Atletas começando a formação
Foto: Rick Neves
Atletas saltaram a uma altitude de aproximadamente 6km
Foto: Rick Neves

Formação em Queda Livre com 80 atletas
Foto: Rick Neves

Recorde brasileiro e sul-americano de Formação em Queda Livre
Foto: Rick Neves

80 pára-quedistas rebrando o recorde brasileiro e sul-americano de formação
Foto: Rick Neves
Quando a estrela humana se estrutura no céu, a forma ofusca o esforço anterior em função de sua perfeição. Mas encanta. Naquele instante os corpos ligados pelas mãos por segundos são uma coisa só. E ninguém, distante de todo o processo, poderia imaginar quanto trabalho despendido para realizar o improvável. Tal qual aconteceu no último domingo, dia 31 de julho, quando 80 pára-quedistas conseguiram quebrar o recorde brasileiro e sul-americano de Formação em Queda Livre. Saltaram de uma altitude de 18 mil pés em Florianópolis (SC) e cumpriram a missão. Apenas um minuto e meio entre o momento de saída do avião, a formação humana e, por fim, a separação.
O feito só foi alcançado depois de muito trabalho. Há sete anos os brasileiros buscam esta marca. Assim como uma formação pede habilidades específicas trabalhadas em conjunto no céu, a quebra de um recorde nesta modalidade de pára-quedismo pede muita competência, organização e treinamento no chão. Para explicar os detalhes que antecedem uma realização como esta, o pára-quedista Fábio Diniz, detentor de vários títulos nacionais e recordes sul-americanos de grandes formações, conta para o leitor do 360 Graus como foram os preparativos para o evento.
360 Graus - Qual foi o seu papel nesta quebra de recorde?
Fábio Diniz - O meu papel foi dividido em três áreas, uma parte antes e outra durante o evento. Antes do evento trabalhei em conjunto com os outros capitães e com a organização geral convocando uma parte dos atletas e também na parte técnica e planejamento - discutindo com os outros capitães toda a engenharia, metodologia, estrutura de comunicação, segurança do evento, etc. Dividimos os setores que envolviam a segurança do evento em cinco aspectos (saída, aproximação, vôo da formação, separação e abertura, navegação e pouso).
Cada capitão ficou responsável por cuidar de uma dessas áreas; a minha responsabilidade era a separação dos atletas após o final do salto, ou seja, cuidar para que após o término do salto, todos conseguissem se afastar da formação com segurança, abrindo seus pára-quedas distantes o suficiente, evitando colisões, acidentes ou acionamentos a baixa altura. Durante o evento fiz parte do chamado X-team, ou seja, um time de três pára-quedistas experientes que têm a responsabilidade de tomar todas as decisões durante o evento. O X-team é o time que recebe todas as informações dos cinco capitães de setor e faz os ajustes que achar necessário para o bom andamento das atividades.
O que mais gostei durante o evento foi justamente do trabalho em equipe que os capitães fizeram. Tomamos praticamente todas as decisões em conjunto, de forma coesa e correta. Este foi o ponto alto da organização na parte técnica. Nenhum de nós fez mais ou menos .. todos eram importantes e este foi o segredo do sucesso do evento e do prazer que tive de trabalhar com eles nestes dias. Durante o salto propriamente dito, o meu papel era igual ao de todos, fazer a minha parte bem feita e seguir o plano: nada mais, nada menos.
360 Graus - Como foi a seleção destes pára-quedistas? Qual o critério?
Fábio Diniz - O critério de seleção foi bem simples: a Organização Geral do evento, Sra Carmem Silvia Pettená escolheu seis capitães técnicos que são atletas experientes. Estes seis capitães convocaram os 151 atletas que participaram do evento. Dentro deste número haviam pára-quedistas com condições técnicas para os saltos de tentativas e outros que foram convocados para demonstrarem suas habilidades durante os saltos de try-out, ou seja, todos tiveram a oportunidade de estar nos saltos de tentativa.
360 Graus - Como é o treinamento para grandes formações?
Fábio Diniz - O treinamento para os saltos de grandes formações é um longo processo e começa no dia a dia do atleta. Para estar em um salto deste tipo é necessário um bom vôo individual, habilidades específicas que são exigidas durante os saltos e que fazem a diferença. Por isso temos dois tipos de preparo.
O primeiro estaria relacionado com a habilidade individual de cada atleta e a segunda parte do treinamento seriam os saltos setorizados, ou seja, antes de tentarmos o recorde propriamente dito, fazemos saltos menores com 30 ou 40 pára-quedistas. Estes saltos na verdade são a formação original dividida em setores e durante estes saltos os capitães de cada setor conseguem fazer os ajustes necessários preparando o time para a tentativa propriamente dita. Quando julgamos que os setores estão prontos, simplesmente juntamos todos eles e vamos para a tentativa.
360 Graus - Como os atletas sabem que a formação foi feita, e está de acordo com o combinado no chão? Como isso funciona no ar?
Fábio Diniz - Na verdade fizemos várias tentativas de bater o recorde antes de conseguirmos. Começamos com 104 pára-quedistas e fomos diminuindo o tamanho da formação até atingirmos o tamanho ideal, ou seja, o tamanho que conseguiríamos fazer o salto acontecer, que neste caso, foi de 80 pára-quedistas. Em queda-livre cada segundo é muito importante e precisamos utilizá-los da melhor maneira possível e de forma otimizada.
Temos um tempo de trabalho e também uma altura limite para iniciarmos a separação com segurança. Saltávamos a 18.000 pés (6 km) e a separação se iniciava a 6.500 pés, sendo assim, conseguindo ou não o fechamento total da figura, sempre temos que nos separar na altura pré-combinada para mantermos a segurança e integridade física de todos os envolvidos. No salto do recorde, fechamos a formação a 7.000 pés, por isso o fechamento da figura e o início da separação ficaram tão próximos.
Sobre saber se estávamos fechados ou não, realmente só conseguimos ter certeza disso depois de assistir o salto no chão. Cada atleta sabe para onde ter que ir e onde tem que segurar para fechar a figura, cada atleta só se concentra em fazer o seu trabalho, o trabalho da equipe é verificado após o pouso.
360 Graus - A velocidade é muito alta na queda. não existe perigo de colisão?
Fábio Diniz - O perigo de colisão existe, porém, existe uma grande engenharia por trás de um salto deste tipo, esta engenharia cobre desde o momento da saída do avião até o momento do pouso, ou seja, em nenhum momento do salto alguém faz algo que julgou ser certo, muito pelo contrário, temos um plano pré-combinado e todos devem seguir este plano. Durante a aproximação cada um tem a sua radial, ou seja, uma linha imaginária que serve de guia para que não existam rotas de colisão. As mesmas radiais imaginárias são utilizadas no momento da separação. Toda esta engenharia minimiza muito o risco de colisões durante o salto e a maior prova disso é que os saltos foram 100% seguros, não tivemos nenhuma situação de risco ou crítica, isso demonstra que acima do recorde esta a nossa preocupação com a segurança dos atletas.
360 Graus - A ordem dos saltos é feita de acordo com a formação, ou isto é acertado durante a queda, com manobras no ar, específicas, que ditam a velocidade e a direção?
Fábio Diniz - Sem dúvida, existe um aspecto importante da saída que chama-se Line-up. Dentro do avião todos os atletas estão posicionados de forma que a figura possa ser construída de dentro para fora, fazendo com que aqueles que devem chegar primeiro na formação saiam primeiro e que os últimos a fechar a figura saiam mais para trás. Tudo tem a sua ordem, o seu plano, o seu porque. Nada que acontece durante o salto é improvisado, tudo é devidamente planejado e combinado com o time antes de subirmos.
Neste tipo de salto não pode existir improviso ou ações isoladas, todos devem estar cientes do plano global e também da sua parte dentro deste plano. Este é o verdadeiro trabalho em equipe e cada um tem o seu papel que é tão importante quanto o dos outros integrantes.
360 Graus - Por que Florianópolis?
Fábio Diniz - A organização escolheu Florianópolis pois existe toda uma estrutura que deve ser montada para um evento deste tipo. Tivemos o apoio do Governo do Estado de Santa Catarina, da Prefeitura de Florianópolis, da Base Aérea, da Infraero além de muitos outros õrgão importantes. A Estrutura e tamanho do aeroporto também contaram muito, afinal, temos uma área imensa de pouso e tudo isso contribuiu para que o evento acontecesse lá.
360 Graus - Qual está sendo seu trabalho na tentativa de quebra de recorde mundial? Em que pé está isso?
Fábio Diniz -O recorde mundial de Formações em Queda Livre é perseguido por nós há pelo menos cinco anos. Dentro deste tempo já conseguimos bater recordes brasileiros e sul-americanos, superando nossas próprias marcas. O meu trabalho para o recorde mundial é exatamente o mesmo que desenvolvi e que citei acima. Nada muda. Temos uma equipe de capitães fantástica, Pedrosan, Marcos Padilha, Fernando, André Ferraz, Rogério Martinati, eu e Humberto Prado.
Somos liderados por duas pessoas, uma delas é a incansável Carmem, idealizadora e organizadora do evento e o nosso líder técnico, Ricardo Pettená. Esta equipe é fantástica e coesa, todos são pessoas brilhantes e o nosso trabalho para a quebra do recorde mundial é o mesmo, dedicação, comprometimento e muita perseverança, o resto está pronto, só precisamos treinar e ter os recursos na mão. O recorde mundial é somente uma questão de tempo.
Teremos basicamente as mesmas pessoas que estavam no sul americano e a nossa idéia é conseguir trazer diversos pára-quedistas experientes que não puderam estar neste evento por variados motivos. Precisamos da união de todos os talentos nacionais para conseguiremos bater o mundial, estamos trabalhando para que isso aconteça. Muitas pessoas que não tinham condições de estar neste tipo de salto estão treinando e melhoraram consideravelmente. O Brasil possui muitos talentos, somos um povo habilidoso e precisamos usar o nosso capital humano, esta é a idéia principal da organização do evento.
Gostaria de encerrar parabenizando cada um dos participantes, não importando o trabalho que foi feito, se ele estava no salto principal ou não. Para batermos um recorde dependemos de todos, desde a dobragem até os pilotos, passando pelo time Alpha (reserva) e pelas pessoas que fazem o trabalho dos bastidores. Acredito que estávamos em mais de 200 pessoas trabalhando para o evento, este é o segredo do sucesso. A oportunidade que me foi dada é muito valiosa, aprendi muito nestes dias e realmente só posso agradecer e parabenizar de coração cada uma das pessoas que lá esteve. Seremos recordistas mundiais, o Brasil e as pessoas envolvidas merecem este título.
» Confira a entrevista exclusiva com o pára-quedista Fábio Diniz
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