As grandes aeronaves no lançamento de pára-quedistas

Tema:Pára-quedismo
Autor: Renato Gordinho
Data: 23/2/2004

Finalmente nós, os pára-quedistas brasileiros chegamos à era dos grandes aviões: Skyvan, Caravan e outros mais. Mas tudo que é bom tem seu lado ruim, com os grandes aviões temos também alguns problemas novos relacionados com a capacidade de “carga” dessas aeronaves. Com o aumento do número de pára-quedistas a bordo temos que nos adaptar a separar os grupos, definir quem sai primeiro (relativistas ou freeflyers) e qual o tempo necessário entre a saída dos grupos.

Ordem de saída:

A separação dos grupos deve obedecer a uma ordem lógica, que leva em consideração a altura de abertura e o tamanho dos velames dos pára-quedistas. Inicialmente devemos colocar os mais experientes e com velames menores para sair primeiro, depois aqueles que utilizam velames intermediários com tamanhos entre 170 e 230 pés quadrados, logo em seguida os alunos, respeitando peso e salto a ser realizado (mais pesados e maior velocidade de queda na frente) e por fim os pilotos de salto duplo.

Temos ainda os saltos considerados especiais como skysurf, TRV e outros que geralmente são realizados por pessoas mais experientes. No caso do TRV fica um pouco óbvio que os praticantes desta modalidade devem sair por último devido à altura de abertura. Os skysurfers geralmente preferem sair primeiro por causa da dificuldade de movimentação dentro da aeronave após a equipagem. Finalmente, chegamos a uma questão que tem provocado grande polêmica dentro das áreas que operam com grandes aviões. Quem deve sair primeiro, relativistas ou freeflyers?

Vamos lembrar daqueles conceitos sobre vento relativo e velocidade sub terminal que aprendemos em nossos cursos teóricos quando fizemos nossos primeiros saltos. Como é de conhecimento geral, os freeflyers atingem uma velocidade superior à dos relativistas, e também é sabido que atingem a velocidade terminal em menor tempo, portanto os freeflyers sofrem menor exposição ao vento relativo, conseqüentemente percorrem uma distância maior ao serem lançados da aeronave. Os relativistas por sofrerem maior exposição ao vento relativo são lançados a uma menor distância da aeronave e devem sair antes. Se os freeflyers saírem na frente provavelmente irão comandar seus pára-quedas embaixo dos relativistas, e se saírem depois irão aumentar ainda mais a distância entre os grupos de diferentes modalidades. Observe o gráfico para visualizar melhor porque os relativistas devem sair antes dos freeflyers.

Reta de lançamento:

Hoje em dia praticamente todos os pilotos lançadores de pára-quedistas utilizam um aparelho muito conhecido por todos nós chamado GPS (traduzido do inglês – Sistema de Posicionamento Global). Esse aparelho define através de uma triangulação via satélite basicamente três informações: latitude, longitude e altitude. A altitude não interessa muito no nosso caso, uma vez que as aeronaves são dotadas de altímetro e para o pára-quedista o que vale mesmo é a altura em relação ao solo. Porém, uma vez definida a latitude e a longitude podemos saber exatamente nossa posição no globo terrestre.

Mas como esse aparelho pode nos ajudar? É simples, podemos armazenar em sua memória varias informações como por exemplo as coordenadas do alvo da área de saltos, pontos ao redor do alvo e também programar uma linha unindo esses determinados pontos, traçando assim a famosa reta de lançamento. Uma vez que essas informações estão prontas, o piloto utiliza o instrumento para fazer a passagem exatamente sobre a linha pré-determinada.

Com o auxilio do GPS podemos ainda obter outras duas informações que são muito úteis para a determinação do ponto de saída (PS) dos pára-quedistas: direção e velocidade dos ventos de camada. Isso pode ser calculado pelo piloto do avião fazendo uma operação matemática que deve subtrair a velocidade indicada pelo instrumento da aeronave, que indica velocidade em relação ao ar e a velocidade indicada pelo GPS, que indica a velocidade em relação ao solo. Esse valor deve ser levemente corrigido por causa da diferença da velocidade do ar causada pela inclinação do avião durante a subida ou essa medição deve ser efetuada com a aeronave nivelada com o solo. Porém, com a utilização dos equipamentos atuais essa diferença pode ser desconsiderada.

Exemplos: O avião está na reta de lançamento em direção ao sul, a velocidade indicada pelo instrumento do avião é de 80 nós, a velocidade indicada pelo GPS é de 60 nós, portanto, naquele momento o vento vem do sul e com intensidade de 20 nós, ou seja, o avião está com vento de nariz de 20 nós durante a reta. A situação inversa se daria com o instrumento do avião indicando, por exemplo, 80 nós e o GPS indicando 100 nós, neste caso o vento vem do norte e com intensidade de 20 nós, ou seja, o avião está com vento de cauda de 20 nós durante a reta de lançamento.

Tempo/distância mínima entre cada saída:

O que a velocidade e direção do vento na reta de lançamento interferem na saída dos pára-quedistas? Esses dados estão diretamente ligados ao tempo que deve ser dado entre a saída de cada grupo. Sabemos que uma boa separação horizontal entre um grupo e outro deve ficar entre 200 e 300 metros, ou seja, o avião deverá percorrer uma distância mínima de 200 metros em relação ao solo entre um grupo e outro.

A velocidade aerodinâmica (em relação ao ar) média de lançamento desses aviões de grande porte que utilizamos atualmente fica em torno de 80 nós (40 m/s), ou seja, em um dia com vento nulo onde as duas velocidades são iguais devemos respeitar 5 segundos de intervalo. Mas devemos considerar para a determinação do intervalo de saída a velocidade em relação ao solo. Como sabemos que a distância mínima deve ser de 200 metros, uma vez conhecida a velocidade indicada pelo GPS calculamos o tempo mínimo de intervalo. Adotemos os exemplos acima: na primeira situação a velocidade em relação ao solo é de 60 nós (30 m/s), devemos manter portanto um intervalo mínimo de 7 segundos, suficientes para a aeronave percorrer 210 metros em relação ao solo. Na segunda hipótese que a velocidade é de 100 nós (50 m/s) podemos respeitar o mínimo de 4 segundos entre cada saída para que o avião percorra 200 metros.

Os pára-quedistas mais experientes dentro do avião devem colaborar para a segurança de todos coordenando as saídas e mantendo os “apressadinhos” mais tempo dentro do avião. Isso é de fundamental importância para que as próximas gerações de atletas tenham a consciência necessária para uma prática mais segura do esporte, já que finalmente grandes aeronaves são uma realidade cada vez mais presente.





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