Relato de um salto duplo de pára-quedas

Tema:Pára-quedismo
Autor: Meg Cotrim
Data: 11/2/1999

Pára-quedismo - Meg, na porta do avião, na saída de seu primeiro salto<br>fotos: Alex "Sangue Bom"

Meg, na porta do avião, na saída de seu primeiro salto
fotos: Alex "Sangue Bom"



Pára-quedismo - Curtindo a queda livre, a 200 km/h

Curtindo a queda livre, a 200 km/h



Pára-quedismo - A dupla e o Cessna. Quem chega primeiro?

A dupla e o Cessna. Quem chega primeiro?



Pára-quedismo - Quase abrindo o pára-quedas

Quase abrindo o pára-quedas



Pára-quedismo - O fotógrafo: Alex "Sangue Bom"

O fotógrafo: Alex "Sangue Bom"



É radical. Na verdade era um desejo que tinha há muito tempo, mas estava sem data definida. A adrenalina sempre me atraiu e talvez o fato de trabalhar com pessoas diferentes, ou melhor, não convencionais, fez com que esse vírus se alastrasse ainda mais dentro de mim nos últimos tempos.

Só para fazer uma rápida apresentação, sou jornalista e assessora de imprensa do piloto André Ribeiro, que voou baixo ao bater o recorde de velocidade do oval de Michigan, atingindo 407 km/h, também já voou em aviões de acrobacia com a Esquadrilha da Fumaça e com os Blue Angels, aviões supersônicos da esquadrilha da marinha norte-americana e recentemente fez um salto duplo de pára-quedas ou Tandem, na linguagem técnica.

Como se não bastasse, nos últimos 5 meses passei a trabalhar também com a equipe de Amyr Klink, na divulgação do projeto Antártica 360º. Um mito dos mares, que está prestes a fechar o círculo antártico, sozinho, na latitude 50º, o ponto navegável mais próximo das geleiras, o que implica numa navegação extremamente difícil e perigosa.

Bem, mas de repente apareceu a oportunidade de saltar. O André me estimulou, através dele conheci Stélio Andrade - da Brasil Salto Duplo -, campeão brasileiro de precisão em 93 e duas vezes vice (89 e 92), com mais de 3 mil saltos no currículo, que me convidou a realizar a façanha.

Minha única experiência anterior em queda livre tinha acontecido em 96, na Califórnia, num parque chamado Six Flags. Lá tem um "brinquedo" chamado Dive Devil (Descida para o Inferno), que recentemente passou a ser uma das atrações do Playcenter. É uma queda livre de 60m e dá uma sensação horrível de frio na barriga quando o equipamento desconecta e você cai. É o chamado free fall. E eu tinha receio exatamente dessa sensação, porque tinha sido realmente horrível.

Mas o Stélio tinha me garantido: "Esse frio você não vai sentir porque é diferente. Aqui você parte em movimento e não de um ponto estático. É mais ou menos o mesmo do que saltar de um carro em movimento", tentava me descrever. Como se partir de um carro em movimento fosse muito natural.

E lá fui eu. Sabadão ensolarado, segui para Boituva, Centro Nacional de Pára-quedismo. Nem parecia que ia concretizar um sonho. Cheguei às 13h30, conheci o Centro Nacional - famoso por ser a única área de salto do mundo com um aeródromo exclusivo para a atividade -, não comi (achei melhor assim !), até que às 16h00 o Stélio lançou: "A que horas você quer saltar".

Às 17h30, estávamos embarcando num Cessna 182. Eu, o Stélio e o Alex Adelmann (também conhecido por Sangue Bom), 20 anos, 5 de pára-quedismo, especialista em free fly e responsável pelo registro das imagens em vídeo e fotos. Pouco antes, já com o macacão, um rápido treinamento, com enfoque na posição de salto.

Eu continuava super tranquila, apesar das sessões de terrorismo. No embarque escuto o Stélio falando para Caio, o piloto, para checar o pára-quedas que parecia meio embolado. Aproveitei para perguntar como seria caso o pára-quedas não abrisse. "Temos o reserva", esclareceu. "Mas se este também não abrir, aí teremos um problema", emendou. Sangue aproveitou para dizer que se isto acontecesse ficaria rico com a comercialização das imagens. Como dá para perceber, um clima total de descontração e ideal para quem iria realizar seu primeiro salto…

O vôo de cerca de 20 minutos transcorreu tranquilo, conversas, brincadeiras com a gravidade zero, o Stélio e o Sangue combinando uma acrobacia. E o altímetro subindo ... Sabia que para mim a pior parte seria quando a porta do avião se abrisse e eu me deparasse com o buraco.

Por outro lado, tentava me tranquilizar pensando que só iria saber quando isso acontecesse. Mas a ansiedade era grande.

11 mil pés (3.300 metros), início dos procedimentos de salto. O Stélio me conecta ao seu equipamento e dá a instrução: "Lembra da posição do salto ? É importante você fazer direito para não sairmos capotando. Agora, você vai colocar as pernas para o lado direito fora do avião, mas não apoie os pés naquele degrau, ok ?". A porta se abre, imediatamente o Sangue sai do avião, se pendura do lado de fora para registrar minhas emoções. "Vamos", determinou Stélio, já me conduzindo em direção a porta. Concentrei-me em não apoiar os pés no degrau e quando me dei conta, estava em queda livre. Uau !!!

Tempo de queda livre: 40 segundos. Vejo o Sangue dirigindo suas pernas em nossa direção, o Stélio as segura com as mãos na altura de nossos quadris e por uns instantes ele nos filma bem perto, de baixo para cima. A 1200 metros do solo o pára-quedas foi acionado – o limite máximo para este procedimento são 500m do solo – e tudo inverteu dentro de mim. Afinal estava a cerca de 200 km/h em direção ao solo, de repente comecei a subir.

Tudo estabilizado, aí vem aquela sensação de estar levitando, voando suavemente, passeando no céu. São 5 minutos navegando até o pouso e curtindo as manobras precisas de Stélio. Hora de preparar posição de pernas para pouso. Com os joelhos flexionados, chego ao chão, ou melhor, numa caixa de brita para amortecer a aterrisagem.

Levanto. Opa ! As pernas estão completamente bambas. Perco o equilíbrio, mas logo me recomponho. Pelo menos disfarço. A sensação neste momento é de calma absoluta. Parece um transe, impressão de estar em outra dimensão. Nossa, tremenda descarga de adrenalina !!! O Sangue tenta me tirar um depoimento logo na chegada, mas só consegui dizer: Foi demais !!!

A verdade é que não dá para explicar como é, tem de saltar para saber. Mas aquele frio na barriga eu não senti…



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