Os acidentes no Pára-quedismo

Autor: Renato Acerbi
Data: 30/1/2002

Poucos gostam ou se sentem à vontade para falar sobre esse assunto, mas não podemos e nem devemos esquecê-lo. É através da análise dos acidentes que podemos nos preparar melhor para evitá-los no futuro.

Inicialmente podemos considerar um acidente tudo aquilo que não estava previsto para a prática do esporte e resultou em algum tipo de lesão. Não devemos nos preocupar somente com acidentes fatais porque, felizmente, eles não são uma constante no pára-quedismo. Os acidentes mais comuns são aqueles que resultam em pequenos traumas ou fraturas e em grande parte são causados por pequenos erros que facilmente poderiam ser evitados.

Uma vez que consideramos todas as lesões como acidentes, o pára-quedismo é um esporte muito menos perigoso do que algumas pessoas pensam. Ciclismo, automobilismo, boxe, futebol, basquete e outros esportes considerados mais “seguros” apresentam maiores índices de acidentes que o pára-quedismo.

Dentro do pára-quedismo, tivemos nas últimas décadas um fato muito curioso, que poderíamos descrever como uma “evolução dos acidentes”.

Antigamente, 20 ou 30 anos atrás, a tecnologia para o desenvolvimento e a fabricação dos equipamentos podia ser considerada quase inexistente. Naquela época, os pára-quedas tinham problemas sérios com a abertura e depois de abertos tinham muito pouca dirigibilidade o que exigia um PS (Ponto de saída) muito mais elaborado e que freqüentemente proporcionava um pouso fora da área prevista.

Sabemos que um pouso fora da área prevista aumenta a possibilidade de um acidente. Junta-se a isso o fato dos pára-quedas mais antigos, redondos principalmente, terem uma velocidade vertical maior e freqüentemente causavam lesões durante o pouso.

Atualmente as fábricas gastam milhares de dólares com projetos de novas tecnologias na fabricação de matérias primas e do produto final. O conceito de vôo foi modificado, novos velames cada vez mais seguros e duráveis foram desenvolvidos, tudo para aumentar a segurança e o conforto na prática do esporte. Durante todos esses anos com o avanço dessa tecnologia, os pára-quedas ficaram mais seguros, voam com melhor facilidade e são totalmente dirigíveis. Mas, ao contrário do que esperavam os fabricantes, os acidentes não diminuíram. Pelo contrário, se tornaram mais comuns e corriqueiros em uma área de salto.

Estatísticas mostram que 90% dos acidentes no pára-quedismo atual acontecem no pouso, 5% durante a navegação e 5% devido a outros fatores (queda livre, avião e etc.). Mas, por que os acidentes aumentaram mesmo com a utilização de equipamentos mais seguros?

A resposta é simples: as pessoas não se preocupam com o pouso e a navegação, elas estão mais interessadas em desenvolver suas habilidades na queda livre e se esquecem ou deixam em segundo plano que navegar e pousar fazem parte do salto e que é nesse momento que os acidentes acontecem.

Com a utilização de velames com maior velocidade horizontal e aeronaves maiores que lançam mais pára-quedistas ao mesmo tempo, a reação e os reflexos devem ser mais rápidos e conseqüentemente as colisões com outros velames ou com o solo são muito mais fortes. Pessoas com pouca experiência e com pouco tempo dentro do esporte têm acesso a velames muito mais rápidos do que deveriam usar, isso faz com que essas pessoas tenham uma reação errada diante de uma condição diferente das previstas, um obstáculo na hora do pouso por exemplo.

Grande parte dos acidentes acontece por erros mínimos que são agravados justamente pela utilização de um equipamento que não é adequado para a pessoa ou ao tipo de salto que será feito.

Cabe aos mais experientes, instrutores, diretores técnicos de clubes e federações, donos de áreas de salto e escolas, instruir, sugerir e até mesmo utilizar equipamentos adequados para seu peso, experiência e tipo de salto, para que possamos ter um menor índice de acidentes no esporte. Não devemos deixar que as pessoas se machuquem por falta de interesse sobre navegação, pouso e tipo de equipamento que utilizam.

Vamos dar mais importância para os pontos onde os acidentes acontecem para que possamos, cada vez mais, praticar e nos divertir com o esporte que gostamos tanto.

Bons saltos a todos, ótimas navegações e belíssimos pousos.

Renato “Gordinho”, colaborador do 360 Graus é instrutor AFF, Tandem Pilot, Cameraman e já fez 3100 saltos.


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