O pára-quedista que levou a mãe num salto duplo de pára-quedas

Tema:Pára-quedismo
Autor: Renato Gordinho
Data: 20/7/2001

"Mãe, você quer fazer um salto de pára-quedas comigo??? De jeito nenhum, eu não faria uma loucura dessas nem amarrada!"

Assim começou uma proposta que francamente eu achei que não ia dar em nada. Era julho de 1997, eu tinha acabado de voltar do campeonato brasileiro de pára-quedismo com uma medalha de bronze.

Havia completado 500 saltos na última rodada. Esse era o número de saltos necessários para fazer o curso de instrutor de salto duplo. Fazer salto duplo levando uma pessoa que nunca havia saltado era um objetivo desde o início da minha carreira no pára-quedismo. Sempre achei que seria muito gratificante poder mostrar a alguém aquilo que havia transformado minha vida.

A proposta estava feita, e como eu já esperava, o meu convite havia sido negado. Não iria desistir jamais de tentar levar minha mãe em um salto. Ela que sempre me incentivou no pára-quedismo, mesmo quando eu larguei meu emprego para viver somente do esporte e conseqüentemente deixar de ter uma certa "estabilidade financeira". No pára-quedismo é assim, se chover o mês inteiro sua renda fica "um pouco" comprometida.

De qualquer forma, para poder leva-la ou qualquer outra pessoa eu ainda precisava fazer o curso para instrutor. Em novembro de 1997 fiz o curso com um sul-africano que mora nos Estados Unidos e trabalha para uma fábrica de equipamentos. Nessa época eu já estava com 700 saltos e comecei novamente a insistir com minha mãe a respeito do salto.

"- E agora que eu já sou instrutor, você salta comigo no meu salto número 1000? - Não comece com essa conversa novamente. Eu não tenho mais idade para essas coisas."

Tudo bem, eu ainda tinha algum tempo até completar 999 saltos e até lá eu daria um jeito de convence-la. Desta vez a resposta já tinha sido melhor. Antes ela falava que não ia, agora falou da idade. Na minha opinião, 47 anos e uma saúde perfeita não podiam impedir nada.

Sempre que eu chegava em casa perguntava se ela tinha mudado de idéia, e a cada mês eu percebia que ela ia se animando com o salto. As respostas cada vez iam sendo mais interessantes. Agora ela perguntava sobre o salto, se era perigoso, como era o pouso, e a cada dia eu ia ficando mais curioso. Será que ela vai saltar mesmo?

Em abril de 1998 cheguei em casa e falei com todas as letras e sem rodeios.

"- Pois bem, estou com 995 saltos e o meu milésimo será no próximo domingo, você vem? - Eu vou, mas se chegar lá em cima e eu desistir nós pousamos com o avião e eu não quero ouvir reclamações."

Quase morri de alegria! Nem acreditava que ela tinha topado. Mas não adiantava contar a vitória antes do tempo. Primeiro ela tinha que ir até Campinas, assinar a papelada, treinar o salto no chão e depois subir no avião. A respeito da frase "se chegar lá em cima e eu desistir..." eu não estava nem um pouco preocupado. Uma vez que aquele avião chegasse a 11.000 pés (3300 metros), eu saltaria com ela nem que para isso precisasse amarrar suas mãos e colocar um "tape na boca de mamãe".

Finalmente o grande dia chegou! Não agüentava mais de ansiedade. Já passava das 9 horas e minha mãe não havia chegado ainda. Tinha que fazer o salto 999 antes de saltar com ela. Ligava em casa e a resposta era a mesma, ela já saiu. Quando estava indo para o avião fazer o salto 999 ela chegou e me perguntou onde eu estava indo sem ela.

Nem acreditava que minha mãe estava ali para cumprir o que havia prometido.

Quando pousei, fui direto pegar os papéis para que ela preenchesse e assinasse. Passei no manifesto para reservar uma decolagem inteira para o salto e já estava ao lado dela novamente para começar o treinamento. Chamei três pessoas para filmar a queda livre. Só não chamei mais ninguém porque não caberia no avião. Não queria correr o risco de perder uma imagem dessas por nada.

Tudo pronto, fomos para o avião. Os papeis iam se invertendo a medida que o avião ia subindo. Minha mãe ficava mais tranqüila e eu ia ficando cada vez mais preocupado. E se eu não fizer uma boa saída? E se eu não fizer um bom pouso? E se.... Tudo isso era pura ansiedade e adrenalina, afinal estava realizando um sonho. Tratei de ficar calmo pois tudo iria sair bem. Afinal, já havia feito aquilo 999 vezes.

Chegamos lá em cima e perguntei se estava tudo bem e como ela estava. A resposta foi só um "Já está na hora? Vamos logo!". A porta se abre, todos para fora e lá vamos nós. Nem acreditava que estava com a minha mãe em queda livre a 200 quilômetros por hora. Os câmeras se revezavam à minha frente porque todos queriam um close do "filhinho levando a mamãe para passear de pára-quedas".

Depois que acionei o pára-quedas, enquanto estava conversando com minha mãe, mostrando a cidade, as rodovias a área de salto e perguntando se ela havia gostado, fui interrompido com uma ordem de quem parecia estar preocupada. "- Renato, saia de cima da rodovia!!! ". Comecei a rir, ria tanto com aquela "ordem da mamãe" que mal consegui responder, "mãe, estamos em cima da rodovia, mas ela está 600 metros abaixo de nós, não tem perigo algum".

O pouso foi bom, nenhum arranhão em ninguém. Minha alegria podia ser vista de qualquer lugar da área. Tinha realizado um sonho não só meu como também de muitos pára-quedistas que até hoje tentam convencer suas mães. Depois fiquei sabendo que ninguém havia feito isso no Brasil e que só era conhecido um caso desses na Flórida com o dono de uma área de saltos.

Agora só estávamos esperando o final das atividades na área para começar a festa de comemoração com churrasco e muita cerveja. Todo mundo lá dando os parabéns à minha mãe e de vez em quando para mim também, quando surgiu um novo convite:

"- E aí mãe, vamos saltar de novo?"

"- Agora só quando você fizer o salto 5000."

Espero que ela se lembre disso daqui alguns anos, pois eu não esqueci daquela resposta e estou esperando o tal dia do salto 5000. Está chegando, já estou com 2400. Como diriam os mais velhos, "promessa é dívida", ainda mais quando é promessa de mãe.



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