Voar, ora voar... é uma sensação quase indescritível

Tema:Parapente
Autor: Silvio Ambrosini - www.ventomania.com.br
Data: 14/3/2002

Voar, ora voar... é uma sensação quase indescritível (senão, como sairia este artigo?).

Sentar naquela cadeira pendurada num punhado de cordinhas, todas presas num pedaço de pano nem parece tão maluco assim, mas ter a habilidade de conduzir tudo isto por um tempão, percorrendo as vezes muitos quilômetros, sem motor para empurrar o "trem" é muito mais do que algo super legal, é a realização de um sonho.

Um sonho onde você se transforma em mestre absoluto.
Um sonho que você controla.
Um sonho onde somente a sua sensibilidade e habilidade governam.


Ah, queda livre, teleférico, vôo duplo... tudo passividade geradora de adrenalina. Pilotar está muito além de segundos de adrenalina, substância cultuada pela mídia para atrair pessoas a potencias esportes chamados "adrenantes"...

O homem quer voar a muito tempo. Sempre tentou dar um jeito de construir máquinas voadoras. Dumont voava no início do século, os irmãos Wright também, Julio Verne retratava em suas obras as mais incríveis maneiras de voar, Da Vinci adiantava-nos os mais incríveis métodos de pairar no ar.

A gente pulava do muro com um guarda-chuva aberto, pulava do telhado com uma capa nas costas e admirava o Super Homem, não pela sua força, mas pela sua capacidade de voar. Quem não se lembra de vários outros super heróis que voavam? Capitão Marvel, a Poderosa Isis, o Super Dínamo, e vários outros.

Os que voavam sempre foram os mais queridos e invejados. Leonardo Da Vinci disse: "depois que alguém voa, passa o resto dos seus dias olhando pra cima querendo voltar prá lá..."

O vôo é um tipo de fuga, os problemas ficam pequeninos lá embaixo e aqui em cima só tem você e o silêncio... o silêncio do ar acariciando nossa pele... A distância reina absoluta. Uma solidãozinha especial nos fascina neste momento de intimidade absoluta. Não tem nada, absolutamente nada por perto. O chão está à centenas, às vezes milhares de metros de distância... a gente pode gritar, cantar, falar sozinho, falar com Deus...

A Mitologia Grega já nos contou sobre Ícaro que fugia com seu pai do labirinto... Castigo do rei Mithos!. O caminho era o vôo. Daquela maneira ninguém poderia alcançá-los. Daquele modo eles eram soberanos, estavam acima de todos, viam tudo do alto. Se bem que Ícaro, desgraçadamente caiu no mar Egeu, mas isso depois eu explico...

Mas a "solidãozinha" que mencionei acima faz parte de um paradoxo, pois ao mesmo tempo que o vôo é um esporte individual, pousamos com os amigos, e os amigos... pousam juntos e falam de vôo, das sensações que sentiram, das conquistas que se fizeram possíveis, daqueles momentos daquela solidãozinha mágica, um momento que serve de combustível para alimentar nosso desejo de confraternização... de dividir com nossos queridos cada instante daquilo que sentimos lá em cima.

E sempre sentimos coisas diferentes!! A estória não fica repetitiva. Cada vôo é um passo em nossa evolução de pilotos e poder contar e escutar isto das pessoas é realmente muito bom. A solidão do vôo é parceira do convívio do vôo. Uma coisa completa a outra. Um vôo nunca é igual ao outro. Isto é legal no parapente, a gente nunca chega ao topo, sempre tem algo mais a aprender.

Quando a gente tem um motor para acelerar, passa a depender dele.

Motor forte = mais rendimento.
Motor fraco = dançou.

No parapente, não dependemos de máquinas, e sim de nós mesmos, assim como na vida. Se a gente erra, a gente desce mais cedo. Se a gente se esforça e se dedica, consegue ir mais longe. Chego a conclusão que o parapente é um retrato da vida.

Quando a gente consegue conquistar um objetivo pelo esforço próprio, por mais simples que ele possa parecer para o seu colega ao lado, sabemos que fomos nós os únicos responsáveis, não foi um motor que nos empurrou. Nessa hora nos sentimos tão realizados, tão felizes que somente as mais belas conquistas da vida são capazes de paralelizar momentos com o parapente.

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