Acidentes e Resgates: o médico Clemar Corrêa no Rally dos Sertões

Tema:Rally dos Sertões
Autor: Cristina Degani, de Fortaleza (CE)
Data: 4/8/2002

Neurocirurgião, médico especializado em traumas esportivos, experiente em resgates complexos, enfim, chefe há 10 anos da equipe médica do Rally Internacional dos Sertões. Clemar Corrêa, ou doutor Clemar, é um dos nomes mais repetidos nos infinitos cantos que atingem esta que é a maior competição de off-road da América Latina.

Procurado pelos competidores em busca de recomendações e pequenos cuidados, pela organização para montar a logística dos resgates e pelos jornalistas afoitos por histórias incríveis e muita curiosidade, Clemar encara o rali como uma competição de poucas baixas (acidentes) em vista do grande número de participantes.

Saiba nesta entrevista exclusiva para o 360 Graus, realizada em meio ao parque aquático de Xique-Xique, no sertão baiano, como é a rotina, as dificuldades e o trabalho da equipe médica chefiada por este grande médico.


360 Graus – Clemar, quais as principais dificuldade médicas no Rally dos Sertões?

Doutor Clemar Corrêa - Problemas locais de cada lugar. Ou vilarejo. Por exemplo, se quero tirar um raio X em Xique Xique eu não posso. Aqui, eu tenho de me virar. Nos dois hospitais públicos não tinha como fazer. Falei com o prefeito da cidade que é dono de um hospital e ia mandar abrir para eu fazer o raio X de ombro de um competidor que se acidentou.

A dificuldade é maior ainda se você pensar que uma criança que bate a cabeça tem de ser removida pra um hospital a 600 quilômetros daqui. Conversando com os motoristas de ambulâncias daqui eu sei disso. Aí ele chega no destino às vezes já morto. Então, você se encontra num país super extenso, de proporções gigantescas, que não tem uma realidade de saúde séria, então a população sofre as consequências. É triste.

360 Graus – Como é sua equipe médica?

Doutor Clemar - São 20 pessoas, sendo oito médicos, eu sou o neurocirurgião, temos cirurgião de tórax, um vascular, um cirurgião geral, três ortopedistas e um anestesista. Todos têm experiência com resgates, pronto-socorro e emergências em ambientes diferentes. O doutor Jorge Ribera, que me acompanha há três anos, trabalha no resgate do corpo de bombeiros.

Temos 12 paramédicos, sendo quatro do helicóptero Águia e dois bombeiros. Um médico do Águia para triagem que vai por fora, pela estrada, para chegar rápido na cidade de destino. Outro médico, geralmente eu, vai no helicóptero de resgate da prova para que o mesmo seja rápido, e os outros médicos e os paramédicos vão distribuídos ao longo das Especiais.

360 Graus – E como fica o helicóptero na operação médica no Rally?

Doutor Clemar - O helicóptero de resgate não fica sobrevoando a prova, pois o alto consumo de combustível é inviável para a organização. Então a equipe da aeronave estuda a planilha na véspera, os waypoints (pontos de localização marcados no GPS), verifica os trechos perigosos na prova, e posiciona a equipe toda. Se acabar a Especial e não houver caso de acidente, o helicóptero decola e acompanha o helicóptero da organização na fiscalização da prova e vai para a próxima Especial ou termina seu trabalho para a cidade de destino. Temos de respeitar o pôr-do-sol e a cidade de destino.

360 Graus – A logística parece ser bem complicada...

Doutor Clemar - Sim, e nós temos de solucionar também. Suponhamos que o sujeito que se acidentou tenha convênio médico com socorro aéreo, um jato com UTI. Mas a localidade não tem pista que suporte isso. Teve um caso assim em 94 ou 95, a primeira grande queda no rali, o piloto Luis Careca, que decolou da moto a 120km/h. A pista de pouso do avião de seu convênio não tinha iluminação e tivemos de posicionar os carros ao redor com os faróis ligados para que o pouso não tivesse problemas. Hoje o DAC, da Aeronáutica, está mais rigoroso e os resgates são feitos com jatos tipo Saitation ou Lier 35.

360 Graus – No caso de um acidente no meio da Especial, como vocês são avisados?

Doutor Clemar - Se o piloto tiver como chamar o resgate, ele mesmo aciona o resgate, fala sua referência na freqüência de rádio da organização para os helicópteros ou a aeronave Pelicano, que sobrevoa a prova. A freqüência da aeronáutica é muito usada também, porque tem maior alcance. Dependendo do caso, quando descemos no resgate, pedimos para o piloto cortar o motor, o que é raro, pois a aeronave demora quase 20 minutos.

A logística do resgate também a parte de avisar a família, avisar o seguro, avisar o transporte médico da pessoa, conversar com o piloto da aeronave sobre a condição de pista, fazer o relatório detalhado do vôo, confirmar a vaga no hospital de destino, isso tudo com a pessoa está gemendo e sofrendo com uma fratura tripla de bacia - no caso do piloto de quadriciclo Robert Naji Nahas - e isso sabendo que posso ser chamado a qualquer instante por outra emergência.

360 Graus – O que mais preocupa os competidores com relação à saúde?

Doutor Clemar - O que mais judia de todos no rali é a secura da garganta e olhos. Fala-se muito, bebe-se pouco, muito ar seco e poeira. Eu sempre indico a todos um spray de própolis e balas, para manter a boca fechada mesmo. E colírio. Pedimos pra todos, organização, competidores, mídia, andarem a maior parte do tempo de vidros do carro fechados, para justamente não termos esse tipo de problema.

360 Graus - Clemar, você considera alto está o índice de acidentes da 10a edição de Rally dos Sertões?

Doutor Clemar - Os acidentes estão dentro do esperado. O aumento do número de participantes de 2000 para cá foi Como todo esporte em ambiente natural e com certa dose de adrenalina, o rali off-road proporciona cenas belíssimas, mas também acidentes de percurso e até casos graves. Os acidentes progridem conforme o desgaste do equipamento e do piloto. A progressão dos casos de acidente é diretamente proporcional às dificuldades da etapa e ao cansaço dos pilotos e navegadores, que dormem menos, estão preocupados, cansados e com uma perfomance pior.

360 Graus – Qual o principal inimigo do piloto nas trilhas?

Doutor Clemar - As depressões do caminho são os piores obstáculos e não necessariamente os pulos como todos pensam. Quando o navegador vê o caminho ele não enxerga as depressões e quando os competidores passam podem decolar e uma boa queda vai depender muito da rajada de vento que ele tomar, pois ele pode cair numa roda, pode cair em outra de depressão e daí acontecer um acidente muito mais grave.

360 Graus – Os acidentes fazem parte deste rali assim como os equipamentos sofisticados de segurança. Gostaria que você comentasse um pouco sobre a proteção dos competidores.

Doutor Clemar - Veja, Cris, antes, o Rally dos Sertões era uma coisa mais romântica, não havia tantos acidentes importantes. No primeiro rali tínhamos 36 motos, 28 conseguiram chegar. Eu mesmo ia de moto carregando numa mochila os equipamentos médicos. Eram pilotos que vieram no enduro de rali de regularidade, mais acostumados com navegação. Não tinha essa de dar 180 km/h na terra, davam 130 no máximo. Eram motos Agrale 200; agora temos KTM 640.

Hoje temos 95 motos e 81 carros, de 36 veículos saltamos para 180 veículos. Se você permite que o cara corra, ele tem de ter um equipamento melhor, capacete melhor, óculos, joelheira, colete, cotoveleira, tudo isso cria uma logística de terra melhor. Antes, quem fazia motocross vinha com uma calça de cross e fazia o rali. Se isso acontecesse hoje, ele se estoura a 150 km/h. Às vezes, numa queda a mais de cem por hora, não acontece nada, porque debaixo da calça ele tem uma cueca, uma bermuda com lateral acolchoada, joelheira, caneleira.

O cara tem equipamentos desenvolvidos para rali. Ele vai acelerar mais, isso não tem jeito. Se o cara cair a 200 por hora do asfalto não tem problema se ele estiver com esta série de equipamentos. Mas se ele cair em terra, decolar na moto e cair numa árvore, os equipamentos apenas amenizam um resulatdo ruim.

360 Graus – Como assim?

Doutor Clemar - Ao longo dos anos do rali, você vê que as Especiais são mais longas, velocidades médias mais altas, e, veja, o choque para os pilotos de moto é maior. O joelho deles é o pára-choque, o pára-brisa é a viseira. Já o competidor de carros pode se dar ao luxo de colocar um colar cervical, um capacete mais seguro, pois não necessita de tanta aerodinâmica, ele tem ainda um cinto de quatro pontos e um banco concha.

360 Graus – Sabemos que os acidentes graves ocorrem nas etapas de transferimento/deslocamento. É verdade?

Doutor Clemar - Sim! Os únicos cinco casos registrados de mortes foram no deslocamento. Um com um piloto, o Beto, que corrida pela Troller, e em Nesta edição, um transferimento muito complicado foi de Xique-Xique (BA) a Floriano (PI), no meio do sertão entre os dois Estados. Além de muito longo, que exigirá um boa estratégia de reabastecimento, temos de pensar nos acidentes.

360 Graus – Explique qual a relação.

Doutor Clemar - Porque a estatística mostra que nos últimos dias de rali o cara está cansado e na história do Sertões cinco pessoas já morreram. Todas no deslocamento. E somente um era piloto, o Beto. As pessoas que morreram duas não eram da prova, uma era motorista de fotógrafo, outro um cinegrafista que entrou num rio com forte correnteza e não sabia nadar. No deslocamento o competidor não tem o direito de capotar. Ele tem uma margem de segurança muito grande para chegar no local no horário certo. Só que o piloto quer chegar rápido, dormir cedo, deixar o carro com os mecânicos, sair na cidade e aí fica complicado.

360 Graus – Este ano tivemos um caso assim...

Doutor Clemar - Sim, é verdade. No dia do longo deslocamento para Xique-Xique (BA), foi pulverizado um carro de apoio da equipe Mitsubishi, do Maurício Sala, que tinha um fotógrafo deles a bordo. Veja, eles passaram pelo comboio de imprensa numa velocidade absurda e não deu outra: numa próxima curva estava o carro capotado, todos os integrantes espalhados no chão. Aí o médico do comboio fez os primeiros-socorros e despacharam para os hospitais.

Qual o resultado? Os acidentados foram levados para Barra, duas pessoas com fratura de crânio, graças a Deus leve, um com trauma de tórax. Imediatamente atendemos no hospital da cidade e foram removidos no mesmo dia para seus hospitais de convênio em São Paulo. Isso enquanto todos se deslocavam para as próximas cidades e então um cara capota e complica tudo. Apoio e imprensa não são competidores. Organização não é competidor. O rali é dos pilotos e navegadores e não de quem está trabalhando nele ou por ele.



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