
Parapente: Cosmic Rider

Rampa Sul - Logo que decolamos

Rampa Norte - Enquanto enroscávamos uma térmica perto da Santa

O Ibituruna e observamos a sombra no pico de um CB se formando

Daniel Crespo - Piloto espanhol que voou junto durante algum tempo

Eu e Bruce

Piloto de Asa - Guga Saldanha
Piloto de Parapente - Daniel Crespo

Cloud Street até as pedras

Lucas (piloto de parapente e fez o primeiro vôo do Cosmic Rider com o Bruce no dia anterior) Bruce e Márcia
Márcia Poppe uma voadora carioca, relata os detalhes que a deixaram fascinada pelo vôo que fez com Bruce Goldsmith, um dos melhores pilotos de teste do mundo. Um vôo de quase 4 horas e 60 km, no qual muitas situações diferentes foram vividas. Voar dentro de nuvens, junto com outros pilotos e um super deep stall para testar o parapente com pouco peso, fizeram com que nossa amiga voadora ficasse admirada com tamanho profissionalismo e técnica. (Lú Fernandes)
Texto: Marcia Poppe
Local: Governador Valadares- MG
Data: 08 de março de 2000
Dia Internacional da Mulher
Piloto: Bruce Goldsmith
Co-pilota/passageira feliz: Marcia Poppe
Equipamento: Ozone Cosmic Rider amarelo e vermelho, igual ao meu Santana...
Decolamos ao meio dia, da rampa sul, depois de desistir de esperar o vento virar na rampa norte por alguns longos minutos, e antes da janela do Brasileiro abrir.
A decolagem foi engraçada, o parapente subiu com muita velocidade e puxou a gente pra trás.
Eu tropecei, acabei caindo sentada!!! E só ouvia os gritos da galera
"levanta, levanta!"... Claro que era isso que eu estava tentando fazer... Depois de muito esforço, consegui levantar e partimos pra frente, saindo do chão como uma pluma, e já ganhando tudo do lado direito da rampa.
Lá estava eu, a poucos metros das antenas, feliz da vida, admirando a rampa, toda sua movimentação e suas cores a bordo de uma viagem cósmica, com um cara que admiro pra burro, desde quando assisti ao vídeo "Instability" (que meu querido Mestre - Paulo Pinto - mandou, antes de começar a voar ).
Bruce me concedeu a entrevista da Airtime n° 21, e hoje faz parte do meu grupo de amigos. Nosso vôo durou 3 horas e 50 minutos e foi o segundo vôo do Cosmic Rider nas Américas... Vem de lá, primeirão !!!
A condição não estava clássica de Governador Valadares e depois que ganhamos a rampa, passamos para o lado norte, com o Bruce tentando tirar proveito do que bombava na Santa. A prova do
dia seria distância livre no eixo de Linópolis, passando por São Vitor... na direção daqueles pedrocos lindos, que conseguimos avistar ao longe quando o dia está claro, a direita do lado norte bem depois do rio. Um lugar que sempre admirei de longe e que nunca pensei ser tão perto.
Quando parou de render na Santa, Bruce decidiu ir lambendo a cordilheira até chegar do outro lado onde havia uma nuvem, na qual entramos e ficamos por bem uns 10 minutos. Voei entubada pela primeira vez e achei diferente de tudo que jamais havia imaginado. O piloto mandava bem, a nuvem era tranqüila, não estava carregada, o
parapente era uma mãe... ???
Talvez tudo isso tenha colaborado para que eu estivesse literalmente nas nuvens. Muito gostoso. Mas não recomendo e nem vou sair fazendo isso sozinha por aí...
Saímos da nuvem alto e numa direção completamente diferente da que entramos.
Voltamos ao nosso rumo para cruzar o rio alto e acompanhar a prova. Já conhecia o lado sul do cross de Valadares. O lado norte, estava sendo apresentado pra mim da melhor maneira possível, e com uma ótima companhia.
Conversamos o tempo todo, Ele ia me dizendo o que ia fazer, me perguntando o que eu achava, onde deveríamos ir e tudo mais. Uma das coisas que me disse é que adora fazer duplos, pois dá pra se divertir e conversar. Muito !
Do outro lado do rio, outra nuvem grande e ele decidiu entubar novamente, mas logo se arrependeu. Resolveu fazer um B-Stall para sentir a reação do velame, pois nós dois juntos estávamos no peso mínimo, e ele preferiu não arriscar.
Caímos a -8 m/s, e ao sair da nuvem entramos em vôo novamente. Depois disso, estava eu tranqüilamente curtindo o visual, quando senti que o parapa tinha parado de voar. Olhei pra cima e vi os freios bem atuados, as mãos do Bruce cá em baixo... "Bruce, o que você está fazendo???
Daniel Crespo - Piloto espanhol que voou junto durante algum tempo
" E ele na maior calma, respondeu que estava testando o deep stall do
parapente, já que leves, o problema maior seria entrar em vôo depois do parapente estolar... É, né, fazer o quê? Relaxei e curti !! O "worst recovery" não foi tão ruim assim, eu adorei...
O dia estava lindo e o sol bem forte. Ficamos a maior parte do tempo acima de 1.000m, o que não é muito para GV. Morria de frio quando passávamos disso, mesmo com luva e macacão. Lá pelas duas horas de vôo, ficamos baixo, cheguei a pensar que iríamos pousar.
Mas perto dos 400 m, avistei uns urubus e conseguimos chegar até a base da nuvenzinha que ainda se formava. "There are the urubus, Bruce!" And off we went to get to cloudbase again...
Voamos, conversamos, voamos, conversamos... De vez em quando, juntávamo-nos a um ou outro parapente, que chegava veloz ou que ficava para trás. Voamos com alguns franceses, com o Daniel Crespo, com algumas asas, que chegavam rápido e iam embora.
Muito legal enroscar junto com outro parapente.
Junto mesmo, do tipo, você encara o cara de frente, e os dois sobem juntos, na mesma taxa, com a mesma velocidade, dentro da mesma massa de ar, daquele jeito que os parapentes "param" e quem enrosca é o mundo a nossa volta.
A cada 10 km, comemorávamos... E as pedras cada vez mais perto... São Vítor já tinha ficado para trás... Chegamos ao ponto em que a estrada faz uma curva pra esquerda, e se distancia dos pedrões. Aí, o Bruce resolveu voltar. Que pena... Mas deu pra ver que o vôo para aquele lado é muito mais bonito. O visual das pedras, do vale que se forma, das cachoeiras que avistamos... Uma paz que há muito tempo não sentia. Mais um para o meu log book de vôos inesquecíveis.
O objetivo era pousar em Governador Valadares, mas quando estávamos lá pelas 3 horas de vôo, deu uma merrecada e ficamos baixo novamente, 500 m. As térmicas estavam super fracas e
subíamos a 0.5m/s... Ficamos um tempão para voltar aos 890m, quando encontramos tudo azul e não teve mais jeito. Conseguimos voltar uns 20 km, pelo que pude calcular... Ao todo, voamos cerca de 55/60 km...
O pouso foi tranqüilo, ao lado da estrada, num pasto enorme que tive a honra de escolher como landing spot. Ele me deu várias opções, e obviamente, eu
escolhi a maior, mais larga e com menos fios. Foi o meu melhor vôo de cross country. O que durou mais. O que me ensinou mais.
Agora eu posso entender o que a Mailcar falou sobre voar duplo com alguém assim.
(Mailcar é também uma voadora de parapente e recordista mundial de
vôo duplo em distância, com o piloto André Fleury. A dupla bateu o recorde voando 213,7 km em Quixadá - CE no dia 2 de dezembro de 1999).
O que mais me impressionou, foi a capacidade dele de tomar todas as decisões certas. Saber que ali esta azul, mas que o relevo é propício para um belo glide (tirada em inglês). Saber que ali vai desprender uma térmica por causa disso e daquilo. Antecipar que essa térmica vai subir mais que aquela outra mais ao lado.
Observar que grupo de urubus sobem mais rápido, e saber entrar junto com eles, para o mesmo lado. Enroscar perto de tantos outros parapentes, com calma e precisão.
Afinal, são 21 anos de vôo livre. Bruce passou mais da metade da sua vida voando. De repente voar se mostrou fácil demais...
Lulu, muito obrigada por ter nos emprestado seu velame novinho em folha...
É isso ai !!
Beijo,
Marcia Poppe (mpoppe@uninet.com.br)
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