqui sai executando wingovers direitinho só escutando as explicações? Claro que não! É preciso treino. Pois a mente não pode executar com maestria tarefas que pertencem ao corpo; ela as executa, porém muito lentamente, já que tem de processar, analisar, dar a ordem para a parte do corpo correspondente que finalmente irá agir.
Já pensou se um músico tivesse de pensar cada nota que irá tocar? A música não aconteceria.
Quando você se concentra exclusivamente em um processo motor, ainda consegue realizá-lo com um certo nível de eficiência, porém, se um fator externo lhe chama a atenção então fica quase impossível manter a qualidade dos resultados, a não ser que o corpo consiga realizá-lo sem a ajuda de sua mente.
Assim, uma simples decolagem, que lhe parece sob inteiro domínio (mental) está sujeita a erros muito especialmente se um fator extra, mudar seu foco de atenção. Desta forma, se você está pensando em cada etapa de sua decolagem, mas de um momento para outro sua cabeça tem de processar informações sobre ângulo de inclinação em térmicas, raios de giro, compensação de pressão, pilotagem ativa, etc... a atenção que sua decolagem estava recebendo diminui proporcionalmente e finalmente caso seu corpo ainda não esteja capacitado a administrar este processo de forma intuitiva, o processo correrá sério risco de erro e conseqüentemente de acidentes.
Assim, meus queridos; tenho algumas sugestões para os senhores e senhoras que estão lendo este texto:
Nota do editor: o texto desta coluna não reflete necessariamente a opinião do site 360 Graus, sendo de única e exclusiva responsabilidade de seu autor.
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