
Roger Haybittle ao lado do filho, Fabrício Bianchini, durante premiação
Foto: Daniela Mansur

Fabrício com sua moto em ação
Foto: Daniela Mansur

Tiago e Décio Fantozzi: filho e pai no Rally dos Sertões
Foto: Érika Takenouchi/ Equipe 360 Graus

Tiago Fantozzi, na Especial em Pirenópolis
Foto: Gustavo Mansur/Equipe 360 Graus
Motos, velocidade, terra, pedras, buracos, cansaço. Mas também sabedoria e respeito. Para dois dos melhores pilotos de Motos da 10ª edição do Rally Internacional dos Sertões esse é o resultado de 10 dias de aventura no sertão brasileiro, percorrendo 4.400 quilômetros de estradas precárias, acelerando para estarem à frente de 85 competidores da mesma categoria, porém compartilhando da convivência com os pais. Somente 59 motociclistas conseguiram terminar. Tiago Fantozzi e Fabrício Bianchini, terceiro e quarto lugares em Motos Superproduction, tiverem a companhia de seus pais durante o Rally dos Sertões.
Os dois jovens pilotos, melhores amigos e companheiros de treinos - eles moram em Alphaville (Grande São Paulo) e a família é muito amiga - correm provas de cross-country e fizeram motocross muito pelo exemplo que têm em seus pais, do tempo em que as XL 250 eram o máximo. Do tempo que Agrale em ralis de moto também era o máximo. E do tempo que os dois usavam fraldas e viam os pais Roger e Décio, cada um na sua especialidade, rasgando trilhas sobre duas rodas.
Décio, que é responsável pela cronometragem do rali, foi comentarista do 360 Graus neste 10º Rally dos Sertões. Encontrava o filho Tiago quase todas as noites e dava conselhos para ser tranquilo e não estressar muito. "Foi muita responsabilidade para ele achar que tinha de segurar o título de vencedor pois foi campeão no ano passado", conta Décio. "Mas Tiaguinho tem a cabeça no lugar, estou muito orgulhoso dele e trouxe até a mãe para parabenizar". completou Décio, na chegada na praia do Cumbuco (CE).
Mais que incentivadores e amigos, os pais desses dois jovens revelam todo o carinho que os filhos demonstram ainda mais hoje, no Dia dos Pais. Décio Fantozzi e Roger Haybittle, nomes conhecidos no Rally, são os pais de Tiago e Fabrício e a história do sucesso deles se confunde com a persevança e entusiasmo dos pais, assim como acontece com muitas famílias, que acreditam na garra dos filhos e transmitem todo o apoio possivel para que o sonho de ambos se concretize.
Na cola para tudo acabar bem
Gaúcho de Porto Alegre (RS), Fabrício com 22 anos teve a companhia de seu pai, Roger, de 39 anos, durante as duas semanas de rali no meio do sertão brasileiro. Literalmente na cola, o pai acelerou na categoria Production junto com o filho, mas como Fabrício teve problemas no motor logo nos primeiros dias, teve de abrir, preparar e mudar para a categoria Superproduction. A disputa com o pai ficaria só para a classificação Geral de Motos.
Mas, Roger estava na cola de Fabrício por outro motivo: queria ver o filho terminar a prova. E bem. No ano passado, estréia de Fabrício no Sertões - prova que ele acompanha desde pequeno com o pai, que navegou em 96 para o hoje organizador Marcos Ermírio, na época em que o rally era dirigido por Dyonísio Malheiro - o piloto se acidentou e quebrou duas costelas, por andar tão adrenado. este ano, adotou a técnica do chefe de equipe Elder e equilibrou nos 80%. E prestou atenção no pai: "no Rally dos Sertões, não é a velocidade que faz ganhar, mas a resistência e concentração", reflete Fabrício.
Sábias palavras, segundo Fabrício. O piloto ficou em sexto lugar na Geral de Motos e seu pai em 29º. Disputa para o filho, que pilota desde os 11 anos, alegria para o pai, que conseguiu duas vitórias: ver o filho terminar inteiro o rali e ele próprio vencer seu afastamento de quatro anos dos ralis. Roger sofria de problemas na coluna e teve de fazer cirurgias de hérnia de disco, e conseguiu dois de três objetivos: terminar o Sertões e fazer um bom tempo, completou o Iroman de Florianópolis em abril passado e quer ainda este ano fazer a Maratona de Nova York.
Muitas vitórias pedem boas estratégias. Como explica Fabrício, nada melhor que o velho "vivendo e aprendendo"... Este ano ele optou por uma moto melhor, uma KTM, mas - explica ele - como a moto é para enduro, teve de checar todo dia como "estavam as coisas lá dentro". Lição de seu pai e de seu chefe de equipe. "E tem de tirar a mão, nada de acelerar acabar nas retas, tem de tirar a vantagem nas partes sinuosas e pedras, terrenos técnicos".
Momento complicado: adeus motor
A meta dele era estar entre os 10 primeiros da Geral. Conseguiu. A meta do pai, também cumprida. Mas, sempre existem as "zicas", coisas que eram para não acontecer, não dar errado. Mas... "na Especial dos 10 anos, linda, 130 quilômetros de areião no oeste baiano até o Piauí.meu motor parou", conta Fabrício. "No começo da Especial, acelerei bem. Nos últimos 20 quilômetros eu estava cantando, feliz da vida, pois havia sobrevivido ao mar de areia no meio do nada.
Mas faltando uns quatro quilômetros, minha moto começou com uma barulheira no motor.... um grande investimento e seis meses de preparo estariam indo para o lixo. Comecei a ir bem devagar, pois a moto estava perdendo potência e consegui levar ela até uns 400 metros da linha de chegada, mas o barulho era tao assustador, que eu acabei a prova empurrando a moto. Fiz o quinto melhor tempo desse dia e depois fui do rebocado por 355 quilômetros até a cidade destino no dia, Floriano (PI)". Fabrício teve de mudar de categoria por causa disso.
A passagem do piloto pelo Rally dos Sertões 2002 teve "causos" interessantes e não só situações complicadas. Na Especial de Bom Jesus da Lapa para Xique Xique, Fabrício ficou sem gasolina nos 100 primeiros quilômetros. Ele parou, como descreve, "no meio de coisa alguma, um nada no meio do nada". Dois rapazes numa casa de pau a pique acabaram passando por ele e Fabrício acabou perguntando se tinham gasolina. "Claro achei que minha pergunta era a mais louca, mas não é que um deles saiu correndo, entrou na casa e trouxe três garrafas pet cheias de gasolina? Foi inacreditável!". O menino cobrou dele 12 reais, mas como não tinha trocado, era 10 ou 50, e Fabrício acabou pagando com 50 reais.
Histórias assim, conta ele, são possíveis graças ao apoio do pai dele. "Acho que como pai de piloto, ele deve ter aquela agonia de querer saber se deu tudo certo", pensa Fabrício. Mas como ele é piloto e sabe que tenho a cabeça no lugar, acha bom também se preocupar com os tempos!", brinca. "Eu adoraria que todos pudessem compartilhar do incentivo que pais como o meu dão pros filhos. Como ele adora o esporte, sempre incentivou eu e meu irmão, isso é a melhor coisa que poderia ter me acontecido no mundo, ser filho do Ró". Recadinhos para o pai? "Acho que é o que todo filho falaria: Pai, valeu por tudo.... te amo!"
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